HOMENZINHOS

HOMENZINHOS

Em quantos filmes já vimos um caso de arrendamento estar no centro de um delicado melodrama? Ira Sachs tem uma extraordinária habilidade para falar da beleza e fealdade das relações humanas através de questões imobiliárias, e tem-na, do mesmo modo, para retratar Nova Iorque através das adversidades vividas pelas suas personagens. «Homenzinhos», à semelhança do anterior «O Amor é uma Coisa Estranha» (2014), é uma narrativa fixada sobre o quadro preciso de uma mudança – se nesse último conhecíamos a situação transitória de um velho casal gay obrigado a viver em casa de amigos até encontrar uma renda sustentável, no novo filme temos uma família que se desloca para um apartamento em Brooklyn, obtido por herança, fazendo-se automaticamente proprietária de um espaço alugado do edifício. Com efeito, por baixo do apartamento existe uma loja de roupa, um comércio tradicional que subsiste devido à baixa renda que era praticada pelo anterior senhorio. Mas, com os novos locadores, e o fenómeno da valorização imobiliária a pressionar um aumento, algo se desmorona no teor das relações que, a princípio, eram saudáveis. Este é o lado concreto das coisas, um problema mensurável pela expressão dura da mulher (Paulina García) que vive daquele pequeno negócio, agarrada à máquina de costura e aos cigarros.

No entanto, Sachs, ao sublinhar o conflito dos adultos, só nos quer falar da harmonia que vai crescendo entre o tímido filho dos proprietários, Jake (Theo Taplitz), com jeito para o desenho, e o extrovertido filho da costureira, Tony (Michael Barbieri), aspirante a ator. Uma amizade tão natural quanto mágica, tão graciosa quanto intensa. Andar de patins e trotinete pelas ruas, lado a lado, numa cumplicidade silenciosa, pode ser a mais bela das imagens… Eles são adolescentes fora do estereótipo da juventude que se vê repetidamente no grande ecrã. Expostos à hostilidade dos pais, configuram uma melodia que persiste em tocar, mesmo que lhe alterem o volume.

Mais uma vez a partilhar os créditos do argumento com Mauricio Zacharias, e na magnífica subtileza do seu cinema, Sachs dá-nos, através do semblante desta amizade, as nuances de uma história de amor. Mas desengane-se quem por esta ideia depreender um gesto literal. Aqui nunca se indicia ou estabelece o que quer que seja, nunca se tropeça nos lugares-comuns. Eis a grande gentileza narrativa de «Homenzinhos», um filme sensível que requer a própria sensibilidade do espectador.

Ira Sachs tem, de facto, um lugar especial entre as cinematografias a seguir com atenção.

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