GUERRA CIVIL

GUERRA CIVIL

Sem a preocupação de contextualizar detalhadamente o espectador acerca do incidente que se surge no seu título, «Guerra Civil» é um espetáculo áspero, editado de modo taquicardíaco, numa costura de gestos anti-heroicos que se desviam de ações épicas. Estamos diante de uma América engolida por um conflito de secessão, tão violento quanto o combate entre ianques e confederados, porém, não é fácil de saber quem é quem. Ouve-se falar numa organização que se chama Western Forces (ou Forças Ocidentais, em português), mas nada se sabe dos seus paradigmas. Pouco é dito sobre o presidente, interpretado por Nick Offerman. Por isso, a equipa de jornalistas que serve de protagonista ao novo filme do escritor Alex Garland deseja tanto ouvi-lo, in loco, e cruza os EUA atrás dele. São repórteres de diferentes graus de experiência, com Kristen Dunst a interpretar uma fotógrafa, Lee, especializada em embates bélicos. Há o sábio produtor de reportagem, Sammy (Stephen McKinley Henderson muito inspirado), que garante à longa-metragem uma das suas sequências mais catárticas. Há uma aprendiza na arte de fotografar, Jesse (Cailee Spaeny). Há ainda o abutre, aquele profissional obcecado pela notícia a qualquer custo, que se jubila ao ver brutalidades, por saber que ali há um furo: Joel, uma figura controversa que Wagner Moura é capaz de humanizar.

Essas quatro almas penadas são o fluxo condutor de uma viagem por um país fragmentado por razões que levaram a barricadas, arame farpado nos muros e armas por todo o lado. A alusão a Donald Trump beira o didatismo, por vezes, mas nomes não são citados, nem as causas são ditas. Assume-se que o colapso dos Estados Unidos… e ponto. O que se vê é uma aventura em prol do registro documental de um tempo de desordem.

A proposta é coerente (leia-se “autoral”) com a linha dramatúrgica de Garland, que despontou para o estrelato na prosa, em 1996, com «A Praia», romance adaptado por Danny Boyle em 2000. Ele escreveu argumentos na sequência até se estrear como cineasta com «Ex-Machina» (2015), uma imersão metafísica no terreno da sci-fi para falar da maquinização do mundo. Foi saudado como um realizador promissor e cumpriu com a expectativa acerca do seu talento para provocar ao cartografar o sexismo institucional em «Men», exibido na Quinzena de Realizadores de Cannes, em 2022. Nesse filme também não se preocupava em dar respostas, assumindo a bestialidade do machismo como um vetor de um processo de opressão.

O que faz de diferente em «Guerra Civil» é aplicar essa sua triagem de brutalidades aos códigos da distopia, construindo um filme febril. A participação de Jesse Plemmons, com uma pergunta cortante – “Que tipo de americanos são vocês?” – é o apogeu da sua fricção por um terreno de género no qual dispensa a fantasia e abraça o realismo.

Título original: Civil War Realização: Alex Garland Elenco: Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny, Stephen McKinley Henderson, Jesse Plemons, Nick Offerman Duração: 109 min. EUA/Reino Unido, 2024