GLOW: Aqui, quem veste as calças são elas

GLOW: Aqui, quem veste as calças são elas

Depois de uma primeira temporada de contextualização, o elenco de «GLOW» [“brilho”, na sua tradução literal] está de volta para andar finalmente à ‘porrada’. Com um treino muito intenso, que tentou colocar as atrizes à altura do desafio, Ruth (Alison Brie) e companhia vão ter agora a prova derradeira: será que são mesmo capazes de fazer da série de wrestling um sucesso de audiências? E será que Debbie (Betty Gilpin) vai levar o novo emprego (demasiado) a sério? As perguntas são muitas, e a série da Netflix não tarda a dar-nos respostas.

Por mais incrível que pareça, a série criada por Liz Flahive e Carly Mensch tem mesmo um fundo de verdade. «GLOW: Gorgeous Ladies of Wrestling» tinha tudo para ser um fracasso – mulheres sem particular talento e com um orçamento reduzido a combater na TV? –, mas a verdade é que foi um sucesso e fez furor entre 1986 e 1989, altura em que o canal retirou inexplicavelmente o apoio. Assim como acontece na narrativa, que retrata a sua fonte de inspiração de forma sublime, os confrontos entre lutadoras eram assentes em estereótipos e os conteúdos tinham como imagem de marca o facto de serem politicamente incorrectos. Preconceito para com estrangeiros, figuras nada tradicionais e fora da norma? Com certeza!
Protagonista de «GLOW» e vilã na ‘série de ficção dentro da ficção’, Ruth é o fio condutor de que depende toda a ação. Por um lado, o espectador é tentado a empatizar com a personagem principal, ainda que as suas escolhas sejam frequentemente questionáveis e seja logo apresentada, no piloto, como alguém que teve um caso com o marido da melhor amiga. A verdade é que, apesar dos traços de vilania, Ruth tenta efetivamente mudar e, a certa altura, já não se sabe quem é mais culpada – se ela, se Debbie.

Curiosamente, o seu papel de má da fita assume a forma de uma personagem russa, ‘brincando’ com o conflito histórico entre a Rússia e os Estados Unidos, nomeadamente no que diz respeito à Guerra Fria.


Primeiro estranha-se, depois entranha-se. «GLOW» apresenta-se como um argumento simples e recheado de figuras desajeitadas mas, a certa altura, a falta de jeito revela-se como uma componente intencional e não sinal de pouca qualidade. O elenco, na sua generalidade, é composto de atrizes pouco conhecidas que, fazendo jus às atrizes que interpretam, procuram sair da sombra para brilhar no pequeno ecrã. Assim como na série que lhe deu origem, a humilde «GLOW» está assente em estereótipos, mal-entendidos e storylines pouco trabalhadas, que reduzem a sociedade norte-americana a uma troca de golpes constante entre a pátria e o exterior.

Torna-se irónico falar de uma sociedade preconceituosa, vista a três décadas de distância e com muito humor, numa altura tão conturbada para os Estados Unidos. A construção de um muro a separar a fronteira com o México continua a marcar a atualidade, sobretudo com as imagens recentes de filhos a serem separados à força dos pais. A defesa da tradicional família americana e bons costumes é um dos artifícios base para a trama extra-wrestling, resultando como uma caricatura, por vezes até ‘simpática’, de uma face mais negra da sociedade – e que, sendo passado, continua infelizmente a estar presente.


A segunda temporada é ainda melhor do que a primeira

Sem a preocupação, natural, de contextualizar as personagens e a narrativa, «GLOW» pode, por fim, ser aquilo a que se propõe em absoluto: os bastidores de uma série inusitada nos anos 80. A relação de Ruth com as colegas melhorou substancialmente, ainda que o realizador Sam Sylvia (Marc Maron) continue a mostrar a sua aparente antipatia por ela. Não obstante, a situação acaba por ser mais complexa do que parece, e a revolta do realizador está relacionada sobretudo com a atitude de Ruth, que não tem medo de chamar para si as responsabilidade, ameaçando a figura todo-poderosa masculina.

A veia feminista da série é evidente e fala por si, sem necessidade de grandes truques estilísticos: ela faz parte da trama com naturalidade. Por um lado, temos a crítica frequente ao entendimento do lugar dependente da mulher, bem como à dificuldade que esta tem em assumir-se em lugares de destaque na vida profissional, como a realização ou a produção. Por outro lado, embora as mulheres estejam em maior número, são constantemente incapazes de superar a voz masculina, que decide, usa e abusa da falta de poder que a sociedade permite à mulher. Há muito humor, sim, mas «GLOW» também sabe falar muito a sério.

A segunda temporada arranca cheia de força, indo direta aos assuntos e trabalhando as pontas soltas que foram deixadas em aberto na estreia. Além do mais, e ao contrário do que acontece no ringue, a série da Netflix não distingue com a mesma clareza heróis e vilões, pelo que o/a espectador/a vai ter muitas surpresas, sobretudo se acha que já sabe tudo sobre as personagens. No fundo, «GLOW» separa muito bem a sua realidade da realidade que faz parte da série de wrestling e, por conseguinte, da homenagem à original dos anos 80. Embora as cartas sejam colocadas todas na mesa, há sempre um trunfo pronto a ser lançado e a mudar o rumo do jogo.

Sem revelar muito sobre o que aí vem, há dois pontos que prometem marcar a segunda temporada e, também, contribuir para o elevado nível que esta promete. Por um lado, a trama aborda as situações de assédio sexual a atrizes, seguindo inclusivamente os truques que foram atribuídos ao produtor Harvey Weinstein, e que deu origem à onda de denúncias. A ocorrência contém os clichés próprios desta questão, desde o julgamento dos pares à (auto)culpabilização da vítima. Por outro lado, há um acidente que tem um duplo efeito – altera o presente da narrativa e a postura do espectador relativamente àquilo que tem assistido.

O regresso reforça a qualidade do elenco secundário, com atrizes revelação como Britt Baron, Sydelle Noel, Britney Young, Kate Nash e Gayle Rankin, ou a confirmação de Chris Lowell como um ator a ter em conta, mas estabelece sobretudo a posição de Alison Brie. De «Mad Men» a «Community», passando por «Sem Compromissos» (2015) e «Um Desastre de Artista» (2017), a atriz está finalmente a ter oportunidade de mostrar o que vale.

Com uma nomeação ao Globo de Ouro em carteira, e boas expetativas para a próxima temporada de prémios, Alison promete fazer ainda melhor do que em 2017… E mais não digo!

[Texto originalmente publicado na Metropolis nº60 Julho 2018

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