Festival_San_Sebastian_Madalena_Revista_Cinema_Metropolis

Festival de San Sebastián – Madalena

Festival de San Sebastián – Madalena

Madiano Marcheti refina a estética da ausência em ‘Madalena’
Rodrigo Fonseca

Graças ao diretor estreante Madiano Marcheti, mato-grossense radicado em Moçambique, o 69º Festival de San Sebastián teve a chance de visitar terrenos ainda pouco explorados pelo cinema da geografia do Centro-Oeste brasileiro, quase sempre retratado em filmes do Distrito Federal ou em imagens do Pantanal, nas belas tomadas de «Madalena». O jovem realizador escalado para concorrer na Espanha, nos Horizontes Latinos de Donostia, foi por um caminho longe dos lugares comuns nessa sua longa-metragem de estreia, produzida pelas produtoras Polo Filme, a Raccord, a Viralata e a Terceira Margem. Com toques de suspense e muita contemplação, a narrativa explora as sequelas existenciais (e morais) do assassinato de uma mulher trans, vista sob a ótica de núcleos de personagens distintos. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a longa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

Qual é o lugar que o cinema brasileiro, historicamente, reservou para personagens e cineastas trans e o que o seu filme abre de novo nesse espaço?
Madiano Marcheti: A representação que historicamente tem sido reservada a personagens trans no cinema e, principalmente, na televisão é extremamente problemática, sendo um claro reflexo de um mundo construído a partir de uma lógica cisgênera e heteronormativa. Lógica que enxerga corpos trans como desviantes. Vejo dois caminhos muito claros de como pessoas trans tem sido representadas, de maneira problemática e deturpada, na cultura popular: através do prisma da criminalidade/marginalização ou através da ridicularização, de um pretenso humor jocoso e ofensivo. Crescemos vendo personagens ou pessoas trans na TV, mas elas só apareciam nos noticiários policiais sensacionalistas, seja como vítimas de violência ou homicídio, ou como as autoras de crimes – frequentemente, crimes pequenos. E há esses casos com as travestis ou pessoas trans sendo retratadas com um “humor” de muito mau gosto, jocoso. Por outro lado, também crescemos vendo personagens trans em programas onde elas eram quase sempre retratadas como objeto de piada, do ridículo, quase sempre interpretadas por atores cisgêneros e homens heterossexuais. No cinema não foi tão diferente. Personagens trans eram geralmente associadas ao universo noturno ou marginal. Nos últimos anos, as coisas estão mudando. Muitos filmes brasileiros abordam o tema da transexualidade de outra forma, buscando outros caminhos de representação que fogem desses estereótipos tão negativos. Na televisão também há mudanças. Fico muito feliz em ver que, agora, há espaço para que uma personagem trans (interpretado por um homem trans ou mulher trans) possa, por exemplo, dar um beijo em uma telenovela. É um super avanço. Mas as imagens das pessoas trans que parte da minha geração – e das passadas – estava acostumados a ver, permanecem com força no imaginário popular. Afinal, são décadas dessa construção. “Madalena”, assim como diversos outros filmes brasileiros, inserem-se numa onda que ajuda a romper essa forma de representação viciada em relação às pessoas trans. E isso é preciso, pois este tipo de representação ajuda a perpetuar a estrutura social e institucional de exclusão que força pessoas trans às margens da sociedade. Servem como base para a propagação de várias formas de violência, não somente em termos de agressão física, mas também de violência verbal e psicológica, além de gerar barreiras legais e obstáculos de acesso à educação, à saúde e ao mercado de trabalho.

© Madiano Marcheti/Raccord


Como foi estruturado o teu casting e a tua direção de elenco?
Madiano Marcheti:
O produtor de elenco, Giovani Barros, e eu fomos para Campo Grande e Dourados, cidade no Mato Grosso do Sul onde a maior parte do filme foi rodado. Isso foi algum tempo antes das filmagens. Fizemos muitos testes com atrizes e atores locais para definir a maior parte do elenco. Como a maioria do elenco trans não tinha experiência em atuação, fizemos algumas oficinas de interpretação com um grupo de mulheres, até encontrar ali quem faria qual personagem. Uma vez tendo o elenco escolhido, a preparadora Joana Castro juntou-se a mim e passamos aos ensaios. O elenco é misto, tendo pessoas com bastante experiência em atuação e outras com nenhuma. O nosso desafio foi encontrar o balanço entre os registros, tentar equalizar as discrepâncias quando elas surgiam. Por mais que tenhamos feito leituras com todo o elenco, os ensaios se deram de forma separada, por núcleos, assim como é a estrutura do filme. Foi um momento incrível, em que o roteiro pôde ganhar corpo e crescer muito. Não sou um diretor apegado cem por cento ao que está no papel. Procurava estar aberto, muito atento ao que atores traziam, ao que surgia por acaso, aos erros que soavam mais interessantes do que as certezas do roteiro. Por isso, graças principalmente aos processos de improvisações que propunha nos ensaios com o elenco de atrizes trans, o roteiro ganhou muitas novas camadas. Ganhou algumas situações e falas que não tinham sido escritas antes, na sala de roteiro [argumentistas].

Madalena_Festival_San_Sebastian
© Madiano Marcheti/Raccord


Que reações mais curiosas você vem detectando, de público e crítica, de Roterdão até hoje?
Madiano Marcheti:
Infelizmente, fora San Sebastián, não pude estar presente em nenhum dos outros festivais do qual o filme fez parte até hoje, por causa da pandemia de COVID-19. Por isso, estou animado e bastante emocionado por estar agora no festival espanhol, o primeiro em que tive a chance de estar presente, em uma sessão do filme. Senti que há um interesse muito grande por parte do público sobre o lugar no Brasil onde a trama se passa e sobre a situação da comunidade trans no meu país, agora. Sobre a crítica, de modo geral, o filme tem sido muito bem-recebido. “Madalena” tem uma estrutura narrativa incomum, citada por alguns como arriscada, mas isso tem sido um ponto forte para a crítica. A maneira como o filme se debruça sobre os temas da transfobia e da degradação ambiental, fugindo a padrões estruturantes da narrativa clássica e fugindo, também, dos estereótipos de representação das pessoas trans. Algo que acho curioso em algumas reações é que, algumas vezes, a personagem Madalena é tomada como prostituta, sendo que não há nenhum indício no filme sobre qual seria o trabalho dela. Creio que essa leitura se dá pelo fato de muitas pessoas associarem as pessoas trans e as travestis com a prostituição. Embora o filme não defina qual era a profissão de Madalena, não tínhamos em mente que esse era o trabalho quando escrevemos o roteiro. Acho curiosa essa leitura por parte de alguns espectadores ou jornalistas, pois revela muito do nosso pre-conceito enquanto sociedade, em relação ao universo tão diverso das pessoas trans.