«Fallout» é uma série da Amazon Prime produzida pela dupla de peso Jonathan Nolan e Lisa Joy, responsáveis por «Westworld», «The Peripheral » e «Reminiscência».

«Fallout» é baseado num popular videojogo lançado em 1997 que teve inúmeras sequelas de grande sucesso. A acção desenrola-se em 2296, num mundo pós-apocalíptico, e a série segue o modelo visual do jogo com um look retro futurístico e com a combinação da iconografia americana dos anos 1950 com um futuro pós-nuclear mantendo também os gadgets que já estavam presentes no videojogo. Os sobreviventes vivem em silos subterrâneos espalhados pelos EUA, mas há todo um mundo mais grotesco à superfície que não teve possibilidade de se refugiar nos abrigos e que evolui entre aberrações, a radiação, a desordem, o caos e o desespero.

«Fallout» tem uma história muito original, cheia de revelações que temos de saber guardar muito bem para não estragar o prazer a todos aqueles que desejam assistir a esta interessante série sci-fi. Uma série que combina alguns géneros e tem uma componente (tal qual o jogo) que abraça os códigos do cinema de série B (independentemente da escala deste projecto). Este western sci-fi teve como showrunners Geneva Robertson-Dworet (argumentista de «Capitão Marvel») e Graham Wagner (argumentista de «Portlandia»).

Temos três grandes protagonistas e as suas histórias cruzam-se para apresentar o universo de «Fallout». A protagonista principal é Lucy (Ella Purnell), que vive numa meritocracia no seu Cofre 33, no sul da Califórnia. Após um ataque ao seu silo subterrâneo, por parte de invasores da superfície, o seu pai é capturado e Lucy sai do abrigo para o mundo exterior. Maximus (Aaron Moten) é um jovem que foi acolhido pela Irmandade do Aço, uma mistura do culto religioso com o militar. A principal função desta seita é capturar a tecnologia para assim continuarem a dominar os humanos que sobreviveram ao holocausto nuclear. Maximus dá por si incumbido de uma perigosa missão que pode mudar o destino do mundo. E o personagem de The Ghoul (“o fantasma”) é um mutante que esconde todo o passado destes eventos e procura um artefacto precioso. Estes três personagens têm os seus motivos para vaguearem na terra desolada e pejada de perigos.

A viagem de Lucy é a mais complexa, ela vive o confronto do seu mundo de regras (ordem, compaixão e harmonia) com o mundo real, cheio de segredos e onde ela terá de aprender a se adaptar para poder sobreviver. O que fará ela para subsistir e qual será o custo na sua personalidade? A actriz Ella Purnell tem uma interpretação cheia de afirmação, mas a estrela da série é Walton Goggins. É um actor genial que vi pela primeira no início dos anos 2000 em «The Shield», de Shawn Ryan, a série que o colocou no mapa. A partir daí, especializou-se em criar personagens que ultrapassam o ecrã e perduram na memória dos espectadores – sejam as suas colaborações com Tarantino, as hilariantes séries de comédia «Vice Principals» e «The Righteous Gemstones», ainda o icónico papel principal na série CBS, «The Unicorn», e, claro, o supremacista branco com vários parafusos a menos em «Justified». Em «Fallout», Walton Goggins é um show sempre que aparece em cena, seja como o mutante que é pragmático e fatal ao mesmo tempo que interpreta as reminiscências do seu personagem no passado antes do advento apocalíptico. E não podemos dizer mais nada… estamos proibidos de revelar spoilers.

Jonathan Nolan e Lisa Joy voltaram a impulsionar mais um mundo distópico onde a humanidade luta contra a sua natureza predatória versus a empatia, o entendimento e a paz. «Fallout» testa os limites sobre o sentido da vida. Se devorarmos os 8 episódios que formam a primeira temporada vamos perceber, em diferentes níveis, o alcance da narrativa de Jonathan Nolan. Não seria necessário surgir «Fallout» para perceber o seu génio, é um autor interessado na criação de histórias pessoais, se preferirem, jornadas íntimas perante universos distópicos com fundos tecnológicos que nunca deixam de abordar temas profundamente humanos apesar de todo o seu aparato visual. A série está bem realizada (os três primeiros episódios são dirigidos por Jonathan Nolan), a narrativa é consistente e necessita de paciência para se desmultiplicar e dar naturalmente o salto para a segunda temporada.

A primeira temporada de «Fallout» passa pela apresentação deste universo, depois a convivência num mundo cão, a desconstrução da realidade e a verdade que é um soco no estômago, mas que afinal é um reflexo da própria raça humana. Fica tudo em pratos limpos, não há pontas soltas e tudo é explicado de uma forma mais ágil entre o presente distópico e a contagem decrescente para o holocausto.

https://www.youtube.com/watch?v=V-mugKDQDlg

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