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EX-MACHINA

Há qualquer coisa que não funciona bem neste filme… Mas não é o robô. A arriscar, e sem querer entrar em demasiados pormenores – o jogo de adivinhação é parte importante da experiência –, apontaria o argumento como defeito principal. Facto curioso, uma vez que, sendo «Ex Machina» a sua estreia na realização, Alex Garland tem vindo a construir ao longo dos últimos 15 anos um currículo bastante apreciável enquanto argumentista. Entre romances, argumentos originais e adaptações, contam-se 11 filmes, alguns bastante bons – «A Praia» (2000), «28 Dias Depois» (2002) ou «Nunca me Deixes» (2010), são disso exemplo. Seria, pois, de esperar que as maiores dificuldades não surgissem do lado do argumento que, apesar de muito simples (é quase uma peça de câmara), parece depender demasiado dos pequenos equívocos, da ocultação de factos, das reviravoltas na trama. Neste sentido, Caleb (Domhnall Gleeson) funciona como o nosso duplo, alguém que vai, a pouco e pouco, e com base na sua intuição, desvendando o enredo.

Acabam por ser as excelentes interpretações dos actores a trazer uma maior complexidade a um filme que arrisca muito pouco na exploração das questões que realmente interessava investigar: será possível criar uma máquina consciente? Existe alguma diferença de fundo entre a realidade de um sentimento e o seu simulacro? A haver, é isso suficiente para nos distinguir das máquinas? E, finalmente, que tipo de relação nos pode vir a unir, homens e robôs, num futuro não tão longínquo?

A verdade é que quando o robô tem o rosto e a silhueta de Alicia Vikander, tudo se torna mais confuso. A fisicalidade é uma dimensão determinante que felizmente não é descurada ou vulgarizada. Com uma sólida formação de bailarina, Vikander confere a Ava uma existência grácil e sedutora, mas, ao mesmo tempo, demasiado precisa. Esta dualidade é perfeitamente captada pela actriz que transforma cada interacção sua com o espaço e diferentes interlocutores numa experiência inquietante. O facto de Garland abordar de frente a questão do erotismo, imprimindo-lhe contornos bastante sombrios, é também um aspecto a valorizar. Em suma, apesar de pouco original, «Ex Machina» conseguirá sem dúvida prender a atenção daqueles que olham para o futuro da inteligência artificial com um misto de fascínio e de pavor.

Título Original: Ex Machina Realização: Alex Garland Elenco: Alicia Vikander, Domhnall Gleeson, Oscar Isaac Duração: 108’ EUA, 2015

Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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