EVIL DOES NOT EXIST – O MAL NÃO ESTÁ AQUI

EVIL DOES NOT EXIST – O MAL NÃO ESTÁ AQUI

Desde que o seu nome surgiu no mercado de distribuição português em 2018, através do portentoso drama «Happy Hour: Hora Feliz», Ryûsuke Hamaguchi veio adquirindo uma certa notoriedade internacional, enquanto nova promessa do cinema japonês – um caso de fama justificadíssima, ao contrário de alguns fenómenos contemporâneos, como seja Ruben Östlund. E a verdade é que ele não deixou de confirmar esse estatuto nos filmes seguintes. Se «Roda da Fortuna e da Fantasia» venceu o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim, «Drive My Car», produção do mesmo ano (2021), fez o seu caminho até ao Óscar de Melhor Filme Internacional… aumentando a fasquia para a obra seguinte.

«Evil Does Not Exist – O Mal Não Está Aqui» (Grande Prémio do Júri em Veneza) é então o filme que tem o “encargo” de nos informar se Hamaguchi sobreviveu ao deslumbre do efeito-Óscar. E, mais do que sobreviver, alegra-me certificar que o realizador mantém uma frescura autoral digna de nota: filmando fora da área urbana, que é motivo recorrente nos seus filmes anteriores, ele experimenta agora sentir a pulsação, ou as entranhas, da Natureza através de uma criança que encerra o mistério de um conto amplamente interpretado como ecológico. Em traços largos, a história anda à volta dessa menina e do seu pai, habitantes de uma aldeia perto de Tóquio, que levam uma vida simples e em sintonia com o mundo natural nas imediações. Um dia, este pai, e toda aquela pequena comunidade, são confrontados com um projeto de construção de um parque de glamping (campismo de luxo), que deverá interferir no abastecimento de água e desestabilizar os modos de vida local. O que é que se segue? Bem, algo que o espectador habituado ao nervo “deste tipo de filmes” achará, no mínimo, inexplicável…

Ao cinema de Ryûsuke Hamaguchi interessa a verdade que as suas personagens/atores vão revelando em interações extremamente cuidadas, onde cada palavra, cada gesto está à procura do âmago da situação. É um processo magnífico, que define o seu trabalho. Mas neste caso há também um desejo de preservar o enigma. E a Natureza permite-o, com a ajuda da banda sonora de Eiko Ishibashi, compositora que colaborara com Hamaguchi em «Drive My Car» e que, no fundo, foi o motor do novo projeto. Haverá quem não se contente com a falta de explicações no final, mas isso não diminui em nada o poder subtil de «Evil Does Not Exist», título que fica a pairar como um fantasma dentro da nossa cabeça.

Título original: Aku wa sonzai shinai Realização: Ryûsuke Hamaguchi Elenco: Hitoshi Omika, Ryô Nishikawa, Ryûji Kosaka Duração: 106 min. Japão, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº104, Março 2024]