Eu, Tonya

Eu, Tonya

«Eu, Tonya» de Craig Gillespie («The Finest Hours», 2016) com argumento de Steven Rogers («Love the Coopers», 2015) apresenta-se como um falso documentário, cujo objetivo não é o de revelar a verdade, mas, pelo contrário, o de mostrar os diversos e contraditórios pontos de vista sobre a vida da patinadora de gelo Tonya Harding (Margot Robbie) e o incidente no qual, alegadamente, esteve envolvida.

O nome Tonya Harding tornou-se mundialmente conhecido em 1994, aquando do ataque à sua rival Nancy Kerrigan. Tonya Harding, a patinadora do Triple Axel, e a figura que os média adoravam odiar. Porém, o filme revela a trajetória da desportista, desde as suas origens, passando pelas agressões que sofreu nas mãos da mãe (Allison Janney) e do marido (Sebastian Stan), culminando no ataque e a consequente investigação e julgamento. Apesar de se basear em dados biográficos e em relatos reais, todo o filme é um jogo de perspetivas dos diferentes intervenientes, cada um fala a sua verdade. No final ficamos sem saber se Tonya teve ou não alguma participação ativa no incidente, mas saímos de barriga cheia por termos visto um filme muito bem construído, pensado, no qual a tragicomédia reina e sobretudo por presenciarmos a uma entrega total dos seus atores.

Não é por acaso que tanto Margot Robbie, como Allison Janney estão nomeadas para os Óscares, tendo já Janney ganhado um Globo de Ouro e um Bafta para melhor atriz secundária. O retrato de LaVona por Allison Janney atinge uma perfeição tal que logo na primeira cena o ódio surge – a não perder nos créditos finais um excerto do depoimento real de LaVona para confrontar com a representação da atriz. Tudo está no lugar certo: os maneirismos, a face fechada e o desprezo no olhar. Já Margot Robbie, é refrescante vê-la noutro registo, mas sempre com a mesma garra, sendo a cena do espelho, já perto do final, ensaiando um sorriso, uma das cenas mais tocantes. Outro ponto delicioso no filme são os “apartes” que os atores atiram diretamente para a câmara, contribuindo assim para a comicidade, vivacidade da história e para o efeito de “falso documentário”.

O filme de Craig Gillespie não pretende acusar ou defender a patinadora de Portland, mas reinventa sim o conceito de filme biográfico e dá uma oportunidade à voz de Tonya de ser ouvida.

Título original: I, Tonya Realização: Craig Gillespie Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney. Duração: 119 min. EUA, 2017

[Crítica publicada originalmente na revista Metropolis nº 58, Março 2018]