ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY

ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY

O regresso do cinema às salas, em paralelo à cerimónia dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deste ano, trouxe a aguardada longa-metragem de Lee Daniels, realizador nomeado para dois Óscares por «Precious» (2009) e com «O Mordomo» na bagagem. Desta feita, Daniels baseou-se no best-seller de Johann Hari Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs para narrar os últimos anos da vida de uma das maiores divas do Jazz de sempre: Eleanora Fagan Gough, mais conhecida por Billie Holiday. O resultado é «Estados Unidos vs Billie Holiday» (2020) e teve direito a estreia nas salas nacionais.

Nascida em plena 1.ª Guerra Mundial, em 1915, e descoberta aos 18 anos pelo produtor John Hammond, com quem gravou o seu primeiro registo fonográfico, Billie Holiday alcançou um estatuto cimeiro entre 1935 e 1941, quando atuou com alguns dos maiores nomes da história do Jazz – o clarinetista Benny Goodman, o mestre do saxofone Lester Young, e a lendária orquestra de Count Basie. O êxito profissional foi acompanhado por uma dependência de drogas, em especial da heroína, e pela perseguição do departamento de narcóticos do FBI, em especial no momento em que “Lady Day” leu pela primeira vez o poema “Strange Fruit”, uma descrição metafórica dos linchamentos de negros no Sul dos EUA e que se tornou um dos momentos altos dos espetáculos e uma referência cultural e social da América do pós-guerra.

«Estados Unidos vs Billie Holiday» centra-se nessa luta desigual de Billie Holiday e a sua canção de “protesto” versus um sistema vigilante e conspirativo que pretende incrimina-la com o consumo de drogas para evitar as suas atuações em palco, em especial a interpretação de “Strange Fruit”. O filme de Lee, apesar de ter um plano de intenções sério e justo, padece dum maniqueísmo algo simplista, onde cedo percebemos onde estão os bons e os vilões. Apesar duma composição notável de Andra Day, no papel da protagonista, que lhe valeu o Globo de Ouro para melhor atriz de drama e uma nomeação para os Óscares da Academia, o registo narrativo não descola dessa ambivalência entre artista e sistema pintada em tons bem carregados para que o espetador nunca esqueça de que lado deve estar.

Narrada num longo flashback, o filme adaptado ao cinema por Suzan-Lori Parks, a primeira autora afro-americana a ganhar um Pulitzer, numa estrutura sugestiva, apresenta um brilhante trabalho de reconstituição da época: desde os cenários onde desfilam as personagens, de quartos e átrios de hotel com a escolha cuidada e acertada do guarda-roupa de todo o elenco, em especial da entourage da artista, aos clubes e bares da época nas longas tournées, até à prisão onde a artista é colocada durante uma temporada por consumo de drogas proibidas. O último terço do filme revela-nos o lado sombrio da carreira com a progressiva degradação física da protagonista até aos últimos anos da sua vida num trabalho detalhado de caraterização. Porém, o trunfo maior do filme são os momentos musicais com a interpretação delicada e poderosa de temas clássicos como “Lady Sings the Blues”, “Lover Man”, “Them There Eyes”, “All Of Me” e, claro, “Strange Fruit”. Uma excelente introdução ao universo musical da primeira artista negra a atuar com uma banda de músicos brancos liderada por Artie Shaw, no ano de 1938.

Filme a descobrir, condicionado pelo caráter programático embora justo de intenções.

Título original: The United States vs. Billie Holiday Realização: Lee Daniels Elenco: Andra Day, Leslie Jordan, Miss Lawrence, Natasha Lyonne. Duração: 126 min. EUA, 2021