«Esquadrão Suicida»

ESQUADRÃO SUICIDA

ESQUADRÃO SUICIDA

Pode-se dizer que «Esquadrão Suicida» é melhor do que «Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça», mas a verdade é que a fasquia no universo DC/Warner também não estava muito alta. O “esquadrão” está em serviços mínimos a tentar limpar a imagem dos heróis charneira da DC enquanto fazem o máximo de estragos no grande ecrã.

«Esquadrão Suicida» reúne o pior dos piores num grupo bastante suis generis de vilões forçados a formar uma super-equipa para reduzir a sua sentença na cadeia enquanto tentam salvam os EUA e o mundo.

O filme de David Ayer não é uma desilusão completa mas sabe a pouco. Numa equipa com tantos personagens com margem de progressão é algo frustrante que em 120 minutos só tenhamos quatro personagens com significado, as restantes figuras são absolutamente planas. A narrativa é uma espécie de anúncio de wrestling onde tudo é feito de plástico e onde falta alma e coração.

O humor é cáustico e tem a assinatura da senhora mais bela do hemisfério sul, a australiana Margot Robbie, que enche o ecrã e mostra que é muito mais do que uma cara laroca ao interpretar Harley Quinn, uma personagem tresloucada e profundamente apaixonada por Joker (Jared Leto), a maior desilusão do filme. O palhaço mais icónico do cinema (as minhas desculpas ao «It – Palhaço Assassino»), que teve no passado a assinatura de gigantes como Jack Nicholson ou Heath Ledger, surge sub-representado por Jared Leto que não é mais do que uma sombra pálida destas interpretações. É caso para publicar o anúncio: “Precisa-se Palhaço Psicótico”.

O melhor do filme, a par de Margot Robbie, é Will Smith e Joel Kinnaman que interpretam personagens assentes respectivamente no amor pela filha (Shailyn Pierre-Dixon) e na paixão por uma mulher, a arqueóloga June Moone (Cara Delevingne) que está possuída por uma entidade maligna com uma agenda de destruição global. A vilã do filme tem peso pluma face a uma super-equipa que passa o filme a discutir e a elaborar planos de fuga até que decidem perder as ilusões e agirem como heróis.

As debilidades do argumento são até certo ponto compensadas pela realização eficaz de David Ayer. Apesar de a montagem ter o ritmo acelerado de um videoclip conseguimos compreender tudo o que se desenrola em cena e as coreografias estão ao serviço das especificidades dos personagens. Os excessos de flashbacks provam ser interlúdios que preenchem os vazios narrativos dos personagens. Uma nota positiva também para a super banda sonora, um autêntico best-of dos monstros do rock.

Apesar da sua galeria de personagens excêntricos e da acção hard-core «Esquadrão Suicida» é um filme que claramente caminha sobre pezinhos de lã para não afundar ainda mais a reputação de um filão que se quer produtivo como o concorrente mais bem sucedido: a Marvel. Falta no cinema a duplicação dos sucessos da DC na televisão que gozam de liberdade criativa e narrativa e personagens de corpo inteiro. O maior sucesso crítico e comercial da DC continua a ser a saga operática de Batman, de Christopher Nolan. O filme referência de super-heróis de 2016 é mesmo «Deadpool», que na origem tinha a mesma irreverência e o sentido de politicamente incorreto de «Esquadrão Suicida», já esta produção da DC/Warner fica aquém das expectativas. Não há sucessos instantâneos sem muito trabalho, e a DC parece estar a forçar uma fórmula que claramente não resulta além dos fãs dos comics.

[Crítica publicada originalmente na revista Metropolis nº41, Novembro 2016]

Título original: Suicide Squad Realização: David Ayer Elenco: Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie, Viola Davis, David Harbour, Common. Duração: 123 min. EUA, 2016