Dois Tiros

Dois Tiros

Dois Tiros

Desprezados e vilipendiados durante décadas a fio, os comic-books parecem ser hoje uma das saídas para o marasmo criativo e económico que grassa entre os grandes estúdios de Hollywood. Por um lado os filmes baseados em comics têm à partida um público cativo – o que é naturalmente mais que óbvio nos blockbusters inspirados nos universos da DC Comics e da Marvel Comics. Mas companhias de menor dimensão mas de enorme ambição e elencos de criadores de primeira linha têm-se vindo a destacar como fortes candidatos à tão almejada e proveitosa adaptação ao grande écran.

Steven Grant, o criador do comic original, é um veterano da indústria dos heróis aos quadradinhos tendo trabalhado nos últimos 30 anos para practicamente todas as grandes empresas do ramo. «2 Tiros», na sua versão de papel, é uma síntese dinâmica, divertida e bastante sanguinolenta de alguns dos mais recorrentes clichés presentes num dos mais populares sub-géneros do filme de acção, a dupla de heróis. O que Grant fez foi não mais que rearranjar temas e personagens com provas dadas e aplicar-lhes uma perspectiva mais personalizada, digamos céptica, no que diz respeito à condição humana. O irónico aqui é que este comic, publicado pela Boom! Studios, apareceu como algo de fresco e original aos produtores do filme, isto diz muito sobre os contabilistas que actualmente regem os destinos da auto-denominada ‘Meca’ do cinema. E quanto ao filme? Perguntará o leitor pouco interessado sobre a génese do projecto ou o deserto criativo de Hollywood. Vale a pena gastar tempo e dinheiro e ir ao cinema para ver mais uma fita de acção com muito tiroteio e excessos de testosterona? A resposta é um retumbante sim. O islandês Baltasar Kórmakur, que já tinha trabalhado com Mark Wahlberg em «Contrabando», consegue criar uma intriga insinuante e divertida, onde nada e ninguém é o que aparenta, o que acaba por ter consequências algo perigosas para os dois protagonistas. Ambos são agentes infiltrados no mundo do crime, um trabalha para a DEA, a agência americana do combate contra a droga, o outro é um membro dos serviços de inteligência da marinha, no entanto ambos ignoram a real identidade do outro. Tudo dá em pantanas quando decidem assaltar um banco de uma pequena cidade que eles crêem servir de entreposto financeiro de um perigoso membro de um cartel de droga mexicano. O assalto corre ás mil maravilhas, porém há algo que não bate certo, eles esperavam roubar 3 milhões de dólares mas saem de lá com quase 50. A quem pertence esse dinheiro e o que os seus donos estão dispostos a fazer para o recuperar vai pôr a dupla de assaltantes na mira de gente realmente muito perigosa.

Kórmakur filma a sua história de modo frenético e bastante irónico, ecoando a matriz original, porém o filme com todas as sua voltas e reviravoltas resulta graças à química no écran entre o sempre excelente Denzel Washington e Mark Wahlberg. Uma fita de acção com humor e violência a rodos que não deixará de agradar aos incondicionais do género. Um thriller muito bem conseguido que talvez dê direito a uma sequela pois Steven Grant já publicou os capítulos iniciais de um novo capítulo, que se chama “3 Guns”!

Título original: 2 Guns Realização: Baltasar Kormákur Elenco: Denzel Washington, Mark Wahlberg, Paula Patton, Bill Paxton, Edward James Olmos, James Marsden, Fred Ward Duração: 109 min EUA, 2013

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº13, Outubro 2013]