DEUS BRANCO

DEUS BRANCO

A relação entre o homem e o cão é abordada de uma forma surpreendente em «Deus Branco», o sexto filme de Kornel Mundruczó. Os melhores amigos do homem protagonizam um motim organizado e desafiam a autoridade da humanidade. Primeira sequência do filme: uma rapariga corre na sua bicicleta nas ruas desertas de Budapeste. Progressivamente vemos dezenas, centenas de cães a correr organizadamente atrás de si. Perseguem-na ou seguem-na? No terceiro ato do filme perceberemos melhor qual a relação entre ela e a matilha. Lili (excelente desempenho da estreante Zsofia Psotta) é uma miúda de 13 anos que fica entregue ao seu pai quando a mãe viaja para o estrangeiro.  Fica ela e o cão, Hagen, o que é mal aceite pelo seu pai e pela vizinhança do prédio que alerta de forma ríspida para a necessidade de registar o animal. Mundruczó decidiu realizar este filme como forma de reagir a legislação restritiva da posse de rafeiros e totalmente permissiva em relação aos animais de estimação de raça. O pai de Lili não está disposto a manter o cão e opta por abandoná-lo num gesto desumano para com o animal e insensível em relação aos sentimentos da filha. Hagen sobrevive nas ruas de Budapeste, mudando de dono, aprendendo a relacionar-se com outros animais e tornando-se num cão muito mais violento, que deixa de ter doçura no seu coração – note-se que foram utlizados dois cães da mesma ninhada treinados para se comportarem de forma pacífica e agressiva. A sua capacidade para liderar outros cães leva-o a organizar uma gigantesca matilha que vai engrossando à medida que encontra outros rafeiros nas ruas. Esta matilha representa uma ameaça para a segurança na cidade e assume o conflito direto com os homens. Há filmes fascinantes protagonizados por cães – lembra-nos de «Lassie» e «101 Dálmatas» – e filmes marcantes pela sua temática – o clássico “Cão Branco” de Samuel Fuller, sobre o racismo. “Deus Branco” remete claramente para o filme que Fuller rodou em 1982, mas coloca-nos perante um cenário nunca filmado desta forma, onde uma matilha representa uma ameaça concreta para os habitantes de uma cidade. Nesse aspeto a outra referência é «Os Pássaros» de Alfred Hitchcok, sobretudo quando estamos perante as memoráveis sequências finais com os cães percorrendo em grupo e de forma coordenada as ruas de Budapeste. Mas o filme deve ser visto como parábola política e moral sobre uma sociedade racista, denunciando certas medidas intolerantes adotadas pelas autoridades húngaras e o discurso fascista de alguns dirigentes políticos.

Título internacional: White God Realização: Kornél Mundruczó Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsótér, Lili Horvát. Duração: 121 min. Húngria/Alemanha/Suécia, 2014

[Crítica publicada originalmente na revista Metropolis nº 29, Julho 2014]

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