CULPADO – INOCENTE – MONSTRO

CULPADO – INOCENTE – MONSTRO

Seguindo uma longa tradição de escolhas duvidosas na tradução de títulos, o último filme de Hirokazu Kore-eda, «Kaibutsu» (que significa “monstro”), chegou até nós como «Culpado – Inocente – Monstro». A opção por destacar esta tríade reflecte já sobre a estratégia narrativa do filme que, à semelhança do clássico japonês «Rashomon – Às Portas do Inferno» (1950), explora diferentes perspectivas acerca do mesmo evento, cada uma delas oferecendo visões muito distintas, por vezes mesmo contraditórias entre si. A mestria de Kore-eda em navegar por este labirinto não é propriamente uma novidade. Ao longo da sua carreira, ele foi sempre mostrando enorme sensibilidade no tratamento das diversas camadas da experiência humana, elevando o desempenho dos seus actores, entre eles crianças, a um nível realmente muito elevado – lembramos o estrondoso «Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões», vencedor da Palma de Ouro, em Cannes, 2018, e do Prémio César para melhor filme estrangeiro.

Depois da sua passagem por França («A Verdade», 2019) e pela Coreia do Sul («Broker – Intermediários», 2022), Kore-eda regressa agora a casa com um filme que se debruça sobre temas, de certa forma, universais, como as dificuldades de criar um filho sozinha, ou os problemas de adaptação na escola, mas «Culpado – Inocente – Monstro» fala-nos também de algumas especificidades da cultura japonesa que nem sempre são fáceis de assimilar. A primeira parte do filme debruça-se sobre Saori (Sakura Andô), uma jovem viúva, que começa a notar algumas mudanças estranhas no comportamento do seu filho, Minato (Soya Kurokawa). Rapidamente, as suspeitas recaem sobre o novo professor, Michitoshi Hori (Eita Nagayama), mas quando Saori expõe as suas preocupações ao conselho directivo da escola é recebida com uma barreira de silêncio, apatia e longas vénias que a vão deixar tudo menos descansada. Decidida a proteger o seu filho, Saori tentará por todos os meios confrontar directamente o professor e expor publicamente toda a situação, chegando aos jornais e acabando por ditar o despedimento de Hori. Aqui a perspectiva estilhaça-se e começamos a duvidar daquilo que antes nos parecia absolutamente evidente.

Funcionando como um puzzle, onde nem todas as peças encaixam à primeira, o argumento de «Culpado – Inocente – Monstro», da autoria de Yūji Sakamoto, vai-nos permitindo conhecer cada uma das personagens, os seus pensamentos e as suas dúvidas, os segredos, desejos e frustrações. Quando achamos que já percebemos tudo, somos novamente surpreendidos. Não nos sentimos, porém, manipulados. Há uma dimensão formal e lúdica neste jogo de enganos que não sacrifica a subtileza delicada das emoções. O trabalho de Kore-eda é sobretudo sobre a força das emoções, essa matéria estranha que, a par dos sonhos, faz de nós humanos.

Título Original: Kaibutsu Realização: Hirokazu Kore-eda Elenco: Sakura Andô, Soya Kurokawa, Eita Nagayama, Hinata Hiiragi Duração: 127 min. Japão, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº104, Março 2024]