Ciclo Cinema e Fotografia: Visões Espectrais

Ciclo Cinema e Fotografia: Visões Espectrais

O programa Cinema e Fotografia: Visões Espectrais propõe um olhar sobre as aproximações e confrontos entre esses dois meios de expressão a partir do ponto de vista da morte, usando o filme «O Estranho Caso de Angélica», de Manoel de Oliveira, como ponto de partida. Nesse filme, um fotógrafo é convidado a capturar a imagem de uma jovem recém-falecida que, perante a objetiva, esboça um sorriso. A partir deste episódio, em que ironicamente a imobilidade da morte é quebrada pela arte da imagem estática, construiu-se uma programação que propõe um percurso pelo modo como a espectralidade anima a imagem fixa, antecipando, nesse ponto, o próprio dispositivo cinematográfico.

São mais de vinte filmes, de Georges Méliès a Apichatpong Weerasethakul, que põem em causa a estabilidade da imagem parada e nela insuflam o movimento fantasmático do desejo, da fantasia, da memória e da transcendência.

Acesso: Bilhete (1 sessão): 3€; Estudante/Jovem, Maiores de 65 e Amigos de Serralves: 1,5€ ( O acesso ao Auditório da Casa do Cinema Manoel de Oliveira é feito pela Rua de Serralves nº 873, 30 minutos antes do início da sessão).

PROGRAMA:

04 MAI | TER | 18:30
O Estranho Caso de Angélica
Manoel de Oliveira
PT, ES, FR, BR | 97 min. | 2010

101, À propos de Manoel de Oliveira
Lluis Miñarro
ES | 20 min. | 2012

O Estranho Caso de Angélica foi originalmente escrito em 1952, durante o hiato de catorze anos em que o financiamento aos projetos de Manoel de Oliveira foi sucessivamente negado (e ao longo do qual o seu interesse pela fotografia teve oportunidade para se desenvolver).

O filme só viria a ser realizado decorridas quase seis décadas sobre a escrita da primeira versão do guião. «O Estranho Caso de Angélica» é um filme que encara a fotografia como ferramenta para compreender o mundo na sua totalidade: em tudo aquilo que ele tem de material (vejam-se as sequências com os agricultores, que ecoam alguma da fotografia rural de Oliveira), mas em tudo aquilo que ele tem, também, de espiritual. A fotografia, neste filme, é capaz de capturar lampejos da alma e, nesse processo, a imagem estática anima-se e o cinema nasce a partir de uma presença fantasmática que, do outro lado da morte, sorri e encanta os vivos.

A sessão termina com a exibição da curta-metragem documental «101, à propos de Manoel de Oliveira», realizada por Luis Miñarro (o produtor espanhol de O Estranho Caso de Angélica) quando Oliveira completava os 101 anos (em 2009). Nela o centenário realizador descreve o processo atribulado do filme e reflete sobre o cinema e a fotografia, isto é, sobre a vida e a morte.

11 MAI | TER | 18:30
In Waking Hour
Sara Vanagt, Katrien Vanagt
BE | 18 min. | 2015

Images
Robert Altman
USA | 101 min. | 1972

Na curta-metragem «In Waking Hours», acompanhamos a historiadora Katrien Vanagt. Numa cozinha escura em Bruxelas e com a ajuda da sua prima, a cineasta Sarah Vanagt, elas tornam-se testemunhas do nascimento das imagens. O olho como a primeira câmara fotográfica cujas imagens apenas se revelam com a morte. In Waking Hours serve de introdução a «Images», de Robert Altman, um dos melhores filmes do realizador. O filme, originalmente escrito pelo realizador em meados dos anos 1960, retrata uma escritora de livros para crianças (Susannah York, que receberia o prémio de Melhor Atriz no Festival de Cannes), cujo marido (Rene Auberjonois) poderá ou não estar a ter (ou não) um caso extraconjugal. De férias na Irlanda, o estado mental da escritora deteriora-se, resultando em paranoia, alucinações e visões de um doppelgänger – ou seja, um duplo fantasmagórico – tido, geralmente, como prenúncio de má sorte. No centro deste aterrador caos psicológico encontra-se uma câmara fotográfica que poderá ser (ou não) a chave para o mistério.

18 MAI | TER | 18:30
Le Portrait mystérieux
Georges Méliès
FR | 2 min. | 1903

0116643225059
Apichatpong Weerasethakul
TH, USA | 5 min. | 1994

The Cameraman
Edward Sedgwick, Buster Keaton
EUA | 78 min. | 1928

Nesta sessão, composta por três filmes, atravessa-se um século de cinema entre um dos primeiros filmes de Georges Méliès («Le Portrait mystérieux», de 1899) e o primeiro filme do realizador Tailandês Apichatpong Weerasethakul («0116643225059», 1994). Passando do cinema primitivo ao neoprimitivismo, abre-se espaço ao vanguardismo lúdico de Buster Keaton, o mais moderno dos palhaços mudos.

«The Cameraman» constitui, talvez, o auge do poder cómico slapstick de Buster Keaton, que aqui interpreta o pepel de um fotógrafo de rua que começa a filmar imagens em movimento para o seu novo empregador, a secção de atualidades da MGM. Para isso, percorre Manhattan de uma ponta à outra, em busca das melhores imagens, caindo ao rio, envolvendo-se numa guerra em Chinatown e juntando-se à memorável maca (a famosa Josephine). Um filme dentro de um filme, um realizador por detrás de outro, um estúdio a fazer de rua, um homem, uma cidade e uma câmara de filmar (um ano antes de Vertov) e a fotografia a ser substituída pelo cinema.

25 MAI | TER | 18:30
Laura
Tânia Dinis
PT | 10 min. | 2017

Zelig
Woody Allen
USA | 79 min. | 1983

«Laura» é um filme-ensaio, um trabalho de pesquisa e recolha de arquivos fotográficos familiares (anónimos). Desenvolvido a partir de “Aura – um folhetim fotográfico”, escrito por Regina Guimarães, a realizadora encontra num álbum perdido a centelha da ficção, descobrindo, em movimento centrífugo, possibilidades narrativas para aquelas imagens.

Nesta sessão, composta por dois filmes cujos títulos são os nomes das suas personagens ficcionais, construídas a partir de arquivos fotográficos manipulados, a «Laura» junta-se «Zelig». Leonard Zelig (interpretado pelo próprio realizador, Woody Allen) é um artista social que muda rapidamente de trajes, personalidade, fisionomia ou capacidades, e cuja disfunção emocional o obriga a imitar, mental e fisicamente, qualquer pessoa com quem se encontre. Assim opera no mundo da mimesis, como fantasma aprisionado num espelho, atormentado pelos vivos que nele se observam refletidos. Tratado pela Doutora Eudora Flelcher (na figura de Mia Farrow), Zelig é gradualmente curado e, durante esse processo, passa de estranha atração secundária a celebridade nacional norte-americana. Zelig “é a criação ficcional mais brilhante e inspirada de Woody Allen, e o filme que o contém, chamado simplesmente de «Zelig», é a obra mais brilhante do argumentista-realizador-ator”, escreveu à época o crítico Vincent Canby no The New York Times. Dois filmes sobre a permeabilidade da fotografia às manipulações do tempo e da memória, que incidem, além disso, sobre a sua falibilidade documental e o que de vivo pode transparecer do arquivo inerte.

01 JUN | TER | 18:30
Le Paris des photographes
François Reichenbach
FR | 13 min. | 1962

Mur 19
Mark Rappaport
EUA | 22 min. | 1966

Anna
Pierre Koralnik
FR | 85 min. | 1967

Nesta sessão do ciclo apresentam-se três filmes que revelam diferentes entendimentos sobre o olhar fotográfico, em particular aquele que é tocado pelo fetichismo da atividade turística (que exotiza e erotiza a cidade), pelo fetichismo cinéfilo (que deseja o film still como prolongamento do contato efémero da experiência do cinema) ou, ainda, pelo fetiche da imagem publicitária (que mercantiliza os corpos e os reduz a ícones). Uma sessão onde se reflete sobre a potência do glamour (de Hollywood e também da Nouvelle Vague) a partir de três filmes menos conhecidos dos anos 1960, filmes esses que usam as obsessões dos seus protagonistas (masculinos) por fotografias de estrelas do cinema (a cidade de Paris, Greta Barbo e Anna Karina).

O primeiro título da sessão, do secreto cineasta francês François Reichenbach, coloca uma questão: é Paris uma cidade fotogénica? Já «Mur 19» é um dos primeiros filmes do cineasta independente norte-americano (radicado em França) Mark Rappaport e retrata a relação de Gerald Mur com uma imagem de Garbo. A longa-metragem, realizada por Pierre Koralnik, chama para o título o nome da sua personagem principal, que é igualmente o nome da sua atriz: Anna, de Anna Karina. Esta é uma comédia musical que adapta para a realidade francesa dos anos 1960 o musical clássico de Hollywood realizado por Stanley Donen, Funny Face («Cinderela em Paris», 1957), com Audrey Hepburn e Fred Astaire. A história é a da paixão de um agente publicitário pela imagem de uma rapariga fotografada por acaso numa estação. Em busca da modelo desconhecida, o apaixonado agente espalha por toda a cidade cartazes com o seu rosto ampliado.

08 JUN | TER | 18:30
Cinza
Micael Espinha
PT | 10 min. | 2014

Benilde ou a Virgem-Mãe
Manoel de Oliveira
PT | 112 min. | 1975

Em 1974 a Revolução estava na rua e Manoel de Oliveira estava fechado nos estúdios da Tobis a filmar o drama místico de «Benilde ou A Virgem Mãe» que, passado o Verão Quente, viria a estrear (por coincidência) na semana do 25 de novembro de 1975. Segundo filme da chamada “tetralogia dos amores frustrados”, Benilde é a adaptação da peça de teatro homónima de José Régio. A ação decorre nos anos 1930, num solar isolado no Alentejo: a jovem filha do proprietário diz estar grávida ao mesmo tempo que jura não ter tido contacto com nenhum homem.

Antes, exibe-se a curta-metragem «Cinza», onde, a partir de fotografias da época e com um trabalho de animação minimal e uma atmosfera sonora complexa, se constrói um testemunho de um Portugal no pináculo ideológico do Estado Novo. Dois filmes que olham a imagem do regime (à época, e agora) a partir de uma ideia de imobilidade fotográfica, de estase (e também dois filmes que trabalham o movimento da imagem fixa a partir de uma forma de “animação” espectral). Cinema político como o entendia Oliveira: “gosto muito dos filmes políticos onde não se fala de política; neles tudo se mistura, a vida, as pessoas, as situações e isso é mais rico do ponto de vista do homem na sua totalidade.”

15 JUN | TER | 18:30
Rupture
Pierre Étaix, Jean-Claud Carrière
FR | 11 min. | 1961

A caça revoluções
Margarida Rêgo
PT | 11 min. | 2013

Os Mortos
Gonçalo Robalo
PT | 30 min. | 2018

Le souvenir d’un avenir
Chris Marker, Yannick Bellon
FR | 42 min. | 2001

Pierre Étaix trabalhou com Jacques Tati no início dos anos 1950 (como designer gráfico e como assistente de realização em «Mon oncle») e estreia-se como ator-realizador em nome próprio com esta curta-metragem. Em «Rupture», um amante acidentado tenta responder a uma carta de amor, acabando condenado por um processo de desfiguração fotográfica. Já «A Caça Revoluções» centra-se no dilema da distância fotográfica da memória: a extrema proximidade desfoca, mas ao longe tudo parece mortiço. A realizadora Margarida Rêgo estabelece um espaço onde o arquivo fotográfico retoma o seu sentido original, longe da fatuidade dos registos, e próximo da sua afetuosidade.

Também Gonçalo Robalo constrói todo um filme a partir de um conjunto de fotografias, e das memórias que estas lhe despertam. O realizador elenca, por ordem cronológica, todos os mortos e todas as mortes a que assistiu ao longo da sua vida e que o marcaram indelevelmente. Por fim, Chris Marker, cineasta tantas vezes lembrado pelo seu recurso à imobilidade fotográfica, é aqui convocado através de um dos seus últimos filmes (e também dos menos conhecidos). Dedicado à fotógrafa Denise Bellon, o filme foi corealizado com a filha desta, Yannick Belon. Construído integralmente a partir de fotografias, «Le souvenir d’un avenir» mergulha no enorme acervo da fotógrafa, que foi uma das fundadoras da agência Alliance-Photo. Marker e Belon trabalham estas imagens como forma de convocar a presença de um olhar.

22 JUN | TER | 18:30
Rope
Gustztáv Hámos, Katja Pratschke
GR, HU | 28 min. | 2016

Sauve qui peut (la vie)
Jean-Luc Godard
FR, SW, GR, AU | 87 min. | 1980

«Rope» é uma “reconstrução” fotográfica do famoso conto de Ambrose Bierce, An Occurrence at Owl Creek Bridge: um homem, à beira de uma ponte, uma corda ao pescoço, prestes a ser enforcado e um amor maior do que a vida (e a morte). Mas, mais do que isso, é também uma investigação sobre as possibilidades da cronofotografia nos dias do cinema digital.

«Sauve qui peut (la vie)» marcou, em 1980, o regresso de Jean-Luc Godard ao circuito mais “convencional” do cinema, depois de alguns anos de ausência em que se dedicou a um cinema de caráter revolucionário. O filme, organizado como uma partitura musical com quatro movimentos (o imaginário, o medo, o comércio e a música), conta com a participação de Isabelle Huppert, do cantor Jacques Dutronc, e Nathalie Baye.

Dois filmes onde a decomposição fotográfica do movimento é explorada como ferramenta de interrogação dos próprios mecanismos internos do cinema.

29 JUN | TER | 18:30
Somebody was trying to kill somebody else
Benjamin Verhoeven
GR | 7 min. | 2014

Blow Out
Brian de Palma
USA | 113 min. | 1981

A fechar o ciclo Cinema e Fotografia: Visões Espectrais apresenta-se uma sessão assombrada pelo filme canónico sobre a relação entre a imagem em movimento e a imagem fixa: «Blow-Up» («História de um Fotógrafo», 1966), de Michelangelo Antonioni.

Brian de Palma, o mais hitchcockiano dos realizadores da Nova Hollywood, realizou «Blow Out» sob a égide do filme de Antonioni e a partir de dois episódios pessoais: um desaguisado com o seu misturador de som aquando da pós-produção do seu anterior filme; e a sua obsessão com a investigação ao redor do homicídio de John F. Kennedy. De Palma trabalha, portanto, o género do thriller obsessivo, onde não se trata apenas de mergulhar numa imagem (como Antonioni fazia), mas de mergulhar numa série de imagens sucessivas na sua articulação com o som, ou seja, mergulhar na experiência do cinema.

A abrir a sessão apresenta-se «Somebody was trying to kill somebody else», de Benjamin Verhoeven, onde o realizador se apropria de imagens da cena da “revelação” fotográfica de «Blow-Up» e visualiza (no sentido em que o torna visual) o bailado entre fotógrafo e imagem numa perseguição que busca, abstratamente, a própria cauda da representação.

Fonte: Serralves/Casa do Cinema Manoel de Oliveira

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