CHARLIE CHAPLIN
O ETERNO VAGABUNDO

CHARLIE CHAPLIN
O ETERNO VAGABUNDO

“É, simultaneamente, um vagabundo, um gentleman, um poeta, um sonhador, um tipo rejeitado, sempre rendido ao romanesco e à aventura.” Assim descreveu Mack Sennett a personagem criada por Charlie Chaplin que ainda hoje nos delicia e comove. Este produtor de comédias do cinema mudo, que de forma abreviada se pode dizer ter descoberto Chaplin, é a justa imagem do proprietário do circo no filme com esse título – «O Circo» (1928) –, em que vemos Charlot entrar inusitadamente na arena, perseguido por um polícia, e fazer rir uma plateia inteira, que até aí estava aborrecida com os números pouco originais dos palhaços. Tal como aquele homem de negócios vê uma mina de ouro literalmente invadir o seu espetáculo decadente e reabilitá-lo, também Sennett identificou o talento no pequeno comediante inglês de origens humildes. Nesse mesmo filme – que será porventura a metáfora perfeita do nascimento de um génio do cómico – a sua comédia física é vista como uma sucessão de atos involuntários, que revelam uma inconsciente capacidade de fazer rir os outros. Ademais, repare-se que Chaplin não se ri de si próprio: o que nos diverte são sobretudo as suas situações aflitivas, o caos performativo…

Recordamos o eterno vagabundo nesta quadra natalícia a propósito dos 40 anos que passam sobre a sua morte, no dia 25 de dezembro. E a imagem do homem errante, por contraste com o homem rico (que também interpretou), será aquela que nos faz mais falta. A verdade é que as figuras burguesas e suas caricaturas ainda abundam na paisagem cinematográfica do nosso tempo, mas já não se fazem vagabundos como Charles Chaplin, esse rei da pantomima, que, com a mesma graça, tanto podia roubar uma guloseima a uma criança como salvar a vida de outra. Conta ele, na autobiografia, que inventou a aparência de Charlot minutos antes de entrar em cena na rodagem de «Charlot Fotogénico» (1914), o seu segundo filme como ator: “Pensei: vou vestir umas calças muito largas, sapatos grandes e completar tudo com uma bengala e um chapéu de coco. Queria que tudo entrasse em contradição. (…) Acrescentei a isso um pequeno bigode que me envelheceria um pouco, mas sem alterar as minhas feições.” De entre todos os pormenores da indumentária, importa notar que a bengala seria a insígnia da sua nobreza humanista e uma arma contra os adversários e as adversidades.



Concretizando ainda mais, a personagem do vagabundo é uma emanação da sua própria infância, que se encontra particularmente evocada num dos mais belos e comoventes dos seus títulos, considerado a sua primeira grande obra enquanto autor, «O Garoto de Charlot» (1921). Um filme assim marcado pela linguagem universal dos afetos, ao mesmo tempo que por uma forte carga biográfica (a que se acrescenta o facto de Chaplin nessa altura estar a fazer o luto do seu filho com Mildred Harris, que morreu poucos dias depois de nascer). Na cena em que o miúdo é levado para um orfanato, e o vagabundo corre atrás da carrinha para impedir as autoridades, culminando num extremoso abraço, é de uma perturbadora melancolia: também Chaplin foi uma criança tirada dos braços da mãe, destinado a uma infância dickensiana.

Herói universal, o vagabundo com “vida de cão”, que faz os possíveis e os impossíveis para iluminar os olhos cegos da jovem que ama em «Luzes da Cidade» (1931), e partilha as dificuldades de sobrevivência na era industrial com outra jovem em «Tempos Modernos» (1936), Chaplin-vagabundo é a mais virtuosa figura da gentileza humana. Uma das mais brilhantes imagens dessa dimensão universal da personagem, que se confundiu com o próprio homem, surge fora do grande ecrã, no encontro de Chaplin com Jean Cocteau num navio a caminho da Ásia, em 1936. Escreveu o poeta e cineasta francês sobre essa singular reunião: “Não falo inglês. Chaplin não fala francês. E conversamos sem esforço algum. Que língua é esta? É a língua viva, a mais viva de todas, que nasce da vontade de comunicar a todo o custo, a língua dos mimos, a língua dos poetas, a língua do coração.”

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis 56 – Dezembro 2017]

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