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CAFÉ SOCIETY

50 anos. 47 filmes. Será que a matemática pode auxiliar uma crítica em apuros? Vista à luz da última década e meia, a longa e profícua carreira de Woody Allen parece, cada vez mais, aproximar-se de uma permutação simples. Estarão esgotados os diferentes arranjos que deram forma a perfeitos triângulos, quadrados ou mesmo pentágonos amorosos?

Marca indelével do Autor, esta visão trágico-cómica das relações, da vida como uma eterna dança de cadeiras, onde a sorte e o timing ditam o destino de cada um, sustenta o esqueleto narrativo de «Café Society». A luz dourada com que Vittorio Storaro banha as personagens e os cenários faustosos de Hollywood na década de 30 ajuda um pouco a iluminar uma história de tons pardos. Vindo de Bronx, Bobby (Jesse Eisenberg) é um jovem ambicioso que procura em Los Angeles uma oportunidade de singrar na vida. O seu tio, Phil (Steve Carell), um poderoso agente com uma carteira de clientes recheada de estrelas, oferece-lhe não só um emprego no showbiz como também lhe apresenta a mulher por quem ele se vai apaixonar, a mulher que lhe vai partir o coração: Vonnie (Kristen Stewart).

Jesse Eisenberg faz um trabalho espantoso ao dar vida própria à personagem que interpreta conseguindo descolar-se do papel de avatar de Allen a que parecia fadado – como Owen Wilson em «Meia-Noite em Paris» (2011) – enquanto finta, com grande habilidade, umas quantas linhas menos felizes do argumento – algo que até o talentosíssimo Joaquin Phoenix fracassou em «Homem Irracional» (2015). Já Kristen Stewart, que com a sua atitude blasé parece ter encantado a imprensa internacional, parece-me a mim sofrer demasiado com a caracterização e figurinos de menina, de bandelete, lacinhos e meias brancas. A voz de Allen como narrador omnisciente sobrepõe-se a tudo isto – à fotografia, às interpretações –, com pouco proveito e, até certo ponto, funcionando como uma barreira que impede um maior envolvimento emocional do espectador.

Comparar «Café Society» com outras obras maiores da carreira de Woody Allen é tentador. É inevitável não ver neste filme, como em «Blue Jasmine» (2013), um certo desencanto, uma tristeza fina que se impõe como nota dominante onde antes reinava uma espécie original de sarcasmo optimista. O entusiasmo e a expectativa nem por isso nos abandona quando o 48.º filme já espreita à esquina.

[Crítica originalmente publicada na revista Metropolis nº43, Novembro 2016]

Título original: Café Society Realização: Woody Allen Elenco: Jesse Eisenberg, Steve Carell, Kristen Stewart. Duração: 96 min. EUA, 2016

https://youtu.be/-1yDgVpHH8U
Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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