BOYHOOD
MOMENTOS DE UMA VIDA

BOYHOOD
MOMENTOS DE UMA VIDA

Resultado de uma experiência audaciosa e arriscada, «Boyhood: Momentos de Uma Vida», condensa, em menos de 3 horas, 12 anos de filmagens. Neste projecto megalómano, o realizador persegue a impressão do tempo na realidade através da metamorfose (a que às vezes também se chama vida) dos corpos dos actores que aceitaram colaborar. Mas é apenas a premissa ou a metodologia que neste filme é “megalómana”. A história que se quer contar é muito simples, mundana. No centro da narrativa está Mason Jr. (Ellar Coltrane), um rapazinho que encontramos pela primeira vez com 6 anos e que acompanhamos até aos 18, altura em que entra para universidade. Mas este herói perdido não é nenhum Ulisses, a sua história não podia ser mais desinteressante e desapaixonada.

O filme começa com um campo/contra-campo muito bonito. Ao plano do céu, que a câmara, obviamente, não consegue captar na sua imensidão, contrapõe-se o plano apertado da cara da criança que viaja distraída na sua imaginação. “The Brain – is wider than the sky” (Emily Dickinson), parece ser a sugestão, mas depressa se percebe que não será bem assim. Mason Jr. é o filho mais novo de uma família fragmentada e nómada. Patricia Arquette (Olivia) e Ethan Hawke (Mason Sr.) são os pais separados, e há ainda uma irmã mais velha, interpretada pela filha do realizador – Lorelei Linklater (Samantha). Desde o início traçada sobre o signo da instabilidade, a vida de Mason Jr. será mostrada numa sucessão de momentos, todos eles mais ou menos equilibrados (sem grandes clímax ou depressões), em que as partidas se parecem todas com as chegadas. Ou seja, nele pouco muda. Vemo-lo crescer apenas em altura e embaraço.

Infelizmente, a grande atracção do filme é, ao mesmo tempo, a razão do seu fracasso: o passar dos anos não tornou Ellar Coltrane uma presença estimulante, ele e a câmara são completos estranhos. Pelo contrário, a arte e a mentira são velhas amigas. Se pensarmos, por exemplo, em «Este Obscuro Objecto do Desejo» (1977), o que é estranho não é tanto o facto de Buñuel ter usado duas actrizes (Carole Bouquet e Angela Molena) no papel de Conchita, mas o quão depressa nos habituamos a tal bizarria. Torna-se de certa forma natural. Damos connosco a desejar a presença de uma ou de outra actriz no plano seguinte. Em vez de nos distrair, esta estratégia parece aproximar-nos da identidade misteriosa da personagem. No filme de Linklater, ficamos a reparar em quem engordou, como é que envelheceu, e esquecemos as personagens. Os grandes diálogos, que habitualmente animam os filmes do realizador, estão também ausentes deste filme. Já perto do final, Mason pergunta ao pai “qual o sentido de tudo?”. A desmesura da pergunta só encontra paralelo na estreiteza da resposta evasiva do pai. Talvez se possa dizer que «Boyhood» está mais perto da dimensão da resposta do que da pergunta.

Título original: Boyhood Realização: Richard Linklater Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke. Duração: 2h 45 min. EUA, 2014

[Crítica publicada originalmente na revista Metropolis nº 24]

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