BLADE RUNNER 2049

BLADE RUNNER 2049

Sempre que o mundo se vê sob o garrote de uma crise económica, o noir brota na arte como uma representação da nossa falta de esperança, como um grand guignol de cortinas de veludo abertas para a ambiguidade, a incerteza. No início dos anos 1980, a ressaca moral pela falência das utopias revolucionárias dos 1960 e 70, substituídas por um liberalismo castrador, por um capitalismo à prova de bala e pelo nematelminto chamado inflação, fez necessária a presença do noir, só que numa forma repaginada, mais chique e esfumaçada, chamada neon noir. Esse formato foi importado da Alemanha, ou melhor, de Wim Wenders, e ganhou contornos mais chapados (e desolados) ao cruzar com a new age no filme de culto «Liquid Sky», sobre um extraterrestre andrógino, de 1982. Naquele mesmo ano, a mistura do neon noir com a new age apimentado por uma estética integrada e futurista chamada cyberpunk, serviu como uma luva para delinear os vislumbres da dramaturgia sobre o amanhã. Um Amanhã onde tudo é suspenso pela força gravitacional da tecnologia, num breve voo, na fugacidade da lógica binária. Essa alquimia filosófica traduziu-se em arte com o nome de «Blade Runner – Perigo Iminente», uma longa-metragem de muito estilo mas com algumas lacunas no seu poder de refletir (e fazer pensar) sobre as mazelas existenciais da Raça Humana. Era algo de uma virtuosidade ímpar na direção de arte e no ritmo narrativo, sublimando-se em algum existencialismo graças ao desempenho singular de Rutger Hauer. Mas como a sua direção coube a um artesão (autoral) e não a um filósofo, a sua habilidade de gerar transcendência tinha um fôlego limitado. Ao contrário do que se vê na sua sequela, 2049, de um deslumbre fotográfico de tirar o fôlego, mas capaz de escavar ainda mais fundo a sua observação e a sua discussão sobre o Humano. A escavação vai na margem oposta à metafísica que o primeiro filme almejava. Fala-se agora de alma, mas não se quer o espírito e sim o corpo. E, por sorte, temos um antropocentrista de amplo escopo filosófico na realização, o canadiano Denis Villeneuve (de «Sicario»).

Vivemos dias de carteiras vazias, no Brasil e no mundo: logo, por inércia das trevas económicas, «Blade Runner 2049» preserva a sua raiz noir. É uma trama de investigação na qual quase ninguém é confiável, tudo é dúbio e existe uma femme fatale: a ciborgue executiva Luv, talvez a mais ousada personagem feminina de 2017, vivida com frieza assustadora pela holandesa Sylvia Hoeks. Mas esse noir da nova longa é mais seco do que o do primeiro filme. Aquele era mais puxado, mais charmoso. O novo tem o tom ensanguentado, de coágulos pisados, do rosto de K, uma espécie de Prometeus acorrentado ao dever vivido por Ryan Gosling com a grandeza habitual do ator. Nele, Villeneuve desopila a sua veia nietzschiana: K é o estado de espírito do ódio, um leão que ruge em nome de uma verdade suposta.

Nietzsche pousa no ombro de Villeneuve com muita frequência, em sua estética iconoclasta, levando os seus personagens a um estágio de endurecimento, onde afetividades frágeis como carvão ganham resistência de diamante frente a mergulhos trágicos no ambiente onde tentam escavar um abrigo para suas certezas. Foi assim com o historiador (Jake Gyllenhaal) de «O Homem Duplicado» (2013) ao perceber que tem um sósia perfeito de si mesmo, andando pela sua cidade. Foi assim com a agente do FBI Emily Blunt, afogada nos bastidores do tráfico de drogas no seminal «Sicario» (2015). Foi assim agora com a linguista Louise (Amy Adams), de «Arrival» (2016), ao ser informada sobre presença alienígena na Terra.

K vai se embrutecer ao cumprir a missão de encontrar e matar uma criança que teria nascido do ventre de uma replicante, um construto cibernético de feições humanas. A busca pelo alvo leva-o a um milionário excêntrico, Niander (Jared Leto), e sua auxiliar, Luv. Com ela, K trava uma batalha de deixar em suspenso as plateias. É uma das poucas sequências de ação do filme. Existem algumas. Todas magistrais. Mas elas não são o foco. O eixo do filme está em se debater a hipótese de um robot ter gerado vida. Não poderia ser diferente, já que o cinema de Villeneuve é “matéria”, é carne, é útero, é toque. E tudo isso aqui chega potencializado na fotografia de Roger Deakins.

É nela que vemos potencializada a expressão trágica de Harrison Ford, na melhor atuação da sua carreira desde «A Testemunha» (1985), expressando a angústia do caçador de androides aposentado Deckard diante de um jovem agente desesperado para entender qual é a lógica dos organismos dos anos 2040. O rosto sulcado de Ford é um Guernica que carrega todas as brutalidades daquela ficção e toda a mítica da nossa realidade. É o rosto de um mito – de Han Solo e de Indiana Jones – que se fragmenta diante de nós na fragilidade de um herói caído, mas na força de um corpo que se impõe como um aríete da biologia num universo da cibernética.

Título original: Blade Runner 2049 Realização: Denis Villeneuve Elenco: Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas. 144 min. EUA/Reino Unido/Hungria/Canadá/Espanha 2017

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº54 – Novembro 2017]