Between Heaven and Hearth – Najwa Naijjar em entrevista

Between Heaven and Hearth – Najwa Naijjar em entrevista

Em Competição no Festival Olhares do Mediterrâneo, dia 28, no cinema S. Jorge, em Lisboa, às 11h. Disponível na plataforma Filmin até dia 10 dezembro.

Najwa Najjar é uma galardoada realizadora, filha de pai jordano e mãe palestiniana, assim como avós palestinianos, expulsos do seu país em 1948. Do pai jornalista recebeu uma câmara de filmar e da mãe a influência da música. No cinema encontrou a forma de contar histórias e de dar vida e cor aos argumentos das suas raízes. Formou-se em cinema e regressou ao território palestiniano. Atualmente vive entre Ramallah e Jerusalém, e a sua missão consiste em dar vida ao cinema, a arte que considera que permite “as pessoas sonharem os mesmos sonhos, sentirem as mesmas emoções e preencher espaços vazios juntos, quem sabe até criarem esperança juntos”. Vencedora de diversos prémios de cinema, incluindo o filme nomeado para representar a Palestina no Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2015, Najwa Naijar assina um dos filmes em competição no Festival Olhares do Mediterrâneo: Women’sFilm Festival, o «Between Heaven and Earth».

Com Mouna Hawa e Firas Nassar nos principais papéis, este filme conta a história de um casal que vive no território palestiniano, mas está à beira do divórcio. Para conseguirem oficializar a separação, terão de passar os postos de controlo israelitas, mas a falta de um documento obriga-os a mergulharem numa viagem à procura de respostas. Baseado livremente em acontecimentos políticos verdadeiros, o filme já venceu diversos prémios em festivais da europa e prepara-se agora para conquistar o público do festival Olhares do Mediterrâneo. A METROPOLIS falou com a realizadora Najwa Najjar antes da estreia do filme na sala do cinema S. Jorge, sobre as inspirações para o filme, os desafios das filmagens e, sobretudo, sobre o amor e a esperança daqueles que todos os dias têm de lutar pelas suas raízes. SARA AFONSO


Quão importante foi dar vida a este projeto? Como surgiu este filme?
NAJWA NAIJJAR: A inspiração para «Between Heaven and Earth» começou numa loja de faláfel, em Haifa, quando o proprietário palestiniano me contou que o seu filho recusou uma bolsa de cinema em Londres porque “ele é um dos ‘guardiões’ da agora destruída aldeia de Iqrit”. Envergonhada por admitir que não tinha ouvido falar de Iqrit, combinei encontrar esta aldeia no fim de semana seguinte. A viagem para Iqrit, a três quilómetros da fronteira com o Líbano, e inexistente no Google Maps, levou-nos dez horas para chegar – e só quando o meu parceiro finalmente avistou uma torre de igreja à distância é que percebemos que tínhamos encontrado o local. Uma estrada escondida não pavimentada, cheia de árvores e sinuosa, levou-nos a uma Igreja parcialmente destruída. Dois rapazes e uma moça, os netos ou talvez bisnetos dos que foram forçados a deixar Iqrit, cumprimentaram-nos com cautela. Ficaram mais calorosos quando lhes contámos quem nos tinha enviado.

Enquanto bebíamos um chá, e olhando para o cemitério à distância, eles contaram-nos a história de Iqrit, como os seus avós assistiram à destruição da sua aldeia e como eles levaram este caso ao Supremo Tribunal israelita, em 1952, e ganharam o direito de regressarem. No entanto, sem permissão para implementarem a decisão do tribunal, eles têm de permanecer fisicamente na terra para que esta não seja confiscada. Mostraram-nos a barraca que construíram para abrigo e contaram-nos mais histórias, antes dos seus pais chegarem, com o jantar.

Durante a viagem de cinco horas de volta para casa, não conseguia parar de pensar sobre estes “guardiões” e as suas histórias. A sua resiliência foi inspiradora e deram-nos esperança. Os tempos sombrios que vivíamos no território palestiniano eram sufocantes, com a esperança cada vez mais distante a cada dia que passava e a cada decisão política. Mas, de alguma forma, em Iqrit, eu vi luz e felicidade… e, de diversas formas, amor.

É um filme muito bonito. Muito maduro ao retratar o amor entre duas pessoas. Criamos sempre expectativas e deixamos para os outros os nossos próprios fardos. Pretendia refletir sobre o amor, ou podemos dizer que é uma reflexão sobre a família, questões culturais, etc.?
NAJWA NAIJJAR: Antes de mais, muito obrigada pelas suas palavras. «Between Heaven and Earth» é uma história de amor para um país, um povo, para nós mesmos, mas também é sobre o divórcio, e como nós, palestinianos que vivemos na Palestina, Israel, diáspora, estamos separados uns dos outros, como fomos separados e como, de muitas maneiras, já não conhecemos as histórias uns dos outros. Ver aqueles rapazes e moça em Iqrit, gerações que ainda defendem os seus direitos numa terra onde muitos palestinianos são negligenciados ou esquecidos, foi o início desta história de amor.

Como alguém que adora histórias de amor – talvez seja uma forma de escapar e sonhar –, comecei a invocar a história de um casal que está a divorciar-se. Como pode amar-se sob uma ocupação ou quando tudo foi nos foi retirado? Como é que o desgosto e a dor das injustiças do dia-a-dia podem não afetar os próprios relacionamentos pessoais? E se o nosso companheiro passou por uma experiência impensável… será que podemos realmente divorciar-nos do que está a acontecer à nossa volta? Esta tornou-se a principal jornada de um casal explorando os seus próprios sentimentos e relacionamentos. Chegar a um acordo, ou tentar chegar a um acordo, com a bagagem que cada um carrega do seu passado – será que um road movie ao passado os ajudaria a enfrentar o seu futuro? Como podemos curar-nos como pessoas e como uma nação?

Essas perguntas criaram uma história de amor sobre o divórcio num país dividido, onde o amor quase nunca é mostrado. O jovem casal palestiniano, Salma e Tamer, forçados a ficar juntos numa viagem – uma viagem que os leva a muitas histórias esquecidas, desde palestinianos esquecidos dentro do estado de Israel, aos sírios e drusos nos montes Golã ocupados, palestinianos no Líbano, e até mesmo os judeus árabes que foram trazidos do mundo árabe.


Qual foi o maior desafio que enfrentou ao fazer este filme?
NAJWA NAIJJAR: O filme foi rodado em 24 dias. Começamos as filmagens na Cisjordânia, em Jericó; depois, fomos para Ramallah, antes de entrar na Linha Verde e filmar em Jaffa, Nazaré, Haifa, Jish, Ras al Naqoura, Jisr Al Zarqa (a última cidade palestiniana no Mediterrâneo) e, claro, Iqrit. Não tivemos autorização para filmar dentro das áreas da Linha Verde, que são consideradas Israel. Portanto, tivemos que planear bem e filmar rapidamente. No entanto, quatro membros da nossa equipa foram presos, a nossa maquilhadora foi deixada na Cisjordânia no meio da noite, e ainda os postos de controlo que tivemos que passar, e que não foi uma tarefa nada fácil, pois tentámos ter uma equipa composta por palestinianos da Cisjordânia, Gaza, Jerusalém dentro de Israel. Cartões de identidade de cores diferentes com regras e regulamentos diferentes tornaram as coisas complicadas e caras, pois tivemos que substituir membros da equipa em lugares diferentes.

Então, tentar fazer um filme nestas circunstâncias, com um orçamento apertado, enquanto tentava fazer justiça às diversas histórias em camadas do filme, foi uma façanha e tanto. Mas, felizmente, tivemos muito amor do elenco e da equipa, e a união venceu. Assim, também conseguimos cumprir os prazos.

Qual foi o momento mais bonito que recorda de toda esta aventura?
NAJWA NAIJJAR: Foram muitos momentos lindos – um deles em particular foi quando o proprietário palestiniano, Moussa, do restaurante onde filmámos em Jisr al Zarka – a última cidade palestiniana no Mediterrâneo, agora israelita, a lutar para resistir ao encerramento de estradas ao redor deles pelos israelitas, sufocando-os e dividindo-os ¬ –, nos confessou que lhe foram oferecidos milhões de shekels israelitas para ele vender as suas coisas, mas que ele nunca o faria. O facto de querermos destacar e mostrar seu espaço no cinema valia mais do que os milhões que lhe foram oferecidos. O seu orgulho e resistência levaram-nos às lágrimas.


Agora um pequeno pormenor. Numa das cenas do encontro familiar, a mãe da personagem principal, a Salma, tem um avental com um galo de Barcelos, alusivo a Portugal colocado. Como aconteceu isso?
NAJWA NAIJJAR: Sabe que não percebi que estava escrito “Portugal” no avental? Que perspicácia! Na verdade, foi o avental da cozinha em que filmámos. Estava na casa de uma velha família Husseini, de Jerusalém. Talvez não seja algo assim tão surpreendente. O meu pai, quando foi forçado a deixar Jerusalém, em 1948, foi para o Brasil e falava português fluentemente. Incrível como estamos todos tão ligados.

Na sua opinião, quão importante pode ser este festival de cinema no feminino?
NAJWA NAIJJAR: Festivais e festivais femininos são peças centrais maravilhosas para vozes alternativas. Descobri que este festival em particular – Olhares do Mediterrâneo: Women’s Film Festival –teve a coragem de exibir filmes que fogem ao esperado e às notícias veiculadas na televisão. Precisamos de programadores mais corajosos que estejam dispostos a assumir riscos e a mostrar outras vozes.

Como acha que o cinema (ou o mundo) ficará depois desta situação de pandemia que estamos a viver?
NAJWA NAIJJAR: Espero que volte ao normal. O cinema pode ser entretenimento, mas não é apenas entretenimento. O cinema (e os festivais) são locais de encontro, envolvimento, troca de ideias – para sonhar e ter esperança juntos.

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