BAAN

BAAN

O que é ser jovem adulto em Portugal? Leonor Teles parece ter interesse nestas manifestadas dores, até sendo ela própria uma “jovem adulta”, de ambições e alguma precariedade, observando o seu redor e coletivo e assim, neste «Baan» dispô-la numa narrativa, ora em modo autognosis, ora identificável para os demais. Aliás, comecemos com o título, palavra tailandesa de “Casa” / “Lar”, esta segunda longa-metragem tem como gesto diluir lugares, aqui, Almirante Reis e Bangcoque, formam um novo “não-lugar”, em que terrenos e tempos são matéria utópicas nas vivências da sua L (Carolina Miragaia), um heterónimo não assumido, no seio de um impasse, seja profissional ou pessoal, presa a um “corpo” e ao “espaço” o qual não se encaixa.

«Baan» é um filme de uma melancolia entranhada e estagnada, sem esperança, mas igualmente dotada de estética, essa emprestada de um Wong Kar Wai vivente dessas desarmonias sentimentais e desilusões amorosas. Leonor Teles consegue aqui um filme a respeito da sua geração e com paladar para as seguintes e posteriores, é a confirmação de uma autora, ou melhor, de uma protagonista que veio para ficar no nosso cinema, desde o Urso de Ouro pela «Balada dos Batráquios» até pela primeira longa na descoberta de um “herói” à americana nas bordas do rio Tejo [«Terra Franca»], no entanto «Baan» aproxima-se à curta seguinte – «Cães que Ladram aos Pássaros» – onde se atravessa no caminho da gentrificação, com previsões dessa geração encalhada, optando por folias enquanto anestesias a essas responsabilidades ainda por vir. Por um lado, a realizadora que tudo tem feito para a sua sobrevivência (com isso levando à sua relevância no circuito cinematográfico português), desde a direção de fotografia (sublinhar o seu trabalho no díptico «Mal Viver» / «Viver Mal» de João Canijo), ainda não parece ter encontrado a sua forma, a sua corrente artística, mesmo deparando com o seu discurso. O filme sente-se nessa deriva, consciente e inconsciente, abocanhando tudo, extraindo das ruas as suas angústias e inquietudes, como também levantar bandeiras como contexto “histórico”, a contemporaneidade como campo de batalha, mas infelizmente, nesse gesto político-social, de extremas-direitas a migrantes em estados miseráveis, da xenofobia a identidades, isso soa a anexos da verdadeira demanda política, a do existencialismo de L, essa jovem que bem poderia ser qualquer um dos nós, embutidas em dias de desespero.

Título original: Baan Realização: Leonor Teles Elenco: Carolina Miragaia, Filipa Falcão, Meghna Lall Duração: 100 min. Portugal, 2023