Avatar: O Caminho da Água

AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA

AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA

Após um longo hiato, James Cameron criou novamente um universo fantástico para os espectadores, «Avatar: O Caminho da Água» é de um verdadeiro esplendor visual. Regressamos ao mundo de Pandora, uma lua habitada pelos Na’vi, aliens de três metros de altura, com orelhas tipo elfo e de tez azul. Os Na’vi vivem em comunhão com a natureza e conectam-se literalmente à fauna e à flora de Pandora. A raça humana assume-se como um vilão colonizador que deseja a destruição desse esplendoroso universo.

«Avatar: O Caminho da Água» continua a habitar os reinos da defesa ambiental e a narrativa ecológica. Há uma riquíssima montra de animais, plantas e ecossistemas que enchem o ecrã com vida digital. Em pano de fundo temos a metáfora da colonização do homem branco nos Estados Unidos da América. Os Na’vi são reminiscentes dos nativos americanos e os Marines deste filme trazem à memória a carga pesada da cavalaria norte-americana que arrasou da face da Terra muitas tribos índias que habitavam há séculos o Oeste americano.

Com mais de três horas de duração, que passam a voar, o filme tem apenas duas sequências sem efeitos visuais, e é um assombro digital com tudo criado de raiz através da captura de movimentos. A obra divide-se em três fases distintas: as forças em confronto por Pandora; o deslumbramento deste universo; e, no capítulo final, a acção pura e dura. Esta é a história do ex-marine Jacke (Sam Worthington), transformado de corpo e alma num Na’vi que conseguiu unir os clãs e colocou em debandada as forças colonizadoras da Terra. Passados vários anos, Jake tem rebentos nessa lua com a sua paixão azul Neytiri (Zoe Saldana). A narrativa ganha balanço com a disrupção deste paraíso com o retorno dos colonizadores humanos a Pandora. Com a cabeça a prémio, Jake e a sua família deixam as florestas e encontram refúgio junto de um clã aquático, os Metkayina, nos arquipélagos de Pandora.

James Cameron explorou a complicada dinâmica entre pais e filhos e a comunhão destes com as forças vivas de Pandora. Tudo é orgânico e existe em comunhão – os Na’vi e a natureza – é uma alegoria com uma mensagem poderosa que extravasa o ecrã. Essa sintonia emocional é sentida sobretudo na relação de fascínio de Kiri, a filha adoptiva de Jake, que entra em transe quando comunica com o meio em seu redor. A interpretação de Kiri ficou a cargo da actriz fetiche de Cameron, a brilhante e expressiva Sigourney Weaver que com 73 anos encarnou uma adolescente numa performance prodigiosa, a melhor do filme. O outro lado da passagem de testemunho fez-se através de Lo’ak (Britain Dalton), o impetuoso filho de Jake, sente-se um outsider na sua família com o desejo de demonstrar ao pai a sua coragem. Lo’ak estabelece uma relação emocional com outro pária: um tulkun, pertencente a uma espécie de baleias que dominam os mares de Pandora e que têm um vínculo espiritual com os clãs do mar, sendo mesmo considerados animais sagrados.

Avatar: O Caminho da Água


A fase intermédia de «Avatar: O Caminho da Água» é semelhante a uma fantástica visita ao oceanário dentro de uma sala de cinema. Foram criadas 57 novas espécies marinhas para este filme, são cerca de 30 minutos que só por si valem o bilhete. O filme e a narrativa assumem contornos absolutamente diferentes. É um momento onde a acção dá lugar à pura fantasia visual em bailados aquáticos e linguagem gestual, sequências dignas do melhor da herança do cinema mudo de há 100 anos. James Cameron é um mestre do H2O, os seus trabalhos na água são seminais – veja-se «O Abismo» (1989), «Titanic» (1997) e os documentários subaquáticos desenvolvidos entre 2002 e 2005. Em «Avatar: O Caminho da Água» Cameron volta a repetir o feito tornado possível com mais um salto tecnológico promovido com o motion capture [captura de movimentos] debaixo de água antes da digitalização com o auxílio da Weta FX (a companhia neozelandesa de efeitos visuais co-fundada por Peter Jackson, o realizador de «O Senhor dos Anéis»)… Não é possível irmos ao cinema ver uma obra de James Cameron e não ficarmos fascinados com mais um feito tecnológico no ecrã. Lembramos «O Exterminador Implacável» (1984), «A Verdade da Mentira» (1994), «O Exterminador Implacável 2 – O Dia do Julgamento» (1991), «Titanic» e «Avatar» (2009). São décadas a surpreender as audiências e a criar novas ferramentas para os cineastas vindouros.

O clímax de «Avatar: O Caminho da Água» está polvilhado de lugares-comuns que envolvem os caçadores de tulkun e os caçadores de Jake. Entre outras subtramas, Quaritch (Stephen Lang), o antigo comandante de Jake nos Marines, é transformado em avatar de um Na’vi e procura capturar o líder da resistência utilizando os filhos de Jake como reféns. O desfecho final é uma mega sequência de acção non-stop com cerca de 40 minutos em redor de um ultra-sofisticado navio (um cruzamento entre uma nave espacial e um baleeiro). E mesmo nesse desfecho há espaço para momentos de rara beleza. Em termos de avanços narrativos não se acrescentou muito mais ao universo de «Avatar», é a mesma fórmula amplificada pelos feitos tecnológicos. Visualmente o filme é perfeito. Em «Avatar: O Caminho da Água» James Cameron teve carta branca para criar uma súmula da sua carreira e das suas paixões, resultando um objecto altamente sofisticado de ficção, acção, aventura, mas também de pura contemplação e consciência ambiental. Um filme com os pés na lua (Pandora) mas a mente a pensar no nosso planeta.

Título original: Avatar: The Way of Water Realização: James Cameron Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldan, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Kate Winslet, Jemaine Clement, CCH Pounder Duração: 192 min. EUA, 2022

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº89, Janeiro 2023]