Águas Perigosas

ÁGUAS PERIGOSAS

ÁGUAS PERIGOSAS

Desde 1978, quando Jamie Lee Curtis fugiu das lâminas afiadas de Michael Myers em «Halloween» de John Carpenter, estabeleceu-se uma tendência do horror – o slasher – na qual um psicopata movido pelo instinto de matar arrastar-se-ia por aí, é como quem diz transformado num instrumento cortante, à cata de sangue fresco para derramar. Estetizou-se ali que haveria sempre uma mulher como alvo do demónio em questão, não tanto por uma relação de fragilidade feminina, mas sim como um sinal dos tempos, como um indicativo de que só a inteligência e o coletivo da intuição das mulheres poderia repelir uma transcendente força do mal a qualquer normativo humano. Foi assim em «Sexta-Feira 13» (1980). Foi assim em «O Pesadelo em Elm Street» (1984). Foi assim em «Gritos» (1996). E foi e será assim – sempre assim – em qualquer fita na qual um serial killer estiver faminto para conjugar o verbo matar. Até monstros sem consciência tiveram esse traço que favorecia o empoderamento feminino, vide «Mimic» (1997), de Guillermo Del Toro, com Mira Sorvino nas presas de artrópodes, ou «A Relíquia» (1997), de Peter Hyams, com a hoje esquecida Penelope Ann Miller a correr de lagartos ameríndios. Só faltou um tipo de psicose neste pacote: a psicose animal. A psicose daquele que o cinema – através do midas Steven Spielberg – elegeu como sendo o mais feroz dos animais: o tubarão. Eis que surge «Águas Perigosas». E fecha-se um ciclo.

Uma das mais talentosas atrizes de Hollywood, uma actriz dura, tinha o rótulo de “nice girl” ao qual foi engavetada, Blake Lively é a Jamie Lee Curtis deste thriller de horror com H2O, capaz de atualizar valores de género (sexual e cinematográfico) ao colocar uma loura como antagonista de um Norman Bates das águas. A trama de ««Águas Perigosas» é curta: estudante de Medicina vai surfar nas praias do México sendo acossada por um tubarão que fará de tudo para abocanhar-lhe as coxas roliças. E ao longo de 86 salíferos e feéricos minutos, ela fará de tudo para escapar a mandíbula do bicho, especialmente, de se fechar à volta do seu pescocinho salpicado de parafina.

É uma espécie de ping-pong: tubarão vem, loura vai. É adrenalina em doses fartas. Mas como tem por detrás de tudo uma mente que pensa ação e medo – a mente do cineasta catalão Jaume Collet-Serra, o mesmo de «A Órfã» (2009) e de «Desconhecido» (2011) – os ingredientes fervem em pressão através de uma estética precisa. Há enquadramentos rigorosos. Há ritmo de edição sem perder o passo com a narrativa. Há uma investigação da Natureza como fábrica de perigos, sem que isso soe antiecológico. E Jaume, que já dirigiu grandes atrizes (Vera Farmiga, Diane Kruger, Julianne Moore), sabe dar a Blake deixas – e tomadas de plano médio ou de “close” – deixando a brilhar a força feminina em «Águas Perigosas».

Título original: The Shallows Realização: Jaume Collet-Serra Elenco: Blake Lively, Brett Cullen, Óscar Jaenada. Duração: 86 min. EUA, 2016

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