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A VOZ HUMANA

Depois de «A Lei do Desejo» (1987) e «Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos» (1988), Pedro Almodóvar regressa pela terceira vez ao texto de Jean Cocteau, A Voz Humana (1930), desta feita com uma adaptação mais convencional mas, ainda assim, com algumas reviravoltas almodóvarianas pelo meio.

Em vez do habitual jogo de ensemble, em «A Voz Humana» Almodóvar coloca em cena “apenas” Tilda Swinton, é ela que dará corpo às angústias de uma mulher que aguarda o telefonema do amante que a abandonou. O resultado é um festim de 30 minutos em que a actriz nos agarra do princípio ao fim e quase nos faz esquecer das muitas incarnações passadas desta personagem.

Contudo, do confronto nasce algo interessante. Como acontece com o fado, sobre a mesma base harmónica, cada intérprete afirma a sua singularidade. Quando pensamos, por exemplo, na interpretação de Anna Magnani – mas podemos falar também de Ingrid Bergman ou, muito mais recente, de Rosamund Pike – em todas estas performances à uma sinceridade… simples. Isto é, uma entrega completa ao desespero, algo que, no caso de Tilda Swinton, se complexifica. A sua interpretação acompanha o artifício do cinema deixado à mostra em muitos planos do estúdio, do cenário pré-fabricado, etc. O artifício do discurso amoroso acompanha o artifício do cinema.

É muito interessante para o espectador observar como no decorrer do longo telefonema a actriz (que faz de actriz) atravessa várias fases do luto amoroso e como parece crescer nela uma consciência de que, apesar da “dor que deveras sente”, também ela finge, também ela repete um cliché. Afinal, não são só as cartas de amor que são ridículas, os telefonemas também o são, e ainda bem.

Título original: The Human Voice Realização: Pedro Almodóvar Elenco: Tilda Swinton, Agustín Almodóvar, Miguel Almodóvar. Duração: 30 min. Espanha, 2020

Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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