A Vida de Adèle

A VIDA DE ADÈLE

A VIDA DE ADÈLE

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº14, Novembro 2013]

É bem provável que a maioria dos potenciais espectadores de «A Vida de Adèle» tenham conhecido o filme através dos ecos mais ou menos “escandalosos” que precederam a sua estreia em França: por um lado, as actrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux vieram a público denunciar aquilo que classificaram como uma utilização abusiva da sua entrega profissional, nomeadamente nas cenas de nu que rodaram; por outro lado, o realizador Abdellatif Kechiche não só se mostrou surpreendido com tais declarações (com eco, inclusivamente, em publicações americanas) como, face ao alarido mediático, chegou mesmo a declarar que lhe parecia errado lançar o filme sob o efeito de tantas declarações e especulações… Em qualquer caso, «A Vida de Adèle» chegou às salas de França no dia 9 de Outubro.

Escusado será dizer que nenhum filme se mede pela agitação pública que possa gerar, sobretudo quando muitos desses fenómenos são induzidos e ampliados por uma imprensa mais ou menos “cor-de-rosa”, afogada em práticas de duvidosa deontologia. Seja como for, independentemente das razões que possam assistir a cada um dos intervenientes no processo criativo de «A Vida de Adèle», não deixa de ser desconcertante assistir a tais convulsões, sobretudo tendo em conta que, poucos meses antes, no Festival de Cannes (15/26 Maio), o cineasta e as duas actrizes celebraram de forma exuberante e muito cúmplice a Palma de Ouro atribuída ao filme.

Se faz sentido evocar tudo isto, é apenas para sublinhar que, de facto, «A Vida de Adèle» se apresenta como um objecto de radical intimismo, traçando o retrato da intensa relação amorosa que nasce entre Emma (Seydoux) e Adèle (Exarchopoulos). Aliás, não fará muito sentido conferir uma carga “militante” a tal retrato, dizendo, por exemplo, que raras vezes vimos um amor lésbico encenado com tamanha ternura e frontalidade – em boa verdade, é a irredutibilidade do amor que aqui se celebra, não o “simbolismo” das suas componentes especificamente sexuais.

Nesta perspectiva, importa sublinhar a extrema coerência da trajectória criativa de Kechiche, hoje em dia um dos casos mais notáveis de uma (re)valorização do realismo no cinema francês, sempre através de um elaborado e complexo trabalho de direcção dos actores. Assim como «O Segredo de um Cuscuz» (2007) revelava uma teia de afectos recoberta pelos sinais de um universo profissional muito particular (o quotidiano de uma cidade portuária), A Vida de Adèle mergulha na paisagem de um juventude contemporânea dividida entre o liberalismo da sua existência e os fantasmas morais que a habitam. Seria uma pena que a especulação mediática nos impedisse de olhar, com olhos de ver, para um filme tão depurado e sublime.

Título original: La Vie d’Adèle Realização: Abdellatif Kechiche Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche Duração: 179 min França, 2013