A Tempo Inteiro

A TEMPO INTEIRO

A TEMPO INTEIRO

A vida real, tal como o cinema, pode virar tragédia até nos seus momentos aparentemente mais banais. E é de vida real, da classe trabalhadora e empobrecida, que Eric Gravel, realizador e argumentista, quer falar em «A Tempo Inteiro».

Julie (Laure Calamy) é mãe solteira de duas crianças, com pouca ou nenhuma ajuda do pai delas, e todos os dias se desloca de transportes públicos da localidade onde mora para Paris. Com muitas horas de trabalho e poucos recursos, tenta regressar à sua área profissional, numa altura em que assume um cargo de responsabilidade na equipa de limpeza de um hotel. No entanto, tudo parece conspirar contra si, e os dias vão progressivamente ficando mais difíceis.

Se já o quotidiano normal seria exigente, tudo piora com a intensa greve de transportes. Torna-se praticamente impossível fazer o caminho entre o trabalho e a sua casa e, mesmo quando consegue, chega a horas tardias e arranja problemas com a ama das crianças. Tudo o que pode correr mal, corre, ainda que sem o aparato de efeitos visuais ou ocorrências sobrenaturais. É a vida, tal como ela é, simplesmente a acontecer. Com dificuldade que, diga-se, são comuns a várias pessoas que assistem ou filme (embora não necessariamente ao mesmo nível).

Ao lado da protagonista, a audiência torce por ela, vê-a falhar, e sente o seu sofrimento. Sobretudo porque, o pouco de sorte que vai amealhando, é usada em prol dos filhos. E, até as atitudes mais egoístas e autocentradas, são tomadas para conseguir um melhor emprego e, assim, uma vida melhor para a sua família.

O argumento descomplicado e humano coloca as personagens a um nível acessível, sem heróis ou vilões, apenas pessoas que tentam fazer o melhor possível com o pouco que têm. Longe do poder, mais condicionadas por ele, as personagens movem-se sem aparato ou grandes acontecimentos, à boleia de um comentário social intenso e de proximidade.

Uma história interessante, fria e direta, que mostra como o cinema também é espectador da sua realidade e, por vezes, a mostra simplesmente. Sem twists, revelações bombásticas ou acontecimentos profundos.

Título Original: À Plein Temps Realização: Eric Gravel Elenco: Laure Calamy, Anne Suarez, Geneviève Mnich Duração: 88 min. França, 2021

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº96, Agosto 2023]