A FLOR DO BURITI

A FLOR DO BURITI

João Salaviza, há muito debatido como um dos mais promissores nomes do cinema português do século XXI («Arena», «A Montanha»), distanciou-se do seu previsível percurso. Juntamente com a sua companheira Renée Nader Messora, partiram para o Brasil, terra dos “krahô”, para iniciar uma nova jornada cinematográfica. Desse empreendimento nasceu «Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos», um cruzamento de três dimensões: o ficcional, o documental e também o espiritual, que anteviam um país que cuspira na cara das suas ancestralidades. Representada na história de um indígena da sua mencionada tribo que embarca numa crise existencial, oscilando na sua floresta espectral e na “terra dos brancos”, esta última “invadida” de brilharetes a um futuro ultraconservador e demarcada em diferentes, mas unidos, poderes (religioso, agronegócio, bala). Em suma, perdemos um cineasta enraizado no nosso biotipo, ganhamos com isso uma dupla determinada em desvendar um mundo para além da nossa compreensão e narrativa. Aconteceu em 2018, nessa altura, João Salaviza já expressava a sua intenção de permanecer com os “krahôs” por tempo indeterminado, complementando fascínio na representação do indígena, fora do símbolo místico e do “selvagem primitivo”, ainda perpetuado em muitas plataformas artísticas, prometendo um filme ainda mais vocal na sua integridade (e poderá não o último). Desta ambição nasceu «A Flor do Buriti», escrito em colaboração com a tribo e filmada em 16mm no território, acompanhando a ascensão de um cinema indígena com o seu grau de urgência e de discurso político-social, além da preservação da memória encontrada em relatos soltos ou recordações coletivas. Um filme de “krahô”, com “krahôs” para o Mundo, uma acessibilidade inventada e sem a infantilização e das pessoas que representam e que escutam. A dupla Salaviza e Messora conseguiu com isto um feito: continuar a chuva e a cantoria, invocar os mortos e convidar espíritos para uma dança ora festiva à sua ameaçada identidade ou fúnebre perante a eventual extinção naquilo que os “brancos” apelidam de modernidade. Contudo, o mundo é ligado de uma ponta à outra, o cinema faz disso as suas pontes e «A Flor de Buriti» vem beber de um naturalismo à sua sobrenaturalidade, é um Apichatpong’ (se dermos asas a comparações equacionais) emigrado para fronteiras selvagens de outros dialetos e de outras povoações espectrais. Agora, resta-nos a questão: Salaviza continuará a sua jornada espiritual ou retornará “sebastiano” ao país cinematográfico que tanto anseia pela sua presença?

Título original: A Flor do Buruti Realização: Renée Nader Messora, João Salaviza Elenco: Francisco Hyjno Kraho, Ilda Patpro Kraho, Luzia Cruwakwyj Kraho Duração: 123 min. Portugal/Brasil, 2023