A FILHA DO REI DO PÂNTANO

A FILHA DO REI DO PÂNTANO

Estamos mais do que habituados a ver histórias de raptos, guerra e catástrofe em que, nas entrelinhas, o verdadeiro desafio do herói é na verdade o quotidiano – quem é que se lembra do longo corredor dos cereais de pequeno-almoço no maravilhoso «Estado de Guerra» (2008), de Kathryn Bigelow? A incapacidade de lidar com o banal pode ter raízes muito diversas, desde a imaturidade até um trauma profundo e incapacitante. Em «A Filha do Rei do Pântano», conhecemos a pequena Helena (Brooklynn Prince) quando esta tenta escapar-se às lides domésticas, que ela associa à mãe (Caren Pistorius), para ir caçar no meio da floresta com o pai, Jacob (Ben Mendelsohn). Quando ela falha o tiro, o pai faz-lhe uma tatuagem. Quando ela acerta o alvo, o pai faz-lhe uma outra tatuagem. Mais tarde, já adulta (interpretação de Daisy Ridley), encontramo-la no seu cubículo de escritório, ela esforça-se por esconder as suas tatuagens com o cabelo ou camisolas de gola alta enquanto se debate, inquieta, com uma folha de Excel (quem nunca?). A insuportável banalidade, outra vez.

O passado violento e a descoberta traumática da verdade – que o pai era afinal um assassino e que a sua mãe foi raptada e mantida em cativeiro (está tudo escarrapachado no trailer…) – estão-lhe agarrados à pele, e, tal como as tatuagens, também isto Helena tenta esconder de todos, até mesmo do seu marido (péssimo papel, péssima interpretação de Garrett Hedlund) e da filha (Joey Carson). Até que um dia, já se sabe, o passado bate-lhe à porta. Ou nem bate, entra mesmo sem ser convidado, impondo-se novamente na sua vida, exigindo toda a sua atenção e foco.

Enquanto a polícia cai na armadilha de pensar que Jacob está morto, Helena parte à sua procura, sem saber bem o que a espera. O regresso à floresta onde cresceu isolada do resto do mundo até aos 10 anos está ali à sua frente. Ao contrário das festinhas de subúrbio, que a deixam extremamente desconfortável, aqui ela mexe-se com total confiança. Na sua cabeça, é a sua filha que ela tenta proteger. No final diz-se mesmo qualquer coisa como “tudo pela família”. A ideia é bonita e honrosa, mas, na sua incompetência narrativa e alguns erros de casting, o filme acaba por tornar evidente esse subtexto de que eu falava no início: para Helena, o verdadeiro desafio é na verdade o quotidiano. É por isso que num “thriller” com assassinos à solta e tal, para mim, a cena mais inquietante é mesmo a final. Descubra porquê.

Título Original: The Marsh King’s Daughter Realização: Neil Burger Elenco: Daisy Ridley, Ben Mendelsohn, Brooklynn Prince Duração: 109 min. EUA, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº100, Dezembro 2023]