IndieLisboa_Summer of Soul

18ª Edição do IndieLisboa

18ª Edição do IndieLisboa

A poucos dias de iniciar a 18ª Edição do IndieLisboa, Miguel Valverde, diretor do festival desde a primeira edição, em 2004, esteve à conversa com a METROPOLIS. O balanço do caminho trilhado e a reafirmação dos princípios fundadores do festival, os novos desafios e a memória duma edição 2020 singular, a excelente relação do público do IndieLisboa com o cinema português e a energia única que percorre as salas nas sessões de curtas portuguesas, a escolha de Sarah Maldoror para a retrospetiva e de Camilo Restrepo para o foco na secção Silvestre, os destaques da Indiemusic, secção incontornável do festival, e as surpresas do Indiejúnior para 2021 foram vários temas abordados. A partir do dia 21 de agosto o Indielisboa está de volta às salas da Culturgest, Cinemas São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal. O filme de abertura chama-se «Summer of Soul», uma viagem ao ano de 1969, ao bairro de Harlem, em Nova Iorque e ao maior festival de sempre de música soul: o chamado “Woodstock afro-americano”.

18 anos é uma idade bonita. Concorda que o IndieLisboa já atingiu a maioridade, ou seja, já se consolidou?
MIGUEL VALVERDE: Creio que sim, já atingimos a maioridade. Ao longo dos anos, fomos sabendo criar um conjunto de propostas, um conjunto de soluções, de programas e de autores. Sempre de um ponto de vista muito organizado, muito dinâmico, muito orgânico e passados 18 anos desde aquela nossa célebre primeira edição, em 2004, em que começamos logo a dizer o que queríamos duma forma muito afirmada, o festival chega a esta edição com o mesmo princípio fundador: os filmes não são divididos por género, por duração, não são apenas um tipo de filmes que são mostrados. O Indielisboa é abertura, é amplo, aberto a todos e neste momento acho que sim, é um festival consolidado, mas ainda tem muito para dar no futuro.

Quais os desafios que se colocam, hoje, incluindo as mudanças suscitadas pela pandemia?
M.V.: Diria que em primeiro lugar tivemos de saber manter a equipa, embora não fosse totalmente possível pois o festival adiou quatro, cinco vezes. A ideia era tentar mudar o mínimo possível, mantendo os filmes que já estavam previamente escolhidos. Manter ou tentar manter o maior número de sessões possível, sendo que já sabíamos que teríamos uma limitação de 50% das salas, que agora aparentemente vai ser aligeirado, mas ainda não vamos apanhar esse aspeto. Por outro lado, também, sabemos que as pessoas estão a voltar, progressivamente, às salas, e, portanto, é bom a aposta no cinema ao ar livre, e tentar que as pessoas se sintam confortáveis na sala. Portanto, as pessoas no indielisboa podem sentir-se seguras, confortáveis como o ano passado também se sentiram quando o Indie foi o primeiro festival a acontecer, no final do Verão. E nós queremos que seja uma edição muito bonita. Pessoalmente, a edição do ano passado foi aquela onde senti que tinha mais tempo, que não estava tão cansado, senti que as coisas estavam preparadas como devia ser.

IndieLisboa_Los Conductos
Los Conductos

O festival, ao longo destas quase duas décadas de existência, apostou em novos nomes do cinema nacional que depois viriam a confirmar as suas credenciais. Qual a relação do público do festival com o cinema português ao longo da história deste evento?
M.V.: É curioso que faça esta pergunta pois nós desde a primeira edição que queríamos ter este papel na história do cinema português. Não é por acaso que o Miguel Gomes tenha ganho com a sua primeira longa-metragem no festival, e hoje é um dos cineastas mais respeitados a nível mundial. Como por exemplo, João Salaviza ou Gabriel Abrantes, ambos já com carreira firmada, inclusive nas longas-metragens são dois cineastas aos quais o Indie esteve ligado com as suas primeiras curtas. Podia falar do Ico Costa, do Carlos Conceição, a Leonor Teles, e muitos outros autores que o Indie teve o prazer de apresentar as suas primeiras obras. E é engraçado que de ano para ano, nós sentimos que há da parte do público português uma grande vontade de ver estes filmes, em contexto de festival (sabemos que quando vão para as estreias comerciais é mais difícil). Mas também porque há aqui uma energia – o festival é composto pela competição de longas e a de curtas, e as curtas trazem muitos espetadores e têm uma energia diferente. Portanto, quando cada um destes realizadores vai estrear o seu filme há um sentido de comunidade que leva muita gente ao IndieLisboa. E o que é certo é que a alguns dias de começar o festival, nas 10 primeiras posições dos filmes com mais bilhetes vendidos existem mais de metade de sessões que são portuguesas. Por isso, creio que posso dizer que a relação do publico do festival com o cinema português é muito boa e sempre em crescendo.

IndieLisboa_Girls Museum
Girls Museum


O foco do Silvestre deste ano vai para o cineasta colombiano Camilo Restrepo e a retrospetiva é dedicada à obra da gaulesa Sarah Maldoror. Pode falar-nos destas escolhas? Os ecos das questões pós-coloniais tiveram algum peso nestas opções?
M.V.: Pois, é mais uma pergunta curiosa, porque tudo começa com o desejo de fazer uma retrospetiva sobre o trabalho da Sarah Maldoror que veio na sequência de termos dedicado uma retrospetiva a Ousman Sembène, considerado um dos pioneiros do cinema africano. E a Sarah Maldoror, embora tenha nascido em França, o tema de grande parte da sua obra é mesmo o desejo de filmar em África, de contar as histórias dos africanos e sobretudo de colocar-se ao lado da política e dos países que estavam à procura da independência e deixarem de ser colónias para passarem a ser países independentes. E a Sarah têm uma relação muito grande, até porque foi companheira do poeta Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA. Portanto, as questões políticas em Cabo Verde, na Guiné-Bissau…há uma obra decisiva chamada «Sambizanga» que fala precisamente sobre estas questões. Em relação ao Camilo veio da Colômbia e já vive em Paris há muitos anos, mas ele olha para a sua Colômbia como a Sarah olha para África: tudo aquilo que está à superfície não é aquilo que é decisivo. Há toda uma camada debaixo da superfície que é preciso raspar, que é preciso mostrar, que é necessário descobrir. O Camilo olha para Medellin, uma das cidades colombianas mais complexas nas questões da Droga, com um tecido granuloso: os seus filmes são cheios de grão, mas, ao mesmo tempo, as cores são vibrantes, tendo em conta o ambiente em que se move parece um pouco complicado. Ele vai um pouco atrás das classes mais desfavorecidas, não para olhar de cima para elas, mas como igual. A sua origem não é burguesa, como ele costuma dizer “Eu vim do Povo”. É aí que ele se encontra, é isso que ele filma. E que tem vontade de filmar. Portanto, para nós a partir do momento em que escolhemos a Sarah Maldoror como a retrospetiva que queríamos fazer nesta 18ªedição, o Camilo Restrepo veio um pouco por arrasto porque era um cineasta que já estamos a seguir há muito tempo- já ganhou dois prémios no Indielisboa, e exibiu aqui a sua primeira longa que estreou no ano passado. Em suma, estamos muito contentes por poder fazer estes dois programas muito completos.

Um dos momentos altos do Indielisboa é a secção Indiemusic. Quais os destaques da edição 2021 neste particular?
M.V.: Diria que o Indiemusic tem vindo a afirmar-se como uma das enormes secções deste festival. Como dizia à pouco, o festival tem vindo a consolidar-se e não perdeu o entusiasmo inicial e aquilo que procurava. De início, não tínhamos nenhuma secção chamada Indiemusic, mas fruto do muito trabalho do meu colega Carlos Ramos que tem, neste aspeto, uma busca intensiva pelos filmes que exibimos…ele e o seu comité de seleção trabalham muito durante o ano inteiro para tentar encontrar estes filmes. Conseguem trazer muitos deles em estreia. É um trabalho muito apurado. Temos muito boas surpresas: se calhar destacaria «Different Johns», o «Ney à flor da pele», o «Nueve Sevillas» que é sobre Flamenco e o «Sister with Transisitors», também um filme muito interessante. E claro há «The Sparks Brothers», sobre esta banda que tem estado muito em voga ao longo dos últimos dois anos, e que é um filme que vai ter estreia comercial e que o Indie vai mostrar em antestreia.

IndieLisboa_Sisters with transistors
Sisters with Transistors

O indie júnior ocupa um lugar especial no seio de todos aqueles que já passaram pelas várias edições e cruza várias gerações. Que surpresas têm reservadas para este ano?
M.V.: O Indiejúnior é uma das secções mais antigas do festival. Começou em 2005, e hoje em dia já temos várias pessoas dessa edição de 2005, desses espetadores, que hoje já estudam cinema e, portanto, nós acreditamos que desde o início o Indiejúnior sempre procurou mostrar uma programação diferente daquilo que as crianças têm acesso. E que isso já está a condicionar, a fazer crescer o público. Parece-nos que foram momentos que constituíram marcos na vida daquelas pessoas. As surpresas para esta edição: este ano vamos ter o cinema de colo, que são sessões de vinte minutos para Pais e filhos, mas crianças de colo, dos 0 aos 3 anos. Estas sessões têm a particularidade de ter uma cenografia própria, que é a construção do útero materno. E tudo o que se passa neste ninho, neste quentinho são filmes que estão a passar e que nos conectam, o que é suposto conectar estas crianças tão pequenas com a cor, com a luz, com a palavra, com o som. Portanto, acreditamos muito que é mais uma opção, é o Indielisboa a crescer, mais ideias para esta edição.

IndieLisboa_Bom dia Mundo
Bom dia Mundo


Este ano, o festival volta a decorrer no Verão. Qual o balanço da edição do ano passado realizada, sensivelmente, na mesma altura? É uma opção para continuar?
M.V.: Como dizia, a edição do ano passado foi das edições que mais gostei de fazer. Lembra um pouco a nossa primeira edição, que aconteceu em setembro, na prática no final do verão. E parecia um regresso ao passado. Porque aquele primeiro indielisboa teve apenas 80 filmes e tinha havido tempo, espaço para as conversas, para estar com as pessoas. Foi sinónimo de não estar demasiado cansado enquanto o festival está a decorrer e usufruir – o que nos últimos anos tem sido difícil pois, para nós programadores, estar no festival significa estar a correr de sala para sala, dar entrevistas, apresentar sessões, moderar debates, participar em palestras, acompanhar os convidados, o trabalho dos júris. É um trabalho que nós gostamos muito de fazer, mas que pode ser muito cansativo. Como o ano passado ainda havia muitas restrições sobretudo ao nível das viagens significou que tivemos muito menos convidados do que era habitual e que esses convidados acabaram por vir de carro e de países próximos como Espanha e França. E houve esse tempo para falar, para partilhar experiências paralelas, para lembrar porque é que trabalhamos no festival e por isso foi uma edição que deixou muita saudade. E que agora vai ser uma espécie de segundo take que estou com muita vontade de fazer. Agora, sabemos que a programação dos festivais está calendarizada de uma determinada forma, e a posição do Indie tem sido no final de abril, início de maio, entre o festival de Berlim e o festival de Cannes. E por isso, no próximo ano e se tudo correr bem e já não tivermos estes constrangimentos, regressa ao final de abril, início de maio.

Indielisboa_Ney a Flor da Pele
Ney a Flor da Pele


A presença de convidados estrangeiros (realizadores, produtores e outros agentes da indústria) é habitual durante o festival. Como vai ser, este ano, com todas as restrições provocadas pela pandemia? Já podem adiantar algumas presenças nas salas onde decorre o festival?
M.V.: O ano passado foi muito pior: as regras e restrições que estavam pendentes por causa dos aeroportos, dos vistos (havia muitos países que estavam em confinamento absoluto) e por isso acabámos por receber muitos convidados de Espanha e França. Este ano as coisas parecem muito diferentes, ou seja, apenas alguns países como a Geórgia e o Brasil têm uma situação mais complicada (gostávamos muito de receber cineastas destes países até porque têm dois belíssimos filmes, em competição, no festival, mas provavelmente não vão conseguir vir). No entanto, temos cineastas da Argentina, dos EUA, de África, da Ásia, da Austrália, da Alemanha e de variadíssimos países. Ou seja, a edição deste ano não vai ter tantos convidados como costumávamos ter, habitualmente, mas vai-se aproximar mais das edições anteriores à pandemia.

IndieLisboa_Diálogo de Sombras
Diálogo de Sombras


As sessões de abertura e de encerramento do festival. A abrir o documentário “Summer of Soul” sobre o “chamado” Woodstock afro-americano e a fechar o regresso dum nome consagrado no IndieLisboa, Sérgio Tréfaut, com “Paraíso”. Pode adiantar-nos um pouco sobre estes dois momentos chave da edição 2021?
M.V.: Para qualquer festival de cinema o momento de abertura e o momento de fecho são muito importantes e são muito pensados. Este ano foi difícil encontrar o filme com o qual queríamos começar. O ano passado, depois dum ano tão difícil, a escolha recaiu numa comédia. E este ano decidimos, mais uma vez, fazer algo diferente: havia um filme que andava nas bocas do mundo desde que foi descoberto, «Summer of Soul», este Woodstock afro-americano, e é um filme que atraiu imensa atenção, ainda por cima no ano em que tínhamos a retrospetiva da Sarah Maldoror e em que o festival toca muito este lado africano que o festival tem este ano. Acabava por ser um filme perfeito. Parecia-nos a súmula perfeita para começar o festival, um filme cheio de música, cheio de alegria.

Por outro lado, durante este período, o Sérgio Tréfaut tinha a ideia de fazer um filme em que queria filmar pessoas mais velhas a cantar, no palácio do governador, no Rio de Janeiro. Ele filmou, mas durante o processo de montagem o covid eclodiu, a política brasileira contra o covid foi nula o que significou que algumas destas pessoas retratadas no filme acabaram por falecer e o Sérgio teve que mudar o filme em homenagem a estas vítimas do covid e decidiu fazer um filme politicamente comprometido, que pretende mostrar o que está a passar neste momento no Brasil. Por isso, pareceu-nos uma boa forma de acabar o festival.

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