10 CLOVERFIELD LANE

10 CLOVERFIELD LANE

Passou-se quase uma década desde que o monstro de «Nome de Código: Cloverfield» assombrou o planisfério cinéfilo, com uma faturação global de 170 milhões de dólares alimentado pela originalidade da sua narrativa semidocumental, com pele de reality show. O seu êxito ajudou a projetar J. J. Abrams também como produtor, consagrando seu faro para a oportunidade em um momento histórico no qual a estética do real parecia inovadora como um acréscimo para a ficção. Uma leva de longas de terror veio nessa toada, em especial «[rec]» (2007), um filme com rótulo espanhol. Mas o dispositivo que Abrams confiou à direção de Matt Reeves deu sinal de desgaste pela banalização. Atento à mudança, o realizador de «Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força» (2015) percebeu que deveria arriscar uma outra penugem se quisesse liberar o pássaro dos lucros da gaiola na qual enjaulou aquele experimento. Em vez de fazer um Big Brother das trevas, seria mais impactante realizar um ensaio sobre paranoia. Eis: «10 Cloverfield Lane».

Sob a direção de Dan Trachtenberg, realizador da curta-metragem «Portal: No Espace», de 2011, a longa-metragem é uma aula de claustrofobia física e moral, expressa a partir do confinamento de personagens acossados pelos males da alma humana. Foi incumbida a Mary Elizabeth Winstead (da série «The Returned») a tarefa de dar vida (e algo de novo) ao arquétipo da heroína passiva típica do género de terror. Ela é Michelle, jovem abalada pelo fim de um namoro que, após um acidente de carro, encontra-se presa num bunker com dois sujeitos que oscilam entre a doçura extrema e a loucura mais letal: Emmett (John Gallagher Jr.) e Howard, interpretado por um John Goodman no ápice da potência dramática.

Diz a dupla que Michelle não pode sair pois, lá fora, uma hecatombe química pode levar a Humanidade à ruína. A tragédia está ligada à existência do monstro de «Nome de Código: Cloverfield». Mas pouco importa se é verdade ou não, para ela e para nós. O interesse maior é o clima de desconfiança e traição que corre no ecrã num fluxo crescente de temperatura e pressão. É uma lição de suspense, amparada pelo talento de um elenco em plena afinação. A câmara, hitchcockiana, sugere, mas não escancara. Tudo se dá na base da sugestão, da discrição, numa potência visual expressa a partir de uma luz estremecida. Abrams acertou de novo.

Título original: 10 Cloverfield Lane Realização: Dan Trachtenberg Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr.. 103 min. EUA, 2016

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº37 Abril 2016)

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