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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

Mr. Mercedes: a triste alegoria do nosso tempo

A série inspirada pelo primeiro livro da trilogia de Bill Hodges – aqui interpretado por Brendan Gleeson –, de Stephen King, é a grande estrela do novo serviço AXN Now, apenas disponível, atualmente, para clientes MEO (serviço gratuito até 1 de janeiro).

O arranque de «Mr. Mercedes» é um sinal claro dos nossos tempos: a trágica sina de um grupo de cidadãos comuns é marcada sem o mínimo glamour ou euforia. A ação tem início, nada mais nada menos, do que numa “Feira do Emprego”, que conta já com uma fila notável em plena madrugada. Quem diria que Stephen King iria começar uma das suas histórias com algo nas linhas de “certa madrugada, um desconhecido num Mercedes acelerou contra a multidão, que guardava lugar para a Feira do Emprego do dia seguinte, e matou indiscriminadamente”. Embora a trama seja situada em 2009, e se trate de um livro publicado originalmente em 2014, a sua envolvência é atual e uma amostra evidente de que estamos longe de deixar os tempos difíceis.

Stephen King já antecipara a incursão no universo cru e cruel dos detetives, algo que aconteceu com a trilogia protagonizada por Bill Hodges, uma ‘raposa velha’ da polícia que é desafiada por um assassino sádico, desconhecido e, pior do que tudo, imprevisível. A adaptação para TV tem a assinatura de David E. Kelley, o criador de séries como «Big Little Lies», «Goliath» e «The Crazy Ones». Já Jack Bender, velho conhecido de «A Vingadora» e «Perdidos», volta a tornar real o imaginário de King – como acontecera em «Under the Dome» –, sendo produtor e também o principal realizador.

Fã confesso de «Perdidos» [«Lost» no seu título original], Stephen King acabou por conhecer Bender e, vários anos depois, os dois mantinham uma relação mais próxima. “Aquilo que realmente me atraiu para o projeto não foi apenas o Stephen King estar a escrever sobre detetives, algo que nunca tinha feito, mas o facto de ser uma história sobre o monstro dentro de nós em oposição ao monstro fora de nós, o que é frequente naquilo que ele escreve”, frisa Bender, em materiais cedidos à METROPOLIS. Em jeito de brincadeira, o produtor-realizador disse ao autor que seria Brendan Gleeson a dar vida a Hodges – e a verdade é que foi mesmo.

Pode ler o artigo completo na Metropolis número 65

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God Friended Me

A ‘receita’ parece estranha, mas pode revelar-se surpreendente. Esta série reúne o protagonista de «The Mayor», cancelada ao fim de uma temporada, uma atriz que tem feito passagens consistentes por séries como «The Resident» e «The Flash» e nada mais, nada menos do que o Pi de «A Vida de Pi» (2012). Com a proposta de uma viagem espiritual adaptada aos dias de hoje, a aposta do CBS baseia-se, tal como o nome indica, na história de alguém que recebe um convite de amizade de Deus no Facebook.

De: Steven Lilien, Bryan Wynbrandt
Com: Brandon Micheal Hall, Violett Beane, Suraj Sharma

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Jerry O´Connell - «Carter»

Disse “Conta Comigo” em 1986 e nunca mais largou a representação. Evoluiu e conquistou o seu espaço na TV com «Sliders - Heróis por Acaso» e «A Patologista», e regressou em força este ano com o papel principal de «Carter», que estreou em setembro no AXN, e uma passagem por «A Teoria do Big Bang». Em conversa exclusiva com a METROPOLIS, falou da série canadiana, da sua carreira... e até de uma ex-namorada portuguesa! 

O que o atrai nas comédias, e especialmente em «Carter»?
Bem, eu fiz uma série policial durante seis anos, «A Patologista», e quando li o argumento de «Carter»... A série brinca com todos os policiais, mesmo sendo uma série do mesmo género. Então, eu interpreto um tipo que é um ator numa série policial e, tendo que conta isso, ele acha que pode resolver crimes reais, e isso faz-me rir bastante. É como se tivéssemos pegado na fórmula de «Castle», na fórmula de «Psych - Agentes Especiais», na fórmula d’«O Mentalista» e a tornássemos ainda mais ‘louca’. Porque é um detetive da televisão, pelo que se aproxima de todas as séries que costumamos ver – e há ali uma fórmula, ele usa essa fórmula para o ajudar a resolver crimes, é hilariante! Se fores fã de mistério, é uma série muito divertida.

A tua personagem assenta, por assim dizer, num estereótipo. Onde foste buscar inspiração para interpretar o Carter?
Para dizer a verdade, não tive de fazer qualquer pesquisa, sabes, porque estamos a falar de um homem que é um ator numa série policial da TV... Só tive de olhar para o espelho. É muito divertido também porque o Carter é bem mais vaidoso do que eu, preocupa-se muito com o seu cabelo, com o seu aspecto, como está fisicamente, e é engraçado. Na vida real não sou assim tão vaidoso, mas percebo-o. Às vezes olho para fotografias minhas e pareço super velho, e gostaria que alguém tivesse usado um ‘filtro’ naquela foto. Então, percebo a sua vaidade e torna-se muito divertido interpretá-lo.

Trabalhar em «Carter» é tão divertido quanto parece?
Sim, passamos realmente um bom bocado, é muito divertido. Acho que essa é a chave para um bom programa de TV, acredito que temos de nos divertir uns com os outros e que as pessoas conseguem ver isso. Sou um grande fã de «Seinfeld» e apercebes-te de que o Jerry Seinfeld está quase a partir-se a rir em todas as cenas. E penso que era por isso que as pessoas estavam sempre em êxtase no seu lugar a assistir. Temos um pouco a mesma ‘vibe’ na nossa série.

Quais são as tuas expetativas relativamente a uma segunda temporada?
Acho que vai acontecer, acredito nisso e espero que se confirme.

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Qual acreditas que vai ser o rumo da série, em termos de história?
Não sei. Acredito que vai haver mais temas relacionados com o facto de ser um ator, acho que temos realmente de envolver-nos nisso. Dos zunzuns que tenho ouvido de uma eventual segunda temporada, vai ter mais a ver comigo a interpretar outras personagens e a tentar usar o meu talento para a representação para resolver crimes. Acho que vamos seguir por aí. Tivemos uma storyline maior para abordar, o facto de que a minha mãe desapareceu quando éramos crianças... Agora que tirámos o drama do caminho, é tempo de nos divertirmos um pouco.

«Carter» não é simplesmente uma comédia. Trata-se de um programa inteligente e híbrido, com personagens muito complexas. Concordas?
Sim... Não será tão louco como «A Guerra dos Tronos», não vamos ter um “Red Wedding” [episódio emblemático da série, com várias fatalidades]. Mas os nossos argumentistas são muito criativos, porque somos uma série policial, uma série de mistério: há um homicídio, vemos um corpo, conhecemos os suspeitos e descobrimos quem foi o responsável. É essa a nossa fórmula, mas durante todo o episódio estamos a ‘gozar’ com todas as séries policiais que já vimos. É realmente divertido para nós.

Alguma vez sentiste a necessidade, assim como o «Carter», de regressares às tuas origens? Começaste a tua carreira muito cedo...
Sim, de certa forma. Em todo o caso, estive no «Conta Comigo» (1986) quando era um miúdo, mas a minha principal experiência é em séries televisivas de uma hora por episódio. Fiz «Sliders - Heróis por Acaso» durante muitos anos, fiz «A Patologista» durante vários anos, e sinto-me mais confortável assim. É a minha zona de conforto, sem dúvida.

«Sliders - Heróis por Acaso», aproveitando o facto de teres mencionado a série, era sobre universos paralelos. Seguindo esta ideia, que escolha profissional fizeste e que foi tão importante que mudou a tua carreira para sempre?
Bem, acho que entrar naquele filme «Conta Comigo» (1986), quando era muito novo, foi algo muito importante. Ninguém estava à espera disso. Devo confessar-te que o meu pai me disse, quando fiz o filme, que nunca ia ser lançado. Então ainda estou bastante chocado por ter entrado no filme. Ontem estava a trabalhar em algo e o realizador só queria falar do «Conta Comigo» (1986), é maravilhoso quando fazes parte de um clássico, ainda não consigo acreditar nisso, não consigo acreditar que as pessoas ainda falam do filme hoje. Então diria que foi realmente o «Conta Comigo» (1986) que mudou tudo definitivamente.

Tinhas 12 anos nessa altura. Como é que te conseguiste manter tão ativo como ator durante tantos anos?
Não sei, não sei realmente. Fui para a universidade, frequentei a Universidade de Nova Iorque, frequentei o secundário depois do «Conta Comigo» (1986)... Acho que a educação, especialmente para os meus pais, foi sempre o principal objetivo e depois a representação surgia em segundo. É importante ter um bom suporte à nossa volta.

Falemos de «A Teoria do Big Bang», onde interpretaste o irmão do Sheldon (Jim Parsons). És o primeiro ator a interpretar uma personagem só depois de ela aparecer em «Young Sheldon». O trabalho do Montana Jordan influenciou-te de alguma maneira?
Sim, claro que sim. Eu copiei-o, assisti a todos os episódios de «Young Sheldon». Sabes, o que é engraçado é que as minhas filhas não conhecem «A Teoria do Big Bang», apenas o «Young Sheldon», pelo que eu estava a acompanhar o trabalho do Montana e ele é espectacular, todo o elenco da série é muito bom. Estava familiarizado com o trabalho dele e copiei os seus maneirismos e tudo. Era esse o meu trabalho, estava lá para fazer a rendição de um Montana Jordan mais velho, nem sequer um Georgie, aquela personagem em específico mais velha, e diverti-me muito a fazer isso. Ele é um miúdo espectacular, a família dele também, é um ator brilhante.

Muitas séries canceladas estão a regressar, como «Will & Grace» e «Murphy Brown». Trabalhaste em muitas séries ao longo dos anos: qual gostavas de ver recuperada para uma nova temporada?
Acho que «Sliders - Heróis por Acaso».

Porquê?
Não sei, diverti-me mesmo muito a fazê-la. E se estão a fazer um remake do «Alf», certamente podem fazer um remake de «Sliders - Heróis por Acaso».

Trabalhaste com o teu irmão Charlie nessa série...
Sim, sim!

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Gostavas de voltar a trabalhar com ele no futuro?
Sim, claro! Sabes, ele meio que se reformou da representação, é um pescador e trabalha em Long Island, pelo que está bastante ocupado. Talvez ele pendure os ganchos de pesca e venha representar comigo (risos)!

Também tens feito muita coisa como apresentador, como é o caso de «Play by Play». Sentes-te mais confortável nesse papel ou a interpretar outras personagens?
Hum... A apresentação foi algo em que envolvi aqui nos Estados Unidos no último par de anos. Apresentei um programa da manhã, que é muito popular aqui... Não sei, e é de loucos porque eu não sou nada uma ‘morning person’, mas estive a trabalhar da parte da manhã, foi muito divertido e fui competente. A verdade é que acho que, atualmente, gosto mais de representar. Quero mesmo muito voltar a filmar «Carter» e garantir que todos em Portugal podem assistir, e em todo o mundo, é essa a minha verdadeira paixão.

Vi que voltaste a fazer produção. É algo que gostasses de fazer mais?
O que acontece é que vais fincando mais velha, como eu, e eles dão-te mais responsabilidade. Fico tão chocado quanto tu quando vejo que sou produtor ou algo assim. Ainda me sinto como uma criança ali, mas acho que quando ficas velho e todos são mais novos do que tu, eles fazem de ti chefe, simplesmente acontece.

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Voltando a «Carter». Imaginas-te a realizar ou escrever um episódio da série?
Sabes, aquilo que é divertido é que nos lembramos de cenários em que poderíamos acabar envolvidos. A questão aqui é que estou em praticamente todas as cenas, pelo que é difícil fazer algo mais. Fico cansado, sou um pouco preguiçoso, e acabo de rastos ao fim do dia, não quero andar a realizar e ter de me engendrar o que vamos filmar no dia a seguir, então não quero realizar nada (risos). É simplesmente mais divertido ser ator. Sou demasiado preguiçoso para realizar, dá muito trabalho. Prefiro representar: tenho de parecer bonito, aparecer, é mais divertido, a única coisa que tenho de fazer é ir de vez em quando ao ginásio. É praticamente isso para um ator, quando és realizador não tens de ir (risos).

Quais foram os principais desafios na primeira temporada?
Não houve desafios complicados, foi mesmo super divertido, passámos um bom bocado. Não tenho razões de queixa, muito sinceramente, gostei mesmo. O maior desafio, com toda a sinceridade, é não rir nalgumas cenas. Tivemos uma cena em que estávamos a interrogar uma rapariga e ela está a usar aquela linguagem de adolescente, e eu estou a tentar traduzir e decifrar o que ela diz e não consigo. Fez-me rir muito. Acho que isso aconteceu sobretudo porque tenho duas filhas que usam ‘emojis’ a toda a hora e eu não faço ideia do que significam (risos).

As produções canadianas estão a tornar-se cada vez mais importantes. Isso também influenciou a tua decisão de participar em «Carter»?
Sim, e o Canadá é lindo. É maravilhoso filmar no Canadá, as pessoas são lindas, os cenários magníficos, tem uma espécie de look country e independentemente de onde estamos há sempre uma data de árvores à volta. Sou de Nova Iorque, nunca vi tanto verde, nunca. É um pano de fundo lindo, quase como outra personagem da nossa série.

É tudo, obrigada...
(Energicamente) Espera, ouve, tenho de deixar um ‘shout out’ à minha ex-namorada que vive em Lisboa, Ana Cristina Campos Seara de Oliveira [diz calmamente em português], ela é uma atriz em altas em Portugal. Diz-lhe que eu digo olá e parabéns pela carreira dela. Está numa data de programas portugueses, estou muito orgulhoso!

[Entrevista publicada na Revista Metropolis nº 63 - Outubro 2018]

SEAL Team: a destruição faz a força? (review da 2T)

Série protagonizada por David Boreanaz regressou à antena do TVSéries no passado dia 12. A equipa Bravo volta ao ativo, mas sem Neil Brown Jr.

São 21 anos com lugar cativo no pequeno ecrã: depois de «Buffy, Caçadora de Vampiros», «Angel» e 12 temporadas de «Ossos», David Boreanaz voltou a provar que tem o condão do sucesso com «SEAL Team». De regresso ao TVSéries para uma segunda temporada, com a primeira a ser exibida atualmente na FOX, a série criada por Benjamin Cavell mostrou, uma vez mais, que tem qualidade para ficar. Numa altura em que há dramas militares ao pontapé, «SEAL Team» desafia o estereótipo do ‘mais do mesmo’ e vence por mérito próprio.

Com uma narrativa inteligente, que não tem medo de ir à origem do conflito – com acesso constante aos bastidores e ‘montagem’ da missão –, «SEAL Team» constrói os episódios com cuidado e complexidade e, ao mesmo tempo, reforça a profundidade das personagens. Jason Hayes (Boreanaz) e Ray Perry (Neil Brown Jr.) são o melhor exemplo desse objetivo, pelo que são o principal foco de atenção no regresso da série. No último episódio da temporada 1, o primeiro teve um ataque de pânico num café e o segundo foi afastado por Jason, o líder da Bravo, da equipa.

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Como seria de esperar, Jason é incapaz de admitir as suas fraquezas e a instabilidade psicológica resultante da concussão, e não tarda a partir para o ativo. Algo hipócrita, como é sublinhado por Ray, já que este foi castigado por ter ocultado e ignorado a sua condição médica – o que teve consequências catastróficas. A tensão entre os dois veio para ficar, até porque Jason não tarda a oferecer o lugar de Ray, que, descontente, é aconselhado pela mulher a deixar de ser instrutor e a juntar-se a outra equipa.

Como nos habituou, «SEAL Team» não esquece a vida pessoal dos seus intervenientes, por mais ‘curta’ que esta seja. Jason encontra-se a viver com a ex-mulher Alana (Michaela McManus), embora não tenham voltado a ser um casal, e tenta manter-se mais presente como pai, enquanto adia a mudança para uma casa dele. No entanto, e como seria de esperar, a situação tarda a ter resultados mais concretos, porque a dedicação de Jason ao trabalho é constante. Foi esse, aliás, o motivo que levou a mulher a pôr um final à relação.

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Em termos de argumento, e até encontrar nova storyline para a segunda temporada, a equipa resolve um problema grave relacionado com petróleo no Golfo da Guiné. Ali destaca-se Clay (Max Thieriot), que procura reforçar o seu papel enquanto número 2 de Jason na ausência de Ray, ao mesmo tempo que o ator continua a tentar afirmar-se com uma personagem mais adulta. Se continuar a ‘cuidar’ do elenco secundário, «SEAL Team» terá certamente qualidade, e material, para ser mais uma série longa, ao estilo do que tem sido a carreira de Boreanaz.

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Eu sobrevivi à sexta temporada de «Orange is the New Black»!

Depois do motim das presidiárias, a narrativa ficou em aberto e as possibilidades eram imensas. «Orange is the New Black» segue um caminho ousado, e com escolhas que dificilmente vão agradar a todos, mas sai a ganhar após 13 episódios. A METROPOLIS teve acesso antecipado à nova temporada, que estreia sexta-feira, 27, na Netflix.

Pela primeira vez desde a estreia, em 2013, «Orange is the New Black» não somou qualquer indicação aos Emmys de setembro. A ‘culpada’ foi a sua quinta temporada, lançada no verão de 2017 e só agora elegível para nomeação, que marcou uma rutura clara e incontornável com as anteriores storylines da criadora Jenji Kohan e companhia. Depois de conflitos entre presidiárias – ou destas com pessoas pré-Litchfield –, foi a vez de as mulheres se revoltarem contra os guardas e a corporação responsável pela gestão da Prisão de Litchfield (a MCC), devido às más condições, violência e discriminação. Qualquer semelhança com a realidade das prisões norte-americanas não será pura coincidência.

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É certo que, mais do que qualquer uma das anteriores, a última temporada dividiu opiniões. A mudança de paradigma foi muito acentuada e ousada, levando a um corte quase total com aquela que tinha sido a ‘linguagem’ usada até então, e os resultados foram catastróficos – que o diga Desi Piscatella (Brad William Henke). No entanto, o regresso está longe, também, de querer agradar às massas, pelo que não tem problemas em afastar personagens ou prejudicar as individualidades em prol da história maior que quer contar. Ainda que algumas pessoas possam entender isto como uma falta de foco, ou um ‘castigo’ sem critério definido, «Orange is the New Black» tem uma narrativa intencional e cuidada, o que se torna cada vez mais claro ao longo dos 13 episódios, disponíveis na Netflix a partir de sexta, feira, 27.

Sempre foi notório que, à exceção de Piper Chapman (Taylor Schilling), inspirada na ex-presidiária e humanitária Piper Kerman, ninguém está a salvo. Veja-se a morte de Poussey (Samira Wiley, agora em «The Handmaid’s Tale») ou o afastamento, nos próximos episódios, de personagens tidas como determinantes e até fan favourites, como ‘Big’ Boo (Lea DeLaria) e Maritza (Diane Guerrero). Outrora nos ‘bastidores’ da ação, a Max de Litchfield reclama agora todas as atenções para si, pelo que o núcleo duro da menina dos olhos da Netflix vão ser as presidiárias deslocadas para lá e aquelas que já estão na prisão de segurança máxima, nomeadamente as ‘líderes’ da Prisão de Máxima Segurança, as irmãs Carol (Henny Russell) e Barbara (Mackenzie Phillips), e as suas pupilas Badison (Amanda Fuller) e Daddy (Vicci Martinez). Quem foi transferida para outra prisão acaba por perder importância e, consequentemente, passa ao lado da sexta temporada.

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“Ai, as saudades que eu tinha da Piper!”. Embora a nova temporada da bem-sucedida aposta da Netflix seja propícia a frases emotivas, dificilmente encontraremos este desabafo de felicidade entre elas. Piper seria facilmente colocada numa lista de ‘protagonistas não adorados’ ou ‘personagens que provocam mais revirar de olhos por episódio’, e regressa igual a si mesma. A evolução da personagem principal ao longo dos anos tem sido notória, mas isso não tem tido correspondência em menos egoísmo e egocentrismo, ainda que ela tente contribuir para uma realidade mais positiva na prisão. Ao jeito do que acontece com Piper Kerman, que sempre manifestou a sua vontade de colocar a audiência a falar não apenas sobre a ficção, mas também sobre o drama real que se desenrola fora da televisão e do computador, nos centros de detenção norte-americanos.

Sem revelarmos demasiado sobre o que aí vem, fica desde já o aviso que as surpresas continuam a acontecer a um bom ritmo, mesmo com velhos conhecidos. Estamos perante, aliás, alguns dos twists mais chocantes de «Orange is the New Black». Por seu lado, há três personagens que se vão revelar determinantes e nas quais assentam as principais storylines: Piper, Frieda (Dale Soules), que tem um desentendimento antigo na Max, e Joe Caputo (Nick Sandow). Apesar de a narrativa não se concentrar demasiado em nenhum deles, seguindo mais uma vez o foco global da vida na prisão (ou sobrevivência), é indispensável o foco particular para fazer avançar «Orange is the New Black». E, sobretudo, aquilo que as consequências das diferentes histórias poderão significar na sétima, e última (?), temporada.

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A avaliação global dos novos episódios é bastante positiva, embora as fragilidades da série sejam inegáveis, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento de pequenos ‘dramas’, que nem sempre têm resposta à altura na ação. Não obstante, ‘perdoa-se’ esta falha pelas limitações óbvias de tempo e, ao mesmo tempo, porque são enfraquecidas em prol de uma maior força da história inspirada por Piper Kerman como um todo. Os produtores executivos olham Donald Trump e as suas políticas bem de frente, sem precisarem sequer de o mencionar ou de situar rigorosamente os acontecimentos, na linha do que têm feito apostas como «The Handmaid’s Tale», «The Good Fight» ou «Arrested Development».

«Orange is the New Black» está a marcar a atualidade seriólica e irá, com toda a certeza, ficar na história das produções da Netflix – não apenas pelo seu sucesso, mas também pela sua relevância para a discussão social. Numa altura em que ainda se critica a desvalorização das personagens femininas em séries e filmes, a série da Netflix rompe com a ‘norma’ e coloca as mulheres no topo desta cadeia alimentar, dando-lhes relevância, profundidade e problemas complexos (além da multiplicidade de etnias presentes). Isso não quer dizer que ignore as suas personagens masculinas, pelo contrário, sendo uma lição valiosa de como é possível ter conteúdos mais equilibrados em termos de género, sem prejudicar outros grupos.

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A culpa é de «Will & Grace»

Fevereiro começa da melhor maneira, com a estreia da 9ª temporada de «Will & Grace» no TVSéries. A série, no ar entre 1998 e 2006, regressou 11 anos depois e já tem a 10ª temporada garantida.

Porque é que a culpa é de «Will & Grace»? Embora não se possa apontar responsabilidades apenas à nova estrela da grelha do TVSéries, a verdade é que o êxito deste regresso parece ter alimentado a vontade de replicar a fórmula noutras séries. Numa altura cada vez mais populada de remakes, prequelas, sequelas, spin-offs e reciclagem de ideias, o sucesso de «Will & Grace», que nos Estados Unidos estreou em setembro, veio provar que essas apostas, afinal, continuam a ter público. Podem seguir-se os reboots de «Charmed», «Roswell» e «Miami Vice», a adaptação para TV de «Atração Mortal» (1988) e o regresso de Candice Bergen como «Murphy Brown».

Com duas nomeações aos Globos de Ouro de há algumas semanas, nas categorias de melhor ator de comédia (Eric McComarck) e melhor série cómica, «Will & Grace» vingou num ano repleto de séries novas e refrescantes, premiando o voto de confiança dado pela NBC, que aproveitou o insucesso recente dos protagonistas. Entre cancelamentos, apostas falhadas e alguma desorientação nas carreiras, a recuperação de «Will & Grace» possibilitou uma viagem ao passado – pelo presente – que já poucos achariam possível. Ainda assim, as nomeações não resultaram em prémios, pelo que a série continua sem vitórias apesar das 29 indicações totais.

Quanto à nova temporada de «Will & Grace», com estreia em Portugal a 1 de fevereiro, há muitas surpresas e ecos de um passado que conhecemos muito bem. Por um lado, e apesar da longa convivência com Will (Eric McCormack), Grace (Debra Messing), Jack (Sean Hayes) e Karen (Megan Mullally), ainda há espaço para o choque e, sobretudo, para provocar o desconforto do espectador. Seja pela crítica direta a Donald Trump no episódio piloto, sem qualquer pudor ou ‘paninhos quentes’, ou seja pelo desafio dos estereótipos e dos preconceitos sociais.

«Will & Grace» tem mais para oferecer do que imaginávamos. Ao contrário do que os ditos populares tantas vezes defendem – com a ideia de que só valorizamos algo quando o perdemos –, a verdade é que só quando voltámos a ter a série da NBC nos lembrámos de quanto gostávamos dela. Ou como faz falta um comentário brincalhão mas despretensioso, sem suavizar a crítica em função da audiência e sem castigar as personagens para obter resultados mais imediatos. A série dá tempo a si própria, e como tal também ao público, para se adaptar à nova realidade, com tudo o que isso implica. Resta saber se é capaz de repetir a proeza novamente, com o regresso já anunciado para a 10ª temporada.

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S.W.A.T.

Replicar o sucesso do filme de 2003 será, para já, utópico. «S.W.A.T.», a série, tem uma narrativa mais fluída e menos interessante, encabeçada pelo ator Shemar Moore que, há pouco mais de um ano, saiu de «Mentes Criminosas», onde estava desde 2005, por iniciativa própria. Embora «S.W.A.T.» estreie apenas a 27 de novembro no AXN, a METROPOLIS já viu o primeiro episódio e diz-lhe o que pode esperar.

Mãos ao ar! Há mais uma série criminal pronta a invadir o horário nobre da televisão portuguesa e a deter-nos em frente ao ecrã. «S.W.A.T.», que estreia nos Estados Unidos no dia 2 de novembro, chega à antena do AXN Portugal algumas semanas depois, a 27. A nova série da CBS é uma reinvenção do filme «S.W.A.T. - Força de Intervenção», de 2003, que, por sua vez, foi inspirado pela série «S.W.A.T.», exibida entre 1975 e 1976, que era um spin-off de «The Rookies», estreada em 1972. Se achamos que «S.W.A.T.» não nos vai trazer nada de novo, depois de vermos o primeiro episódio temos a certeza disso.

Mas os bastidores desta série escrevem-se à custa de algum drama e, até, com uma dose de mistério que se arrisca a ser mais aliciante do que a da própria série. Shemar Moore foi escolhido em 2005 para interpretar o agente Derek Morgan de «Mentes Criminosas», mas, após 10 temporadas, informou os responsáveis de que queria sair e abraçar novos projetos no cinema. No entanto, tirando a polémica da praxe nas redes sociais, a espaços, não ouvimos falar do ator nos meses que se seguiram à sua saída – parcialmente abafada pela polémica que envolveu o despedimento de Thomas Gibson (o Hotch da série), que terá pontapeado um dos produtores executivos. Contrariando as perspetivas mais otimistas, foi anunciado que Shemar iria regressar no mesmo canal, a CBS, e novamente como figura da autoridade – apenas trocava a farda do FBI pela da SWAT. Não houve nenhuma oferta atrativa no cinema? A oportunidade foi ao encontro do que procurava? Ou foi tudo uma questão de ego?

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Shemar deixou de dividir o protagonismo com seis ou sete atores e é, assumidamente, o rosto principal de «S.W.A.T.». Ironicamente, a sua personagem, Daniel 'Hondo' Harrelson, consegue em minutos aquilo que Morgan não alcançou em 11 temporadas: uma promoção e, por conseguinte, a liderança (definitva). Após o seu mentor Buck (Louis Ferreira) ser despedido na sequência de um escândalo racial, o chefe ignora a hierarquia e aponta Hondo ao papel principal, deixando Deacon (Jay Harrington) visivelmente descontente.

Com os dramas românticos do costume como pano de fundo, a narrativa vai preparando o conflito para os próximos episódios: Hondo tem de decidir o que é mais importante para ele, a sua profissão ou o bairro onde nasceu. Numa espécie de alegoria dos problemas raciais que marcam frequentemente a atualidade noticiosa, «S.W.A.T.» centra a sua premissa em Hondo pela sua cor de pele ao invés das suas capacidades, numa consequência que é uma crítica à sociedade em que vivemos. A igualdade de oportunidades não passa de um teatro – e cabe a Hondo escolher ser o herói ou o vilão.

Pode assumir-se que «S.W.A.T.» é uma caricatura do seu passado – da série e de Shemar –, ao jeito do que já foi feito com séries como «Hora de Ponta» ou «Arma Mortífera». Ainda assim, falta perceber se será mais semelhante à primeira – que foi rapidamente cancelada – ou se conseguirá imitar o sucesso da segunda. Shemar Moore não quererá, certamente, partilhar o azar de Katherine Heigl, que pouca sorte tem tido, sobretudo no pequeno ecrã, desde que saiu de «Anatomia de Grey». Vale-lhe ter saído a ‘bem’, o que até tem permitido alguns regressos muito breves a «Mentes Criminosas», e vai dando para publicitar a série.

[artigo publicado na Revista Metropolis nº54

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"O Exorcista" — do cinema para a televisão

Para o melhor e para o pior, cinema e televisão têm-se dedicado nas últimas décadas a copiar os seus próprios sucessos. Sequelas, remakes, continuações mais ou menos (in)fiéis aos originais passaram a fazer parte da rotina audiovisual. Ainda assim, uma versão televisiva do filme O Exorcista (1973), de William Friedkin, não estaria nas previsões de muita gente. Mas ela aí está: O Exorcista, série criada pelo argumentista Jeremy Slater, estreou-se nos EUA em Setembro de 2016, chegando agora ao público português — no canal Fox [desde segunda-feira, dia 19, 22h15].

A nova série, curiosamente, não se apresenta como uma recriação do filme de Friedkin, mas sim do romance de William Peter Blatty (1928-2017) que esteve na sua origem — a versão cinematográfica era, aliás, escrita pelo próprio Blatty, tendo-lhe valido um Oscar de melhor argumento adaptado. Em qualquer caso, encontramos também uma dupla de sacerdotes que, de uma maneira ou de outra, vão ser compelidos a enfrentar as manifestações do Mal, lidando com personagens jovens “mobilizadas” para os mais diabólicos desígnios. Um dos sacerdotes, o padre Marcus Keane (Ben Daniels) é um veterano dos exorcismos, tendo tentado resgatar um rapaz de uma família de um bairro pobre no México; o outro, Tomas Ortega (Alfonso Herrera), de ascendência mexicana, mais novo e menos experiente, começa a ter sonhos em que vislumbra as práticas exorcistas do próprio Marcus.
Tomas decide procurar Marcus e dar-lhe conta das suas inquietações. A acção dos dois sacerdotes irá cruzar-se através de uma família de Chicago, precisamente da paróquia de Tomas. No primeiro episódio, a mãe dessa família — interpretada pelo nome mais sonante do elenco: Geena Davis (Oscar de melhor actriz secundária em O Turista Acidental, 1988) — vai revelar-se como peça fundamental desta intriga de medos e fantasmas. Vivendo com o marido (Alan Ruck) e duas filhas (Brianne Howey e Hannah Kasulka), ela dá conta a Tomas dos barulhos que ouve através das paredes, garantindo-lhe que há “alguma coisa” no interior da sua casa. Mais do que isso: preocupada com o facto de a filha mais velha (Howey) passar a maior parte do tempo fechada no seu quarto, receia que ela possa estar a ser instrumentalizada por forças desconhecidas...

Demónios e metáforas

Para além das cenas de suspense e dos ziguezagues mais ou menos insólitos da história (e logo no primeiro, há um bem inesperado...), pode dizer-se que a série propõe o mesmo tipo de aproximação “sociológica” que já estava presente no filme. À distância de mais de 40 anos, reencontramos o confronto entre uma visão racional do quotidiano e os sinais que, através de uma crescente perturbação, vão sugerindo que há forças malignas que os seres humanos não controlam — quando Tomas tenta acalmar a mãe, lembrando-lhe que os “demónios são metáforas”, ela insiste que aquilo que está a acontecer em sua casa não tem nada de metafórico.

Estreado nos EUA na quadra natalícia de 1973 (chegaria a Portugal cerca de um ano mais tarde), o filme de Friedkin reflectia, indirectamente, as convulsões de uma sociedade assombrada pelos traumas da guerra do Vietname (que terminaria em meados de 1975). Cerca de um ano antes, surgira Os Visitantes, realizado pelo veterano Elia Kazan, precisamente um dos primeiros filmes a reflectir esses traumas.

O impacto de O Exorcista, de Friedkin, foi de tal ordem que, ainda hoje, na tabela ajustada à inflação dos filmes mais rentáveis de sempre no mercado americano surge em nono lugar. Para se ter uma ideia da dimensão de tal sucesso, lembremos que o recordista de bilheteira do ano passado, Rogue One: Uma História de Star Wars, ocupa o 57º lugar da mesma tabela.

O filme gerou uma franchise, prolongada por O Exorcista II: o Herege (1977), de John Boorman, e O Exorcista III (1990), com William Peter Blatty a assumir a realização para adaptar o seu livro Legião (sequela do primeiro). Os títulos seguintes — Exorcista: o Princípio (2004) e Dominion: a Prequela de o Exorcista (2005) — ficaram marcados por muitos problemas de produção e, em boa verdade, nem sequer foram assumidos pelos respectivos realizadores, Renny Harlin e Paul Schrader.

Dir-se-ia que a nova série televisiva surge como espelho perverso de uma América atravessada por uma crise de identidade que contamina a sua cena política, ao mesmo tempo que questiona alguns dos seus valores tradicionais. Se é metáfora ou não, eis o que está aberto à discussão — o certo é que, no passado mês de Maio, a Fox encomendou uma segunda temporada de O Exorcista.

[Este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Junho), com o título 'Mais de quatro décadas depois, O Exorcista renasce na televisão'.]

 

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