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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

The Fall

«The Fall» é uma produção da BBC criada por Allan Cubitt, autor que demonstra ser um mestre de territórios desconhecidos. A acção desenrola-se em Belfast, na Irlanda do Norte, onde a tensão evolui nas ruas de uma cidade com os ânimos eternamente quentes face à coroa britânica.

Stella Gibson (Gillian Anderson) é uma investigadora especial que vem de Londres para trabalhar num inquérito em redor do homicídio de uma mulher envolvida com uma figura ligada ao poder político e depara-se com um padrão criminoso que comprova existir a possível presença de um assassino em série que ataca mulheres independentes e liberais.

A narrativa de Allan Cubitt é deveras perspicaz na construção das personagens centrais, que fogem aos habituais tiques de personagens tipo. Vamos conhecendo-as ao longo de duas temporadas onde serão revelados os traços e as motivações de Stella Gibson e do antagonista Paul Spector (Jamie Dornan de «As Cinquenta Sombras de Grey»). A série esteve em gestação desde 2009 e a riqueza na sua escrita é acompanhada por duas extraordinárias performances que absorvem por completo a audiência.

A promiscuidade entre a justiça e o poder político é também uma das frentes narrativas de «The Fall», que explora essencialmente os aspectos da violência face às mulheres, neste caso o poder e o erotismo de mãos dadas com a morte, mas também a violência doméstica. O vilão é baseado num indivíduo canadiano que foi condenado por homicídio de uma mulher e que até à sua prisão tinha um cadastro limpo e parecia um cidadão exemplar, tal como acontecia com o serial killer brilhantemente interpretado por Dornan.

O homicida canadiano tinha a tendência de entrar furtivamente na casa das pessoas e roubava roupa interior feminina. O modus operandi deste indivíduo é transposto para uma série que analisa de forma implacável a anatomia de um assassino em série que é invisível perante a sociedade. Paul Spector é um psicólogo familiar, pai de família e uma figura atraente que, no entanto, assassina ritualisticamente as suas vítimas.

A série humaniza todos os personagens, inclusive Spector, com o espectador a viajar até à psicologia por detrás da loucura de um autêntico assassino na sombra. Não deixa de ser fascinante a atracção que os espectadores encontram neste exercício em torno de um predador calculista e letal, algo que seria impossível numa série sobre “quem cometeu o crime?”. E do mesmo modo há uma humanização face a todas as vítimas, as mesmas não são tratadas como adereços pois houve uma preocupação de Allan Cubitt em mostrar a vida e os hábitos destas mulheres, uma observação que é feita, em momentos, através de uma visão voyeurística do predador.

«The Fall» leva-nos a várias paragens de uma investigação com inúmeros contornos dramáticos. O policial dá lugar ao drama profundo e aos desejos mais recôndidos para rechear episódios de uma hora com as vicissitudes da natureza humana. Ninguém é inocente nesta série, nem sequer as crianças que protegem aqueles que amam.
A história é contada em duas perspectivas, a visão de dois caçadores: o assassino Paul Spector e a detective Stella Gibson. A força da sexualidade é utilizada em diferentes polaridades: o homem face às mulheres e uma mulher num mundo de homens que se recusa a ser apagada na ordem vigente.


As duas temporadas de «The Fall» somam 11 episódios. Este policial dramático bateu recordes de audiência na BBC Two, sendo a série mais vista nos últimos oito anos. Inteligente e meticulosa, promete envolver em pleno os espectadores.

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Flesh and Bone

A cadeia norte-americana Starz tem vindo nos últimos anos a aprimorar as suas produções, após a super produção «Black Sails» chega mais uma série que deslumbra pela sua beleza e complexidade dramática. «Flesh and Bone» desenrola-se no mundo ultra-competitivo do ballet no seio de uma companhia de bailado de Nova Iorque. A mini-série além de possuir uma narrativa e planos visuais que são absolutamente inebriantes detém todos os ingredientes, apresentados de forma explícita, na sua linguagem física e psicológica, num exercício de puro hipnotismo onde tudo está a nu perante as câmaras.


O sucesso de «Flesh and Bone» não acontece por acaso, a série foi criada por Moira Walley-Beckett uma argumentista que vem da escola de «Breaking Bad» que iniciou a sua carreira anos antes em séries como «Raines» com Jeff Goldblum e «Eli Stone» com Jonny Lee Miller. O seu salto criativo ocorreu quando entrou para o staff de argumentistas da série de Vince Gilligan na segunda temporada, como editora de argumento, onde assinou alguns episódios de «Breaking Bad». Ao longo das temporadas subiu de estatuto como produtora e escreveu argumentos memoráveis como “Fly” e “Ozymandias”. O décimo quinto episódio da quinta temporada foi considerado um dos grandes episódios da história da televisão e Moira Walley-Beckett recebeu o Emmy pelo argumento a solo de “Ozymandias”.

A história de «Flesh and Bone» é contada na perspectiva de Claire Robbins, interpretação estonteante de Sarah Hay numa performance de corpo e alma. A actriz é bailarina na vida real e teve uma pequena participação em «Cisne Negro». Interpreta uma jovem que foge do seu lar em Pittsburgh na Pensilvânia e vem para Nova Iorque só com o seu talento natural e com um único plano – singrar ao mais alto nível – falhar não é uma opção. A ambição e a vocação pura para a arte do bailado fazem dela uma prima-dona no momento em que os seus pés de bailarina entram em contacto com o solo. Paul Grayson (Ben Daniels, um actor com vasta experiência no teatro) é o director artístico da American Ballet Caompany, é um tirano que aposta tudo no seu legado sem olhar a meios para atingir os fins após a morte do seu namorado e co-director artístico da companhia, ele está só para enfrentar as adversidades e o seu ego.

Há uma mão cheia de histórias prontas a serem reveladas em «Flesh and Bone» ao longo de oito episódios que andam sempre no fio da navalha e invariavelmente têm interpretações de primeira água. Os enredos paralelos retratam relatos sobre a competição entre as bailarinas, as formas de arrecadar dinheiro noutros palcos num clube de strip com ligação ao crime organizado, o chocante passado de Claire e a relação com o seu irmão (Josh Helman), o relato de Mia (Emily Tyra) a parceira de apartamento de Claire que sofre de um complicado distúrbio alimentar, o imprevisível Romeo (Damon Herriman), um estranho sem-abrigo do prédio de Claire, que nas suas alucinações tem o poder da premonição, um bailarino (Sascha Radetsky, bailarino solista na vida real no American Ballet Theatre) que se vê forçado a efectuar outros compromissos para ganhar o seu lugar e a deslumbrante prima-bailarina Kiira que está à beira do fim. A convincente interpretação de Kiira pertenceu a Irina Dvorovenko, uma bela bailarina de origem ucraniana do American Ballet Theatre que se retirou dos palcos em 2013.

O farol condutor da série faz-se pela via da dança e dos demónios de cada um dos personagens mas também pelo cunho visual da sua produção na coreografia dos bailados e ensaios e a realização dos episódios. Neste último aspecto, destaque para a brilhante direcção do primeiro episódio dirigido com perspicácia pelo australiano David Michôd («Reino Animal»), veja-se como foca as faces e as emoções gravadas nos seus rostos optando por deixar os espectadores e a surpresa da dança de Claire para o clímax do primeiro episódio. A música da série foi composta por Dave Porter (orquestração) e Adam Crystal (compositor dos bailados).

Uma nota final para o genérico da série que sintetiza o brilhantismo da mesma ao som de “Obsession” de Karen O, uma melodia que retrata na perfeição o lado obsessivo que se esconde nos vários personagens.
«Flesh and Bone» é uma das grandes surpresas da temporada na revelação de uma estrela e numa série que toca na alma dos espectadores.

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Limitless

Marc Webb, realizador do reboot e da sequela de «O Fantástico Homem-Aranha», realizou o piloto de «Limitless», que mantém o estilo do filme homónimo de Neil Burger, de 2011. A série foi desenvolvida por Craig Sweeny (argumentista de «Elementar» e «Medium»), a ideia para este conceito é baseada no livro The Dark Fields (2001), de Alan Glynn.

A premissa de «Limitless» envolve o consumo de uma droga (NZT) que abre as potencialidades do cérebro humano, tornando-o num supercomputador com alta capacidade de raciocínio e confere ao corpo humano extraordinárias habilidades físicas. O problema é que o consumo prolongado de NZT tem efeitos secundários letais que só podem ser combatidos com um antidoto. Bradley Cooper, que interpretou o papel principal no filme, tem no piloto desta série um pequeno cameo como o homem que vai proteger e dar o antidoto ao protagonista da série, Brian Finch (Jake McDorman), um jovem falhado na vida mas com um verdadeiro potencial que desabrocha quando ingere a misteriosa NZT. O herói da série, Brian Finch, acaba por colaborar com o FBI na utilização das suas capacidades extraordinárias na resolução dos crimes e tem ao seu lado uma “babysitter”, a Agente Rebecca Harris (Jennifer Carpenter de «Dexter») que é quem controla os danos colaterais provocados por Brian no decurso das suas investigações pouco ortodoxas. Bradley Cooper também assina esta produção e recomendou pessoalmente Jake McDorman para o papel principal da série – ambos os actores tinham colaborado em «Sniper Americano» (2014).

Aquando da sua estreia, em 2011, o filme «Sem Limites» foi uma surpresa nos Estados Unidos pela sua originalidade e o modo frenético como se descrevia a narrativa graças à interação visual. Podemos afirmar que visualmente esta versão de «Limitless» está vários passos à frente da longa-metragem na utilização de inúmeras técnicas visuais da animação ao CGI, passando pelo split screen. Cada episódio é uma festa para os nossos olhos.

Os episódios têm uma energia invulgar, fruto do trabalho visual, bons diálogos e a interpretação em “modo velocidade furiosa” de Jake McDorman. «Limitless» é uma boa aposta da nova temporada, é para ver em Portugal no canal TV Séries.

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Segurança Nacional - Quinta Temporada

Jogo de Espiões

«Segurança Nacional» estava nas ruas da amargura após a terceira temporada, uma época falhada que tentava fechar a saga de Nicholas Brody (Damian Lewis) e Carrie Mathison (Claire Danes). A quarta temporada revitalizou a fé dos espectadores ao dar um salto temporal e geográfico na temática, apontando baterias ao extremismo islâmico e à presença indesejada dos norte-americanos em países muçulmanos como o Paquistão. A ação desenrolou-se entre Islamabad e as províncias tribais do Paquistão que fazem fronteira com o Afeganistão.
Recordamos que Osama bin Laden estava escondido dos olhos do mundo numa moradia fortificada a escassos metros da academia militar paquistanesa quando foi abatido pela Navy SEAL Team 6. Eventos que certamente ajudaram a inspirar o cocriador e showrunner Alex Gansa a pegar o fio à meada de acontecimentos reais, criando um renascimento memorável que nos deixou suspensos do primeiro ao último episódio da quarta temporada. A série terminou em anti-clímax com um sabor amargo na boca, não por falha dos argumentistas mas como um lembrete de que a realidade não é um filme de ficção, os pactos com o diabo são celebrados, criam-se bodes expiatórios que encobrem a verdade e, em última análise, a vida continua.

«Segurança Nacional» segue atualmente o modelo clássico de «The Wire» e «24» com a mudança geográfica e emocional da protagonista e das personagens chave (Saul, Quiin, Dar) que embarcam numa nova saga narrativa com novos intervenientes. Os eventos da quinta temporada ocorrem dois anos após o desastre do ataque à embaixada americana Islamabad. Carrie mudou-se para Berlim e abandonou a CIA, trabalha no sector privado na Fundação During pertencente a um multimilionário (Sebastian Koch). É uma mãe feliz, abraçou a religião através do catolicismo e tem um companheiro perfeito (Alexander Fehling), dir-se-á normal após a relação com os perturbados Brody e Peter Quinn (Rupert Friend). A personagem está física e psicologicamente diferente, já custava ver a mesma alma torturada com a sua paranóia e bipolaridade. Claire Danes, em tempos a menina bonita de "Romeu e Julieta" cresceu e tornou-se uma magnífica atriz neste rebuscado desempenho que define uma carreira, em quatro temporadas de "Segurança Nacional" venceu dois Emmys, em 2012 e 2013, e foi nomeada em 2015 para os prémios máximos da Academia de Televisão Artes e Ciências dos Estados Unidos na categoria de Melhor Atriz em Série Dramática.
O enredo da quinta temporada inicia-se com laivos da Edward Snowden e Julian Assange quando um hacker consegue penetrar nos sistemas informáticos da CIA e descarrega ficheiros secretos que comprometem a organização e o governo alemão ao violar a privacidade dos cidadãos na Alemanha. A Fundação During deseja publicar os documentos e coloca Carrie, a responsável máxima da segurança, numa complicada encruzilhada: tem um estatuto de pária ao ser olhada com desconfiança pelos companheiros da Fundação e como uma renegada aos olhos da CIA.

Quanto às outras peças neste jogo mortal, Saul (o extraordinário Mandy Patinkin) não chegou novamente ao topo da CIA, após a sua reforma antecipada, devido a uma interferência de Carrie, mas está de regresso como chefe de operações da agência na Europa onde vai trabalhar com a chefe da estação de Berlim, Allison Carr (Miranda Otto), para conter o dano da fuga das informações e remendar as relações com os alemães. Peter Quinn, que esteve a um passo de abandonar a sua vida como assassino especial da CIA, para estar com Carrie, recuou a posição e atirou-se de cabeça às operações infiltradas, esteve dois anos na Síria numa guerra sem quartel e chega à Alemanha como um homem numa missão. Na sua intervenção aos membros do aparelho de Estado norte-americano, no primeiro episódio da nova temporada, pode-se definir o estado de alma de um personagem absolutamente céptico que habita numa zona cinzenta. Ele faz um ponto de situação cáustico sobre a guerra civil na Síria e a abordagem face ao Estado Islâmico (EI) com a descrição de um clima de “fim do mundo” com as crucificações, a escravatura e a ideia de um califado islâmico que deseja a erradicação de todos os infiéis. A série costuma ser mais subtil, se preferirem menos frontal, nestas abordagens, mas a linha está traçada e coloca-se o dedo na ferida.

Alex Gansa, quando criou a quarta temporada, aquando o aparecimento do EI nas notícias, afirmou que ainda não seria a altura de abordar essa ameaça. Na quinta temporada toca nesse ponto e foca um combate invisível em plena Europa com o palco dos acontecimentos em Berlim. Todos os anos os criadores e argumentistas da série consultam membros dos serviços de inteligência em Washington e um dos conselhos para "Segurança Nacional" se tornar relevante foi precisamente olhar para a posição alemã a um passo da Rússia, a Alemanha como uma porta de entrada do EI na Europa e as leis de privacidade que os cidadãos alemães desfrutam. Um dos grandes filmes de espionagem dos últimos anos foi "Um Homem Procurado" (2014), de Anton Corbijn, um thriller baseado num livro de John le Carré também desenrolado na Alemanha e inspirado pelo falhanço dos serviços secretos alemães ao não detectarem as operações da cela terrorista de Hamburgo de Mohamed Atta, um dos responsáveis dos ataques de 9/11.

A anterior temporada de "Segurança Nacional" foi filmada na África do Sul, que substituía Islamabad. Nesta época, em Berlim, sentimos os cenários reais e a atmosfera de uma cidade vibrante e renascida, a câmara pode apontar livremente a 360 graus. As filmagens decorreram nos míticos estúdios de Babelsberg, que no passado tinham sido utilizados pelo responsável da propaganda nazi Joseph Goebbels. A rodagem de "Segurança Nacional" também é assinalável por ser a primeira série de televisão norte-americana a ser filmada inteiramente na Alemanha.

O paraíso vai provavelmente terminar para Carrie numa série que continua a explorar o “peso” e a humanidade nas personagens ao retratar os serviços secretos norte-americanos não como estrelas mas como figuras complexas que têm de fazer escolhas difíceis em nome da segurança do país e do mundo. Sejam bem-vindos à quinta temporada de "Segurança Nacional", uma série alvo para acompanhar em Portugal no canal FOX.

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