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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

The Handmaid’s Tale: uma série que é mais do que TV (review)

Os três primeiros episódios da terceira temporada ficam disponíveis esta quinta-feira, 6, no NOS Play. A METROPOLIS teve acesso antecipado a «The Handmaid’s Tale» e escreve sobre isso.

Um episódio de «The Handmaid’s Tale», a série da Hulu que em Portugal faz parte do catálogo do NOS Play, é dose, e resulta, pelo menos, em menos três cabelos e em quatro unhas roías. É impossível ficar indiferente à narrativa, pelo que três episódios seguidos é um desafio hercúleo. “Talvez sejamos mais fortes do que achamos que somos”, diz June (Elisabeth Moss) a certa altura, e eu não podia concordar mais com ela. Já perdi a conta aos meus amigos que desistiram da série por ser demasiado pesada, obscura e violenta psicologicamente. Alguns ficaram logo pelo caminho, outros não aguentaram a brutalidade da segunda temporada. Os que continuam, certamente têm pesadelos na noite em que veem o episódio. E isto é sinal que Bruce Miller, assim como Margaret Atwood quando escreveu o livro, está a fazer o seu trabalho.

O lançamento conjunto do trio de episódios não é inocente. Bruce Miller e companhia não quiseram arriscar perder a audiência logo no arranque, e decidiram levar o seu tempo. Colocaram as cartas pacientemente, de forma complexa, consolidando tudo isso em três episódios disponíveis no mesmo dia. Sem pressas ou personagens apressadas, tendo tempo para reforçar figuras conhecidas, como Serena (Yvonne Strahovski) ou Emily (Alexis Bledel), ao mesmo tempo que revelam mais sobre Joseph Lawrence (Bradley Whitford) ou Beth (Kristen Gutoskie). Não quer isto dizer, todavia, que os acontecimentos se sucedem a um ritmo lento, mas antes que são explorados tanto quanto possível, de modo a preparar os espectadores para a temporada que se avizinha, com atenção a pormenores de discurso e de método.

Depois de deixar a filha com Emily, que foi ajudada a escapar para o Canadá, e voltar atrás para tentar resgatar Hannah (Jordana Blake), June mantém-se igual a si própria, mas é também algo mais. Uma personagem plural, fortalecida por encarar a luta e destruída pelo que teve de abandonar para ficar. O mesmo se pode dizer de Serena, que saiu violentada das tomadas de posição que teve, mas é hoje uma personagem mais forte e complexa do que era no início da trama. Embora o poder continue do lado masculino, a verdade é que Fred (Joseph Fiennes) e a República de Gilead estão agora mais frágeis, enquanto os revolucionários ganham força. Algo que não é admitido, claro, já que seria sinal de esperança – e nesta distopia não há espaço para ela.

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Longe vai o tempo em que Bruce Miller tinha o conforto da escrita de Margaret Atwood, sendo que, desde a segunda temporada, o criador tem navegado rumo ao incerto, acrescentando novas linhas a uma história publicada originalmente em 1985 e que se julgava concluída. Os seus passos parecem atualmente mais seguros, o que acaba por transparecer na monstruosidade que a interpretação de Elisabeth Moss. A atriz está num outro nível competitivo, bem acima de qualquer outro profissional de momento em TV. Seja em silêncio, em diálogos mais acesos ou em jogadas de ‘xadrez’ com ela ou à sua volta, a complexidade de June é imaginada ao detalhe, ao mesmo tempo que o resto da série vai evoluindo.

O medo continua presente, é certo, mas há uma coragem desconhecida que vem cada vez mais à tona. E é daí que ‘bebe’ a nova temporada de «The Handmaid’s Tale», uma ficção extremada que encontra semelhanças com a realidade, numa altura em que presidentes querem levantar muros e o poder é controlado por um grupo reduzido, onde poucos definem o destino de muitos. Intocáveis. Estes ‘vilões’ têm vários rostos, da corrupção à violência contra as mulheres ou as minorias, passando pela religião como justificação para os crimes mais hediondos. Eles existem, apenas assumem outras formas. «The Handmaid’s Tale» é um destino quase pós-apocalíptico e certamente distante, mas a sua probabilidade, mesmo que ínfima, é algo que inquieta. Isto é mais do que TV, é uma aula de humanidade, consciencialização e alertas para as ameaças que vivem nas entrelinhas.

Não perca a análise mais completa na Metropolis nº69.

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The Handmaid’s Tale: o medo nada pode contra quem já perdeu tudo

Eleita a melhor série de 2017 pela METROPOLIS e vencedora de oito Emmys, «The Handmaid’s Tale» está de regresso para uma segunda temporada. Às quintas no NOS Play.

Há uma linha, extensa mas ténue, que separa as ideias desumanizantes da sua concretização: o poder de quem as defende. Assim como acontece em distopias como "1984", de George Orwell, é na desvalorização do perigo que ele vence, pois é nesse momento que as defesas estão em baixo. Também a poderosa «The Handmaid’s Tale», baseada na obra de Margaret Atwood publicada nos anos 80, polariza esta ameaça presente na sociedade e que, mediante uma organização consertada, pode mesmo tornar-se real. Tanto na atualidade de Atwood, em 1985, com uma Alemanha ainda dividida pelo Muro de Berlim, como naquela em que surge a série, mais de 30 anos depois.

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Os novos episódios de «The Handmaid’s Tale» mantêm o nível de intensidade e o ‘peso’ emocional nos píncaros, sem qualquer momento de comédia ou acalmia para personagens e espectadores. Vem confirmar, em todo o caso, que a série criada por Bruce Miller tem potencial para voltar a ‘limpar’ as cerimónias de prémios, ainda que agora o ‘hype’ tenha de ser dividido com séries como «Westworld» ou o regresso de «The Crown», cheia de caras novas. A exigência está lá em cima, mas o que são as nossas expetativas para quem já tem de lidar com uma sociedade totalitária e absolutista,certo?

Mas não se trata somente de uma obra aterrorizante e autocrítica, trata-se, sobretudo, de uma ode à esperança. Porque é que numa realidade desprovida de liberdade e de otimismo, algumas personagens continuam a acreditar no derrube do regime da República de Gilead? E nós, enquanto espectadores, torcemos cada vez mais para que isso aconteça. Na obra original, a autora deixa um final em aberto, ao qual o leitor procura (e tem liberdade para) dar sentido, mas a série, de regresso ao NOS Play, promete oferecer mais respostas. É que, regressados do hiatus, é-nos dada uma resposta que demorou décadas: para onde foi Offred (Elisabeth Moss) quando entrou naquela carrinha preta?

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As construções sociais nasceram para serem desafiadas

Tanto o medo como o poder, pedras basilares da trama protagonizada por Elisabeth Moss, são fundamentos bem conhecidos da vida em sociedade. Só que em «The Handmaid’s Tale», a combinação entre o poder e a exploração do medo nos outros escala a um nível completamente astronómico, convertendo as Handmaids [Aias, em português] em verdadeiras marionetas. Tudo porque a esperança, essa teimosia maldita que nos leva a desejar um final feliz, ainda permite que tenham medo de perder o pouco que lhes resta. Apenas numa situação de desespero total, como aquela em que Emily (Alexis Bledel) vive, as pessoas podem derrubar essa vantagem: se acreditarmos não ter nada, não temos nada a perder.

Há, portanto, uma espécie de linha invisível – mas crucial – que neste momento da ação separa os diferentes intervenientes. Offred tem a confiança de que não pode ser maltratada, afinal tem no ventre o herdeiro da família Waterford e sabe que o poder de castigar só é esbatido pelo das consequências, sendo que enquanto estiver grávida está segura. Mas, e depois? Seguirá para as Colónias como Emily? Ou acabará por fazer a mesma escolha que Moira (Samira Wiley), e assim servir de entretenimento no Jezebels até os homens se fartarem dela? Mais uma vez a esperança, até mesmo nos momentos em que pensamos nem poder existir, se torna a verdadeira Kryptonite desta narrativa. E aí ressurge o poder do medo.

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Com uma estreia em dose dupla, a segunda temporada prepara o espectador para um ‘habitat’ bem diferente daquele que serviu de palco a «The Handmaid’s Tale» na primeira temporada. Por um lado, é levantado o pano sobre aquilo que espera Offred e companhia e, por outro, são finalmente introduzidas as malfadadas Colónias, para onde tinha sido remetida Emily. Da mesma forma, e agora que se sabe como se vive para lá da fronteira, podemos antecipar mais novidades acerca da nova realidade de Moira, e do que Luke (O-T Fagbenle) será capaz de fazer para recuperar a sua família. No entanto, este puzzle só fica completo com Nick (Max Minghella), o Olho na casa dos Waterford, e o pai do bebé que Offred espera. Destaque também para a participação de Marisa Tomei no segundo episódio, e que já está a ter ‘buzz’ para uma possível nomeação ao Emmy de Atriz Convidada, vencido em 2017 por Alexis Bledel, entretanto promovida ao elenco regular.

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The Handmaid’s Tale: falar verdade a mentir

Vivemos na sociedade mais mediatizada de sempre. As ferramentas ao nosso dispor são imensas, assim como são imensos os perigos que representam. No entanto, as ameaças não começam (nem acabam) aí: por diversas vezes, o principal inimigo do ser humano é ele mesmo. É por estes motivos, entre outros, que livros como 1984 e The Handmaid’s Tale, publicados em 1949 e 1985, respetivamente, continuam a ser urgentes e atuais.

«The Handmaid’s Tale», lançada pelo Hulu em abril, é uma distopia que, na sua mentira, nos obriga a encarar a verdade dos nossos dias. E aquela que, em 1984, a escritora Margaret Atwood espreitava em Berlim Ocidental, ainda cercada pelo Muro. Foi nesse ano que o livro The Handmaid’s Tale [publicado em Portugal com o título O Conto da Aia] começou a ganhar a sua forma final, dando corpo à narrativa com que Atwood sonhava há já alguns anos. Em parte, as linhas que ia escrevendo exorcizavam os demónios dos conflitos de que fora testemunha, e que a acompanhavam desde que nasceu, em 1939, dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial. Mas também lembravam os resultados fantasmagóricos que a autora testemunhara em locais como a Checoslováquia ou a Alemanha de Leste, do outro lado da Cortina de Ferro.

Chegados a 2017, é incontornável que a crítica de «The Handmaid’s Tale» – ou, melhor dizendo, aquela que a série procura passar – se mantém assustadoramente atual. Terá Margaret Atwood previsto o futuro, ou foi a sociedade que não evoluiu o que devia ao longo de três décadas? Não é, ainda assim, caso único. O melhor exemplo será a obra 1984, publicada em 1949 por George Orwell, que ascendeu ao topo das vendas da Amazon em janeiro, na sequência da tomada de posse de Donald Trump e dos “factos alternativos”. Há, nas mentiras que Orwell e Atwood nos contam, pintadas de entretenimento, uma crítica feroz à realidade que os autores habitam – mas também àquelas que estão por vir, e que correm o risco de cair nos mesmos erros.

«The Handmaid’s Tale», a série, foi anunciada em abril de 2016, com Elizabeth Moss («Mad Men», «Vida Interrompida») a ser logo apresentada como a grande protagonista, a narradora ‘Offred’. O contexto frenético que se vive a nível social e político prometia o enquadramento perfeito para a recuperação da história de Atwood, mas nos meses seguintes, com a confirmação do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Trump, esta pareceu ainda mais pertinente. Como se o hype não bastasse, o elenco é verdadeiramente de luxo, destacando-se nomes como Yvonne Strahovski («Chuck», «Dexter»), Joseph Fiennes («A Paixão de Shakespeare», «Elizabeth»), Alexis Bledel («Gilmore Girls»), Samira Wiley («Orange is the New Black») e Max Minghella («Ágora», «The Mindy Project»).
Por outro lado, numa altura em que nos preparamos para mais uma temporada repleta de protagonistas homens e brancos, a série da Hulu destaca-se pela diferença, colocando as mulheres não apenas nos principais papéis da narrativa, mas também na realização e escrita dos argumentos. Já na ficção as contas são bem diferentes, com as personagens femininas a serem colocadas num lugar bastante inferior ao dos homens, sobretudo se não pertencerem a famílias de classe alta. Nesse caso, o seu destino tem tanto de trágico como de inevitável: se forem férteis, vão trabalhar como aias para as famílias mais ricas; se não forem, vão ser colocadas em campos de concentração.

No mundo habitado por «The Handmaid’s Tale» somos colocados, tal como acontece em 1984, num país ditatorial e onde nada se sabe sobre o exterior. Fechados e controlados por um poder feito absoluto, e anónimo, os cidadãos vivem hierarquizados e compartimentalizados, demasiados presos nas suas rotinas e afastados do passado – recente, mas que parece pertencer a uma outra vida. No caso das aias, escapam ao terror dos campos de concentração e da morte pela ‘sorte’ de serem mulheres férteis numa sociedade condenada à extinção. Com grande parte das mulheres sem capacidade de ter filhos, resta às aias cumprirem rituais de procriação, a fim de darem aos patrões o filho que tanto ambicionam e não conseguem ter. É logo aqui que encontramos um dos alicerces fundamentais de «The Handmaid’s Tale» que, qual «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998), assume o quotidiano como uma estrutura fixa e que, tanto quanto possível, não deve sofrer alterações.

A mulher não é dona do seu corpo nem das suas memórias, negadas até à exaustão com medo das repercussões que isso pode ter. Cabe a Offred (Moss) partilhar connosco o seu testemunho: do que foi, da família que teve, e dos destroços em que se transformou. Além disso, e através do seu olhar e contacto com a realidade, conhecemos outras histórias e vamos desvendado a forma como o regime se faz valer e ganha força. Ironicamente, e a lembrar os trejeitos do discurso político e da apatia pública, tudo teve origem numa realidade aparentemente normal, onde a população ‘adormeceu’ e, com o Estado a aplicar leis invasivas com ‘vestes’ de proteção, só tentou reagir quando era tarde demais.

Para acentuar o paralelismo com o presente, e também modernizar a narrativa, referem-se as redes sociais e as ferramentas da modernidade, como o Tinder, que, na sua indestrutibilidade, de nada servem quando a ditadura se impõe. Assim, tal como no futuro imaginado por Atwood nos anos 80, reforça-se a crítica ao sermos colocados, enquanto espectadores, perante uma realidade bem próxima – e que vai desde os nossos hábitos mais comuns aos vícios que vamos ganhando, ou à liberdade que temos como certa. Mas nada é certo. Muito mudou nos últimos 30 anos, mas algumas mudanças não foram tão eficazes quanto isso: as mulheres ainda lutam pelos seus direitos, procurando igualdade, e o mundo mantém-se dividido entre guerras, ameaças e ódio. Como tal, «The Handmaid’s Tale» está bem longe de ser algo do passado, afinal podemos encontrar a distopia de Offred em várias coisas do nosso dia a dia. No entanto, será que estamos atentos?

[texto publicado na Metropolis nº 51]

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