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Actualizado às 11:49 PM, Nov 20, 2019

Big Little Lies: a morte fica-lhes tão bem

Há quem a considere uma espécie de 'True Detective dos subúrbios', mas a nova aposta do TV Séries é muito mais do que isso. Para já, «Big Little Lies» é a surpresa mais agradável da nova temporada televisiva.

A mulher sonha, a HBO quer e a obra nasce. Numa altura em que se faz muita (e boa) televisão, só a ideia de juntar as atrizes Reese Witherspoon e Nicole Kidman, que nunca se cruzaram no grande ecrã, parece ser suficiente para convencer as principais produtoras televisivas e levá-las a competir pelo que quer que seja que elas queiram fazer. Se pelo caminho se formar um elenco de luxo, onde se contam nomes como Shailene Woodley, Laura Dern, Alexander Skarsgård ou Adam Scott, tudo sob o olhar da lente do realizador Jean-Marc Vallée, acabar em frente ao ecrã é uma inevitabilidade.

Como bem sabemos, uma série nova não significa, necessariamente, uma história nova. Veja-se a tendência avassaladora de adaptar narrativas já conhecidas ao pequeno ecrã, ou de as renovar. Tal como acontecerá, ainda durante 2017, com «The Handmaid's Tale», «American Gods» ou «Sharp Objects» – esta última até tem o mesmo realizador –, também «Big Little Lies» segue (e é inspirada por) um livro. Neste caso, Reese Witherspoon e Nicole Kidman, produtoras e protagonistas da minissérie da HBO, formaram uma dupla de peso para convencer a autora Liane Moriarty a ceder os direitos da obra, que em Portugal tem o título de Pequenas Grandes Mentiras. E, sejamos francos, quem seria capaz de lhes dizer que não?

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“Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Que o diga Jane (Shailene Woodley), uma mãe solteira recém-chegada ao subúrbio dominado pela popular, mas persona non grata, Madeline Martha Mackenzie (Witherspoon). A sua integração já se adivinhava difícil, mas tudo se complica quando a filha de Renata (Laura Dern) acusa o seu filho, o aparentemente pacato Ziggy (Iain Armitage), de a ter agredido. Para que não restem dúvidas, estamos, claramente, num mundo dominado por mulheres fortes: esta posição é concretizada logo no genérico, onde os sucessivos vislumbres das personagens femininas, ao volante, evidenciam a ausência dos homens. Esta é, aliás, uma das pistas que nos leva a antecipar que não estamos perante uma série igual às outras. «Big Littles Lies» é, na sua essência, uma antítese daquilo que regularmente encontramos na televisão (ainda que se veja cada vez mais).

Assim como acontecia com «True Detective», a narrativa desloca-se, com propósito, por diferentes espaços temporais, deixando para o final as revelações mais determinantes. E, apesar de abrir, de forma fulgurante, com um homicídio, a verdade é que, acabado o piloto, não sabemos quem é a vítima – nem quando será confirmada a sua identidade. Para atiçar ainda mais a nossa curiosidade, nenhuma das personagens centrais se senta na cadeira para ser interrogada pelas autoridades, sob o olhar atento da detetive Adrienne – interpretada por Merrin Dungey, que volta a vestir a “farda” depois do desaire em «Conviction». Sem cadáver e sem culpado, as suspeitas vão-nos perseguindo ao mesmo tempo que a câmara embrenha, às vezes freneticamente, pelas realidades aparentemente perfeitas dos subúrbios.

Apesar de as pistas serem escassas, o conflito vai-se adensando em torno de Madeleine, Jane e Celeste (Kidman), as figuras principais desta história, com o mote a ser lançado logo no arranque, acompanhado por flashbacks: se Madeleine não se tivesse lesionado no pé quando voltava para o carro, ou se Jane não tivesse parado para a ajudar, será que o homicídio tinha acontecido? A pergunta é feita pelos detetives, que procuram saber, através das personagens terciárias da ação, o que escondiam as três mulheres. Enquanto Madeleine é fortemente criticada pelos vizinhos e pais dos colegas das filhas, Celeste é invejada – e julgada – pelo casamento que mantém com Perry (Alexander Skarsgård), mais novo do que ela. A certa altura, não sabemos onde acaba o crime e começa a coscuvilhice...

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O drama social, tantas vezes explorado na arte, ganha contornos de série policial e, ao sermos guiados pelo passado e pelo presente, temos a noção clara que estamos a ser manipulados. Mas, captados pelo argumento vibrante e realização competente, que fortalecem ainda mais um elenco galáctico, já não temos fuga possível. Nada é inofensivo ou inocente, e as certezas tornam-se mais fortes à medida que as primeiras surpresas vão sendo conhecidas. Por um lado, Celeste não é tão feliz quanto aparenta, sofrendo, na escuridão, da violência de Perry, apresentado como o pai e marido perfeito. Jane, que encanta as melhores amigas Madeleine e Celeste, parece esconder algo bastante suspeito, e perigoso o suficiente para a levar a dormir com uma pistola por baixo da almofada. Já Madeleine tem de conviver rotineiramente com o pai da primeira filha e a nova mulher deste (Zoë Kravitz).

No meio da confusão que vamos conhecendo, Jane parece esconder a resposta do mistério, sendo várias vezes sugestionado que ela ou Madeleine podem ser as vítimas – ou as culpadas. Mas é esta mesma insinuação prematura que nos leva a crer (ou nos engana) que nenhuma delas morreu. O enigma de Jane desmonta-se nos primeiros diálogos, embora passe quase despercebido numa banal conversa de café: ela é mãe solteira mas nunca viveu com o pai do filho. O seu desconforto nesta confissão, subtil, é indicador de um potencial problema: quem é o pai de Ziggy? Que tipo de relação mantiveram? Como lida Jane com isso? Será que foi trocada por uma mulher idêntica às novas amigas, ou o seu passado esconde algo mais escabroso? Os palpites são muitos mas, depois dos 52 minutos do primeiro episódio, que se vê num trago, as perguntas são ainda mais.

  • Publicado em TV

Snowden, Stone, política & tecnologia

Oliver Stone encena a saga de Edward Snowden num filme de fascinante complexidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Setembro), com o título 'Como “purificar” as relações entre política e tecnologia?'.

Para o melhor ou para o pior, Edward Snowden inscreveu o seu nome na história política do século XXI. Ao divulgar, em 2013, dados de segurança interna dos EUA e, em particular, dos mecanismos de vigilância da National Security Agency (NSA), o ex-funcionário da CIA transformou-se em pólo necessariamente polémico de uma questão do nosso mundo global: o cruzamento do exercício do poder com a integração das novas tecnologias de detecção de mensagens. O filme de Oliver Stone, Snowden, aponta ao núcleo crítico de tal discussão.

Em boa verdade, mesmo que o discurso de Stone siga noutra direcção, o seu filme está longe de ser um mero panfleto. Há nele uma respiração dramática que evoca os modelos clássicos do cinema liberal de Hollywood. Isto sem esquecer que a palavra (“liberal”) corre sempre o risco de suscitar muitos equívocos, quanto mais não seja porque o que está em jogo não é uma simples posição política, muito menos partidária. É, isso sim, a tensão que se estabelece entre a acção de um indivíduo e o contexto institucional que o enquadra.
Nesta perspectiva, Snowden pode ser considerado um descendente directo de “thrillers” das décadas de 60/70, assinados por cineastas como John Frankenheimer, Alan J. Pakula ou Sydney Pollack (recorde-se o caso exemplar de Três Dias do Condor, de Pollack, em que Robert Redford interpretava um funcionário da CIA perseguido pela própria instituição).
Por mais desconcertante que isso possa parecer, este retrato de Edward Snowden acaba por ser uma variação sobre o mesmo paradoxo existencial que Stone já encenara em títulos como JFK (1991) ou Nixon (1995). No primeiro caso, da investigação sobre o assassinato de John F. Kennedy emergia a figura do procurador Jim Garrison (Kevin Costner), protagonizando um processo que se vai diluindo na encruzilhada de muitos testemunhos e outros tantos silêncios; no segundo, a revelação dos abusos de poder de Richard Nixon (Anthony Hopkins) acabava por lhe conferir uma perturbante emoção trágica.

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Cada espectador reagirá de modo diferente (e com toda a legitimidade) às decisões que levaram Edward Snowden a revelar os documentos que revelou. Seja como for, em defesa do trabalho cinematográfico que temos à nossa frente, importa sublinhar a ambivalência dramática que se instala: no limite, Snowden é uma peça solitária de um aparato global que transfigurou todas as relações humanas. Ele que entrou na CIA “para ajudar o seu país”, é, afinal, um filho pródigo de uma paternidade ambivalente, no filme representada pelas personagens do seu austero chefe (Rhys Ifans) e de um sarcástico veterano (Nicolas Cage).

Num plano estritamente ideológico (se é que a fascinante complexidade do filme permite tal separação), podemos questionar Stone pela quase ausência de algum contraponto histórico (que começa, obviamente, na herança do 11 de Setembro). A saber: porque é que a história de Snowden quase não refere a conjuntura geopolítica em que se processa a sua odisseia? O certo é que esse “silêncio” faz parte da visão do mundo do próprio Snowden que, ingenuamente ou não, parece acreditar numa espécie de utópica “purificação” das relações entre política e tecnologia.

Evitando reduzir o mundo a uma dicotomia de “bons” e “maus”, o filme de Stone acaba por possuir o valor radical de uma crónica sobre as contradições do nosso tempo. A notável interpretação de Joseph Gordon-Levitt é um espelho cristalino da saga de Snowden. Em boa verdade, ele queria apenas ser ouvido — o filme confirma que o conseguiu.

  • Publicado em Feature

Snowden

Seja o que for que possamos pensar de Edward Snowden — e da sua decisão de divulgar publicamente documentos sobre os poderes de vigilância da NSA (National Security Agency) norte-americana —, é inevitável reconhecer que qualquer abordagem da sua história não pode ser reduzida a um combate maniqueísta de “prós” e “contras”.

De alguma maneira, terá sido esse o ponto de partida de Oliver Stone, justificando que a sua abordagem, porventura com alguma surpresa para a maioria dos espectadores, adopte uma postura clássica de “filme-biográfico”. Digamos que há em Snowden uma preocupação didáctica, afinal de natureza jornalística, de dar conta do complexo processo profissional, ideológico e moral que vai transformando Edward Snowden, de empenhado e hiper-dotado funcionário da CIA, em alguém que decide romper os compromissos de secretismo que tinha assumido.

Nesta perspectiva, a visão de Stone relança um tema nuclear do seu universo dramático: a tensão, porventura a contradição, que nasce do facto de um determinado indivíduo ser superado pela própria missão que, com espírito mais ou menos transparente, assumiu. Por isso também, no plano da construção dramatúrgica, Snowden não é fundamentalmente diferente de Nascido a 4 de Julho (1989) ou Nixon (1995). Em todos os casos, deparamos com um (anti-)herói que, a certa altura, deixa de “encaixar” no estatuto para que a sua acção foi programada.

Daí que Snowden, o filme, nos deixe uma certeza que, em boa verdade, está para além do juízo moral sobre Edward Snowden que, por certo, cada um de nós poderá formular. Essa certeza é a de que o mundo mudou de estrutura cognitiva e que a possibilidade de grandes impérios de vigilância observarem os cidadãos não pode ser entendida (muito menos julgada) apenas a partir do seu enquadramento político. Porquê? Porque a própria tecnologia envolve já uma configuração política do mundo e das nossas relações.
Este é, enfim, um filme que nos leva a questionar o próprio sistema de relações (entre os seres humanos, da cada ser humano com as instituições, etc.) que vivemos no século XXI. Na consolidação desse sistema, Edward Snowden é “apenas” um peão — por certo, dos mais fascinantes e perturbantes.

cinco estrelas

Título Nacional Snowden Título Original Snowden Realizador Oliver Stone Actores Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo Origem Estados Unidos Duração 134’ Ano 2016

Snowden

Incisivo e direto, «Snowden» é um provocador biopic sobre uma das figuras mais controversas da História recente: Edward Snowden. O antigo espião tornou-se conhecido em 2013, quando divulgou a jornalistas do The Guardian documentos confidenciais do programa secreto de vigilância mundial da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA). O mundo descobriu que, afinal, a sua privacidade talvez não seja assim tão privada.

Oliver Stone sempre colocou o dedo na ferida ao que à América diz respeito e em «Snowden» fá-lo em toda a sua plenitude. Este é um regresso em grande do realizador norte-americano, fazendo-nos lembrar obras como «JFK» (1991), envolvendo o espectador do início ao fim, que até tem uma surpresa (o que é dizer muito num biopic). Para tal, muito contribui o argumento, que tem uma mãozinha do próprio Stone, revelando-nos a viagem psicológica por que passou Snowden, de um patriota inabalável para alguém que acaba por questionar as ações do governo, expondo-o abertamente.

Podemos ver essa desconstrução nos olhos e na voz de Joseph Gordon-Levitt, numa belíssima interpretação do ator, que se entrega ao papel dando-lhe uma credibilidade inquestionável. O ator não está sozinho, contando com um elenco secundário de luxo, com nomes que enchem o ecrã, nos quais se destaca Shailene Woodley, que aproveita qualquer brecha da personagem para brilhar. Melissa Leo apresenta-nos também um sensível desempenho de Laura Poitras, a realizadora de «Citizenfour», que viria a ganhar o Óscar de Melhor Documentário. As alternâncias na narrativa e dinamismo na montagem são, justamente, alguns dos trunfos da obra, que nos mostra o percurso de Snowden enquanto entrava em contacto com Poitras e os dois jornalistas do The Guardian que lutam para publicar a história.

«Snowden» é um biopic envolvente e com uma abordagem versátil, beirando a paranoia e a controvérsia, não fosse este um filme de Oliver Stone. Se Snowden é um herói ou um traidor cada um o dirá, mas algo é certo: este filme é uma vitória cinematográfica.

quatro estrelas

Título Nacional Snowden Título Original Snowden Realizador Oliver Stone Actores Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo Origem Estados Unidos Duração 134’ Ano 2016

Pássaro Branco

Este «Pássaro Branco» bem que tenta voar, mas pouco consegue sair do chão, não conseguindo surpreender. A história passa-se no final da década de 1980 e é narrada pela protagonista, Katrina Connors (Shailene Woodley), uma adolescente que precisa de lidar com muitas novidades ao mesmo tempo: as mudanças do seu corpo, as excentricidades da época e, claro, o misterioso desaparecimento da mãe, Eve Connors (Eva Green). A narrativa, baseada no romance homónimo escrito por Laura Kasischke, aborda sobretudo as várias descobertas interiores que Katrina vai fazendo, paralelamente ao desenrolar de pistas que vão indicando ao telespectador o que poderá ter acontecido com Eve.

A realização de Gregg Araki revela-se bafejada e atenta aos detalhes, adequando-se de forma frutífera com os restantes elementos da obra, que enquadram a história na década retratada, tais como a direção artística ou o guarda-roupa. Porém, o que se destaca mesmo neste âmbito é a banda-sonora, cativante e distintamente escolhida.

O grande senão de «Pássaro Branco» acaba mesmo por ser o argumento, pouco complexo e profundo, que se resume a um mero narrar da vida da protagonista, recorrendo apenas a algumas metáforas reveladoras e relevantes durante o desenvolvimento da trama. Os diálogos são um pouco vazios, resultando em possível tédio para o espetador.

A redenção do filme assenta na interpretação acertada e ousada da jovem Shailene Woodley, que cada vez mais se revela como um nome a ter em conta em Hollywood. Eva Green tem um desempenho algo caricatural em alguns momentos mas não deixa de ser uma presença imponente na obra. Christopher Meloni, que interpreta Brock Connors, o impassível pai da família, tem também uma boa interpretação.

«Pássaro Branco» acaba por ter pouco impacto, não sendo ainda um retrato pertinente da época que o filme aborda. Todavia, não se trata, de todo, de uma obra perdida, revelando uma ambiência sedutora e interpretações marcantes, bem como alguns instantes surpreendentes.

duas estrelas

Título Nacional Pássaro Branco Título Original White Bird in a Blizzard Realizador Gregg Araki Actores Shailene Woodley, Eva Green, Christopher Meloni Origem França/ Estados Unidos Duração 91’ Ano 2014

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