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Actualizado às 3:34 PM, Mar 25, 2020

Mundos Paralelos - Ruth Wilson

A série que pode repetir o sucesso de Game of Thrones na HBO é Mundos Pararelos, adaptação aos livros homónimos de Philip Pullman. No hotel dos Golden Globes, a britânica Ruth Wilson, uma das vilãs de serviço, conta tudo à Metropolis sobre a série e não esconde que queria e deveria fazer mais cinema.

Rui Pedro Tendinha , em Beverly Hills

É a primeira vez que está num projeto de fantasia. Será que encontrou alguma diferença em termos de método de representação?
A grande diferença passa por saber representar com o CGI. Logo no começo decidiu-se trazer técnicos de marionetas para nos ajudar a imaginar os nossos “demons”. De alguma forma, não foi a habitual bola de ténis pendurada num pau...Os animais dos “demons” são a nossa alma e absolutamente fundamentais no que toca à essência de cada personagem. São uma indicação sobre cada pessoa e têm qualidades humanas. Portanto, foi importante trazer humanos para sublinhar as marcações. Diria que a psicologia da minha personagem está muito ligada àquele macaco.

E a Ruth tem algumas qualidades símias?
Isso cabe a vocês perceber...Penso talvez mais para as qualidades felinas...Gostava de ter a aura de uma pantera negra. A sério, nem sei se tenho instintos símios, teria de perceber quais são mesmo os instintos dos macacos. Vejo-me muito como uma loba, uma loba solitária.

Tem alguma ideia porque razão as histórias do fantástico estão a dominar tanto a nossa cultura audiovisual?
Não sei, mas no caso do Philip Pullman uma pessoa olha para os livros e percebe o imenso grau de detalhe. Trata-se de um universo muito adulto, épico e filosófico. Trata-se de Literatura nada fácil e extremamente complexa. Conceitos como a máquina que nos obriga a dizer a verdade ou os próprios “demons” obrigam-nos a debater grandes ideias. Penso que His Dark Materials é tão complexo como qualquer drama humano. Estas histórias são para adultos e crianças, mesmo quando há montes de coisas que não compreendo. O Pullman fala do conceito do pecado e de toda a complexidade do bem e do mal. Com tempo, conseguimos agora explorar tudo o que ele escreveu.

E acredita que esta história de fantasia tem pernas que a liguem para a realidade?
Sim, sem margem para dúvidas. Como o Jack Thorne, o argumentista já disse, esta série tem uma mão cheia de personagens que querem ser grandes à conta de deixarem de ser bons. Sinto que atualmente vivemos numa fase em que nos deparamos com figuras que querem à viva força ser grandes, esquecendo-se de ser bons. A Lyra, no coração da história, representa tudo o que tem a ver com a bondade. Todas as suas escolhas passam por ser uma boa pessoa, fazer as escolhas certas. Neste momento, esquecemo-nos tanto desse comportamento... Mundos Paralelos é uma série muito relevante.

E terá impacto sob o ponto de vista dessa perceção?
Creio que sim. Estou a habituada a pensar que quando faço teatro, as poucas pessoas que vão ver as minhas peças, talvez fiquem tocadas. Se umas 4 ou 5 já ficarem, estou certa que já fiz a diferença. A arte é feita para desafiar as pessoas. Espero que hoje a arte ainda tenha um impacto sob as pessoas. O meu trabalho enquanto atriz passa por aí.

Sente que a indústria de entretenimento está unida nesse objetivo?
Difícil de dizer, mas claro que tudo o que envolveu o movimento #MeToo foi importante. Fez as pessoas reflectir sobre o que se entendia acerca de comportamento aceitável. E agora está a haver uma grande mudança. As pessoas estão a marcar posições, em especial as mulheres, coisa que não acontecia há uns tempos atrás. Se isto vai ser uma mudança a longo prazo, não sei...

Tem recebido propostas com personagens mais fortes, mais empoderados?
Sim, mas não sei até quando isto vai durar. Talvez seja melhor aproveitar...Mas essa mudança sente-se mais atrás da câmara do que à sua frente. O inegável é que existe uma energia que permite que se façam mais histórias escritas por e sobre mulheres. Isso é sensacional. As oportunidades estão a ser dadas...

Mas escolher uma mulher para ser 007 não é sinal de um extremo do politicamente correto?
Não sei, isso vai mesmo acontecer?! Se sim, acho óptimo? Porque não!? Fico encantada!!

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Muitas das suas cenas aqui são com a Daphne Keen, uma criança. Será que às vezes se esquece que ela não é uma adulta?
Tantas vezes, sou terrível nisso e passo a vida a dizer palavrões e a ter que colocar dinheiro de multa numa caixa. Mas a verdade é que ela é uma atriz brilhante e uma pessoa realmente profissional. O que é curioso é que tenho cenas em que sou mesmo mázinha para ela...No começo da rodagem disse-lhe que isso iria acontecer mas a Daphne está-se a marimbar - é uma durona! Encontrei uma atriz à minha altura. (risos)

Tem feito mais televisão do que cinema. Gostaria de equilibrar mais as coisas?
Sim, na verdade, sim! O meu desejo é mesmo trabalhar com cineastas de verdade. Sou fanática por cinema! Sou daquelas cinéfilas que ama os autores, mas que vai atrás das personagens e da narrativa. De vez em quando, sinto a necessidade também de subir a um palco porque sou uma atriz física, alguém que precisa soltar a voz e o corpo. Quero estar em todos os meios.

O que acontece quando vê uma atriz a representar um papel que poderia ter sido para si?
Tenho uma péssima memória mas já me aconteceu isso...Muitas vezes, o tempo passa e eu esqueço-me que poderia ter sido eu a ficar com aquele ou este filme. Nunca me aconteceu aquele sentimento de raiva de ter querido realmente estar naquele projeto, mas claro que um dia irá acontecer. Mas fico sempre intrigada com aquilo que cada ator traz para cada papel. Conto-lhe um segredo: gosto de todas as atrizes!

[Entrevista publicada na revista Metropolis nº72 - Novembro 2019]

Mundos Paralelos - LUCIAN MSAMATI

Parte muito importante da trama de «Mundos Paralelos», os “Gyptians” são comandados pela personagem de Lucian Msamati, um líder justo mas também bastante teimoso. John Faa e companhia vão ser muito importantes para o percurso de Lyra (Dafne Keen), a protagonista dos livros imaginados por Philip Pullman. Com a série super aguardada a chegar finalmente à HBO Portugal, o ator analisa a experiência e o que podemos esperar da adaptação de Jack Thorne.

Quem é o John Faa?
O John Faa é o rei dos “Gyptians” do Oeste. Ele tem uma relação duradoura e um grande respeito pelo Lord Asriel, porque ele sempre lutou pelos direitos dos “Gyptians”, ou pelos direitos dos outsiders. Quando começamos a história, ele não foi um rei guerreiro por uns tempos, mas, por causa dos eventos da história, tem de voltar ao ativo. Ele é forçado a pegar de novo no martelo e a “esmagar cabeças”.

Que tipo de homem é ele?
Eu diria que o John é um indivíduo forte. Ele é incrivelmente íntegro. Alguns diriam que ele é íntegro ao ponto de ser um pouco teimoso. Mas ele tem de ser um líder muito firme. Muito firme e justo, e é muito respeitado por todos. Também é uma espécie de figura paternal “não oficial” para toda a gente. É algo que tem a ver com o facto de ele ser uma espécie do líder não absurdo que todos gostaríamos de ter. Um homem que teve de fazer coisas com as mãos, que teve de as sujar para levar a cabo os seus objetivos. São pessoas sólidas, trabalhadoras. O lema delas é “trabalhos, fazemos as nossas coisas, respeitamos as leis; respeita-nos”.

Quem são os “Gyptians”?
Somos os outsiders. Penso que os nossos parentes mais próximos no mundo real são, obviamente, os Ciganos. Somos uma mistura de pessoas, culturas e backgrounds, que criámos uma cultura própria fora daquela que pode ser considerada a cultura mainstream. Vivemos de forma honrada e verdadeira à nossa maneira há muito, muito tempo. Mas houve sempre uma relação complicada entre os “Gyptians” e o resto da sociedade. Há muita suspeição à volta deles, em grande parte infundada, simplesmente porque são diferentes. As nossas hierarquias são diferentes, a nossa cor também é diferente. Somos uma família verdadeiramente global, olhamos uns pelos outros, tomamos conta uns dos outros. Também temos crenças espirituais muito fortes, que estão fora daquelas que são consideradas mainstream pela Autoridade. Temos séculos de história e muito orgulho nisso.

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Para quem possa não conhecer o primeiro livro que serviu de inspiração à série, em que mundo acontece?
Interessante. Bem, acho que acontece num universo paralelo que se parece muito com o nosso, mas que talvez por causa da história, cultura, religião, ficou preso nos anos 50. Imagina que o Movimento de Direitos Civis nunca tinha acontecido, por exemplo. Imagina que o Império Britânico se mantinha como antes. Ou que as liberdades políticas e religiosas estavam congeladas como eram no século XVIII, e não conseguíamos seguir em frente. Sim, é nesse mundo que estamos. É muito parecido com o nosso, mas parece atrasado 50, 60, 70 anos. E parece que vão passar outros tantos anos até ser capaz de avançar.

O que gostaste no argumento?
Bem, o principal motivo é que sou um grande fã do Jack Thorne. Tive o privilégio de trabalhar com ele anteriormente, então já sei que o seu nome é garantia de qualidade. Foi uma combinação perfeita entre o seu trabalho e o do Philip Pullman, acaba por ser um par feito no céu artístico. Sabia desde logo que ia ser um trabalho feito com uma fé e respeito incríveis pelo material, mas que também não teria medo de aproveitar as possibilidades da televisão. Há sempre uma luta com as adaptações literárias, porque estás a lidar com a imaginação de outra pessoa. Acho que as melhores adaptações, e mesmo que isso seja subjetivo, as melhores e mais bem-sucedidas adaptações são aquelas que apelam ao espírito das personagens, ao espírito da história. Estranhamente, é apenas quando vemos a adaptação que dizemos “Sim, o espírito está completamente ali”. Não nos importamos que o ator não seja parecido com aquilo que imaginámos, se o espírito da personagem estiver lá... Estou convencido!

Qual acreditas ser o “coração” desta história?
À medida que a tecnologia avança, sentimos que estamos na idade da ciência, na idade dos computadores. Tudo está a uma velocidade supersónica, mais e mais possibilidades, mais espaços que eram místicos ou mágicos estão a ser superados. Mas o mesmo não pode ser dito da nossa moral, das grandes questões sobre a vida, a morte, o humor, a honra. São as coisas eternas, vontades fundamentais que temos enquanto pessoas, e elas continuam sem resposta, pelo menos para mim. Estes livros falam sobre o momento em que uma criança se torna consciente. O momento em que percebemos que o mundo é mais do que aquilo que os nossos pais nos disseram. Quero dizer que é sobre a revolta da juventude, mas é mais do que isso. É mais sobre a fome de continuar: “Não, a dúvida e a fé coexistem, e isso é OK. Temos de desafiar os absolutismos”.

[Entrevista publicada na revista Metropolis nº72 - Novembro 2019]

Mundos Paralelos: Está encontrada a próxima “Guerra dos Tronos”? (review)

A METROPOLIS teve acesso antecipado a quatro episódios de «Mundos Paralelos», cujo piloto é disponibilizado no catálogo da HBO Portugal durante a madrugada de domingo para segunda. Já estão garantidas duas temporadas e a primeira tem um total de oito episódios.

Não consigo esquecer, quando me preparo para escrever a análise de «Mundos Paralelos» [«His Dark Materials» no original], o olhar dos meus amigos em conversas sobre a adaptação a série da trilogia literária de Philip Pullman, numa parceria da HBO com a BBC. Um misto de entusiasmo e terror, seguido de uma frase quase suspirada que, salvo uma ou outra alteração, resultava sempre em algo como “espero que não estraguem tudo como no filme”. Sim, o filme! Quem já se esqueceu da promessa de uma trilogia no cinema que caiu por terra após os desastrosos resultados em bilheteira e na crítica de «A Bússola Dourada» (2007)? Nem o elenco de luxo, estrelado por Daniel Craig e Nicole Kidman, valeu a realização de uma sequela.

O próprio George R.R. Martin, o homem por detrás dos livros que deram origem à popularíssima «A Guerra dos Tronos», acabou por tirar ilações desta “tragédia”. Em entrevista à TIME, em 2017, enquanto explicava porque tinha preferido a criação de uma série a uma sequência de filmes, Martin lembrou o ocorrido com Pullman: “Fazemos um filme e se for um sucesso, fazemos mais [disseram produtores interessados num feature film]. Bem, isso nem sempre funciona, como descobrimos com His Dark Materials de Philip Pullman. Se o primeiro não resultar, nunca teremos o resto da história”. Para o autor, a televisão era garantia de maior liberdade, mas temas mais problemáticos dificilmente seriam “aceitáveis” em canal aberto, nomeadamente as cenas de incesto entre Lannisters.

Curiosamente, uma das críticas ao filme de 2007, protagonizado por Dakota Blue Richards, era, aliás, a infantilização da história de Pullman para abranger um público mais familiar. Martin acabaria por encontrar a sua casa de sonho na HBO, onde também agora His Dark Materials procuram, finalmente, justiça.

Assim como aconteceu com «A Guerra dos Tronos», também os criadores de «Mundos Paralelos» procuraram a ajuda do autor, no caso Pullman, para construir a série. Podemos ler em várias entrevistas dos principais produtores que uma das principais ajudas residiu na abordagem a personagens secundárias, fora da sua interação imediata com Lyra – aqui interpretada por Dafne Keen, que brilhou recentemente em «Logan» (2017). Algo que, diga-se, o filme tentou explorar sem especial êxito. Será que a série terá melhor sorte? Tudo indica que sim.

Cada temporada de «Mundos Paralelos» deverá compreender um livro da trilogia, pelo que a primeira incidirá sobre Os Reinos do Norte [Northern Lights no original]. A segunda já se encontra em filmagens, em grande parte porque a ação acontece num curto espaço de tempo e, com atores tão jovens como Dafne Keen ou Lewin Lloyd (o melhor amigo Roger), as personagens sofreriam alterações demasiado rápido.

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Mundos Paralelos: uma série entusiasmante

Lyra (Keen), de 12 anos, vive num respeitado centro académico, num planeta diferente do nosso, onde a alma das pessoas assume a forma de animais, conhecidos como daemons. Rebelde por natureza, vê-se constantemente envolvida em desafios à autoridade e, como explicitado pelo seu daemon Pan, não há porta trancada que os trave. Apresentações feitas, a ação depressa de desenrola até à chegada do tio Lord Asriel (James McAvoy) e, posteriormente, de Marisa Coulter (Ruth Wilson), que decide contratar a adolescente como assistente e levá-la para uma Londres distópica. Ao comando dos destinos da sociedade, e oposto a qualquer heresia, o Magistério é a entidade máxima e opressora que tenta controlar tudo e todos, sem olhar a meios para atingir os seus fins. O regime religioso e totalitário lembra obras como The Handmaid’s Tale e 1984, ainda que destinado a um público jovem adulto. No entanto, nem por isso as suas atitudes são mais kid friendly, como rapidamente nos apercebemos.

Assim como nos livros, Lyra tem a responsabilidade de guardar uma (de seis) Bússola Dourada, que tem o poder de lhe dizer sempre a verdade, mas lê-la revela-se uma tarefa bastante árdua e sem representação visual – no filme de 2007 existe apenas uma e Lyra consegue decifrá-la com facilidade, com a realização a recorrer a efeitos visuais para mostrar o que ela vê. A posse de tão importante artefacto resulta também numa constante relutância a confiar nos outros e conduz a personagem à solidão e a desabafos apenas com o seu daemon. Uma realidade bem explorada pela série, que se demora um pouco mais – menos do que nos livros, é certo – em cada um dos locais por onde ela passa depois de Oxford.

Fazer esquecer Nicole Kidman não é uma tarefa nada fácil, mas Ruth Wilson [mais conhecida sobretudo por «The Affair»] cumpre essa exigente missão com naturalidade. A sua Mrs. Coulter tem, obviamente, similaridades com a de Kidman – até porque a origem é a mesma –, mas a atriz tem a capacidade, que já se esperava, de desenvolver a personagem à sua medida. Conta ainda com a ajuda de um argumento mais sólido e de rasgos bem conseguidos de realização, da responsabilidade sobretudo de Tom Hooper (vencedor de um Óscar por «O Discurso do Rei» (2011)), para tornar Coulter mais complexa e as suas motivações um pouco mais claras e verosímeis. Outra das personagens irresistíveis da série é Lee Scoresby, interpretado pelo épico Lin-Manuel Miranda, o homem por detrás do musical Hamilton.

Embora alguns momentos narrativos possam parecer demasiado óbvios – insinuando a resposta ao espectador em vez de a apresentar depois de surpresa –, a verdade é que os trejeitos do argumento e da realização apresentam resultados imediatos. O discurso depois não tem de ser demorado nem ir ao detalhe para se auto-explicar; fora dos livros é muito difícil descrever os pormenores com o mesmo nível de cuidado, e esperar que quem vê vá chegando lá de forma natural.

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Comparar a complexidade de «A Guerra dos Tronos» com a recém-chegada «Mundos Paralelos» é imprudente e uma falácia muito perigosa, mas ajuda-nos a perceber melhor o desafio que o argumentista Jack Thorne e companhia se propõem. Bem como os níveis de popularidade que podem ambicionar (embora em menor escala). É certo que estamos perante universos bastante diferentes, mas o cuidado na idealização de «A Guerra dos Tronos» pode desde já deixar os leitores mais descansados. E, claro está, como esquecer as críticas ferozes de leitores da saga de Martin à série, apesar de todo o seu sucesso?

«Mundos Paralelos» aprende com os erros do filme e respeita mais os livros, sem os idolatrar a tal ponto que castigue o desenvolvimento orgânico da história. Toma liberdades criativas que encontram facilmente justificação, ainda que não esqueça de onde partiu e onde quer chegar – mas, nesta altura, é cedo para dizer se irá seguir a “escuridão” dos livros ou suavizar um pouco a catástrofe para não chocar as massas. A forte crítica social está lá, bem como a construção das personagens em camadas, em vez de simplesmente as demonizar em prol da ação. Destaque também para os efeitos visuais bem conseguidos, o que não é surpresa atendendo ao histórico da HBO na última década.

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