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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Mundos Paralelos: Está encontrada a próxima “Guerra dos Tronos”? (review)

A METROPOLIS teve acesso antecipado a quatro episódios de «Mundos Paralelos», cujo piloto é disponibilizado no catálogo da HBO Portugal durante a madrugada de domingo para segunda. Já estão garantidas duas temporadas e a primeira tem um total de oito episódios.

Não consigo esquecer, quando me preparo para escrever a análise de «Mundos Paralelos» [«His Dark Materials» no original], o olhar dos meus amigos em conversas sobre a adaptação a série da trilogia literária de Philip Pullman, numa parceria da HBO com a BBC. Um misto de entusiasmo e terror, seguido de uma frase quase suspirada que, salvo uma ou outra alteração, resultava sempre em algo como “espero que não estraguem tudo como no filme”. Sim, o filme! Quem já se esqueceu da promessa de uma trilogia no cinema que caiu por terra após os desastrosos resultados em bilheteira e na crítica de «A Bússola Dourada» (2007)? Nem o elenco de luxo, estrelado por Daniel Craig e Nicole Kidman, valeu a realização de uma sequela.

O próprio George R.R. Martin, o homem por detrás dos livros que deram origem à popularíssima «A Guerra dos Tronos», acabou por tirar ilações desta “tragédia”. Em entrevista à TIME, em 2017, enquanto explicava porque tinha preferido a criação de uma série a uma sequência de filmes, Martin lembrou o ocorrido com Pullman: “Fazemos um filme e se for um sucesso, fazemos mais [disseram produtores interessados num feature film]. Bem, isso nem sempre funciona, como descobrimos com His Dark Materials de Philip Pullman. Se o primeiro não resultar, nunca teremos o resto da história”. Para o autor, a televisão era garantia de maior liberdade, mas temas mais problemáticos dificilmente seriam “aceitáveis” em canal aberto, nomeadamente as cenas de incesto entre Lannisters.

Curiosamente, uma das críticas ao filme de 2007, protagonizado por Dakota Blue Richards, era, aliás, a infantilização da história de Pullman para abranger um público mais familiar. Martin acabaria por encontrar a sua casa de sonho na HBO, onde também agora His Dark Materials procuram, finalmente, justiça.

Assim como aconteceu com «A Guerra dos Tronos», também os criadores de «Mundos Paralelos» procuraram a ajuda do autor, no caso Pullman, para construir a série. Podemos ler em várias entrevistas dos principais produtores que uma das principais ajudas residiu na abordagem a personagens secundárias, fora da sua interação imediata com Lyra – aqui interpretada por Dafne Keen, que brilhou recentemente em «Logan» (2017). Algo que, diga-se, o filme tentou explorar sem especial êxito. Será que a série terá melhor sorte? Tudo indica que sim.

Cada temporada de «Mundos Paralelos» deverá compreender um livro da trilogia, pelo que a primeira incidirá sobre Os Reinos do Norte [Northern Lights no original]. A segunda já se encontra em filmagens, em grande parte porque a ação acontece num curto espaço de tempo e, com atores tão jovens como Dafne Keen ou Lewin Lloyd (o melhor amigo Roger), as personagens sofreriam alterações demasiado rápido.

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Mundos Paralelos: uma série entusiasmante

Lyra (Keen), de 12 anos, vive num respeitado centro académico, num planeta diferente do nosso, onde a alma das pessoas assume a forma de animais, conhecidos como daemons. Rebelde por natureza, vê-se constantemente envolvida em desafios à autoridade e, como explicitado pelo seu daemon Pan, não há porta trancada que os trave. Apresentações feitas, a ação depressa de desenrola até à chegada do tio Lord Asriel (James McAvoy) e, posteriormente, de Marisa Coulter (Ruth Wilson), que decide contratar a adolescente como assistente e levá-la para uma Londres distópica. Ao comando dos destinos da sociedade, e oposto a qualquer heresia, o Magistério é a entidade máxima e opressora que tenta controlar tudo e todos, sem olhar a meios para atingir os seus fins. O regime religioso e totalitário lembra obras como The Handmaid’s Tale e 1984, ainda que destinado a um público jovem adulto. No entanto, nem por isso as suas atitudes são mais kid friendly, como rapidamente nos apercebemos.

Assim como nos livros, Lyra tem a responsabilidade de guardar uma (de seis) Bússola Dourada, que tem o poder de lhe dizer sempre a verdade, mas lê-la revela-se uma tarefa bastante árdua e sem representação visual – no filme de 2007 existe apenas uma e Lyra consegue decifrá-la com facilidade, com a realização a recorrer a efeitos visuais para mostrar o que ela vê. A posse de tão importante artefacto resulta também numa constante relutância a confiar nos outros e conduz a personagem à solidão e a desabafos apenas com o seu daemon. Uma realidade bem explorada pela série, que se demora um pouco mais – menos do que nos livros, é certo – em cada um dos locais por onde ela passa depois de Oxford.

Fazer esquecer Nicole Kidman não é uma tarefa nada fácil, mas Ruth Wilson [mais conhecida sobretudo por «The Affair»] cumpre essa exigente missão com naturalidade. A sua Mrs. Coulter tem, obviamente, similaridades com a de Kidman – até porque a origem é a mesma –, mas a atriz tem a capacidade, que já se esperava, de desenvolver a personagem à sua medida. Conta ainda com a ajuda de um argumento mais sólido e de rasgos bem conseguidos de realização, da responsabilidade sobretudo de Tom Hooper (vencedor de um Óscar por «O Discurso do Rei» (2011)), para tornar Coulter mais complexa e as suas motivações um pouco mais claras e verosímeis. Outra das personagens irresistíveis da série é Lee Scoresby, interpretado pelo épico Lin-Manuel Miranda, o homem por detrás do musical Hamilton.

Embora alguns momentos narrativos possam parecer demasiado óbvios – insinuando a resposta ao espectador em vez de a apresentar depois de surpresa –, a verdade é que os trejeitos do argumento e da realização apresentam resultados imediatos. O discurso depois não tem de ser demorado nem ir ao detalhe para se auto-explicar; fora dos livros é muito difícil descrever os pormenores com o mesmo nível de cuidado, e esperar que quem vê vá chegando lá de forma natural.

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Comparar a complexidade de «A Guerra dos Tronos» com a recém-chegada «Mundos Paralelos» é imprudente e uma falácia muito perigosa, mas ajuda-nos a perceber melhor o desafio que o argumentista Jack Thorne e companhia se propõem. Bem como os níveis de popularidade que podem ambicionar (embora em menor escala). É certo que estamos perante universos bastante diferentes, mas o cuidado na idealização de «A Guerra dos Tronos» pode desde já deixar os leitores mais descansados. E, claro está, como esquecer as críticas ferozes de leitores da saga de Martin à série, apesar de todo o seu sucesso?

«Mundos Paralelos» aprende com os erros do filme e respeita mais os livros, sem os idolatrar a tal ponto que castigue o desenvolvimento orgânico da história. Toma liberdades criativas que encontram facilmente justificação, ainda que não esqueça de onde partiu e onde quer chegar – mas, nesta altura, é cedo para dizer se irá seguir a “escuridão” dos livros ou suavizar um pouco a catástrofe para não chocar as massas. A forte crítica social está lá, bem como a construção das personagens em camadas, em vez de simplesmente as demonizar em prol da ação. Destaque também para os efeitos visuais bem conseguidos, o que não é surpresa atendendo ao histórico da HBO na última década.

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