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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

«The Little Drummer Girl» - crítica

Depois do enorme sucesso que foi «The Night Manager», o canal AMC volta a dar as mãos à BBC em mais uma superprodução televisiva com o título «The Little Drummer Girl», mais uma pérola da colheita de John Le Carré. A nova mini-série é baseada num romance homónimo, considerado uma das grandes obras do mestre de espionagem.
À semelhança de «The Night Manager», «The Little Drummer Girl» é uma série que tem a produção da Ink Factory, uma produtora que tem como principais responsáveis Simon e Stephen Cornwell, os filhos de John Le Carré. Com apenas alguns projectos desde a sua concepção, a produtora tem sido eficaz nas suas escolhas para cinema e televisão e especialmente nas adaptações das obras literárias do progenitor. Além dos títulos acima referidos a Ink Factory produziu «O Homem Mais Procurado», em 2014, realizado por Anton Corbijn e com Philip Seymour Hoffman num dos seus últimos filmes. Em 2018 vamos ver a estrela de «The Little Drummer Girl», Florence Pugh, na comédia com coração «Fighting with My Family», uma produção da Ink Factory baseada em factos verídicos, assinada por Stephen Merchant e que inclui um super elenco com nomes como Dwayne Johnson, Lena Headey, Vince Vaughn e Nick Frost. Após o sucesso de «The Little Drummer Girl», a série que deslumbrou o público britânico no final de 2018, a Ink Factory já está em pré-produção com a AMC, a BBC e a Paramount TV para mais uma adaptação de John Le Carré para a televisão, aguarda-se com expectativa «The Spy Who Came in From the Cold».
«The Little Drummer Girl» é integralmente realizada por Park Chan-wook. Para esta produção, o autor sul coreano teve à sua disposição actores fantásticos, uma história envolvente e meios técnicos para imprimir o seu cunho estilístico pautado pela violência e sensualidade – é quase como se estivéssemos a ver uma longa-metragem dividida em seis partes. É realmente “estranho” encontrarmos Park Chan-wook na direção desta mini-série, mas a escolha assenta-lhe que nem uma luva pela dimensão da história de espionagem a paredes meias com um romance e representações que abordam a vida como uma performance de palco onde a dissimulação e o “faz de conta” são ferramentas essenciais na luta pela vida e a morte. A câmara de Park Chan-wook é tão enigmática e incisiva quanto a história que decorre perante o nosso olhar atento.
Em «The Little Drummer Girl» temos os predicados de um dos maiores nomes deste género literário mas também um elenco estrelar composto por Florence Pugh, Alexander Skarsgård e Michael Shannon nos principais papéis, sendo que há personagens que foram fundidos no processo de adaptação por Claire Wilson e Michael Lesslie do livro para o ecrã.

The Little Drummer Girl Michael Shanno

A história desenrola-se entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Um atentado terrorista na Alemanha coloca no terreno a Mossad (os serviços secretos israelitas) que tem como principal objectivo capturar um operativo palestiniano da OLP responsável por vários ataques mortíferos em Israel e na Europa. Para este efeito utilizam uma táctica invulgar, no centro da cilada está uma jovem actriz britânica que é colocada perante um dilema mortal mas não hesita embarcar numa trama alucinante. Florence Pugh, que escancarou as portas do sucesso com a sua performance magnetizante em «Lady Macbeth», interpreta nesta mini-série o papel de Charlie. Sendo incomum termos uma figura feminina desta dimensão nas obras de John Le Carré, a actriz britânica mostra ter sangue na guelra e veste da cabeça aos pés o papel em mais uma representação assombrosa que, do ponto de vista dramático, dispara em vários sentidos arrastando-nos sempre com ela numa constante flutuação de emoções. Michael Shannon, no papel de Martin Kurtz, o agente da Mossad, é uma figura meticulosa e o principal “encenador” da cilada ao terrorista da OLP. Alexander Skarsgård fecha a linha da frente em mais uma representação segura e sem falhas. Nos papéis secundários ainda encontramos boas interpretações em personagens com carisma que são facilitadores na ponte entre o ecrã e a audiência, casos de Michael Moshonov, Clare Holman ou Amir Khoury.

Os temas confundem-se com a nossa actualidade e, nesse sentido, parecem quase imutáveis mas, de forma subtil e sucinta, a dupla de argumentistas, Claire Wilson e Michael Lesslie, explanam os pontos de vista enquadrando-os na longa história do conflito israelo-palestiniano. O espectador rapidamente se apaixona pelo enredo e o visual de pura sedução. «The Little Drummer Girl» mescla o drama de época, o clima político, o sentido de dever e uma paixão fervorosa.

[artigo publicado na revista Metropolis nº67]

  • Publicado em TV

Fahrenheit 451 - crítica

Convenhamos que a adaptação do clássico de Ray Bradbury assinada por Ramin Bahrani está longe do misto de inquietação e beleza da versão que François Truffaut realizou em 1966 (com Oskar Werner e Julie Christie). Ainda assim, esta é uma curiosa actualização da fábula de um futuro em que os livros estão proibidos, agora num cenário social assombrado pelo triunfo esmagador das vias de comunicação de raiz televisiva e, genericamente, virtual. Com Michael B. Jordan e Michael Shannon, tem chancela da HBO.

Entrevista a Guillermo Del Toro - A forma da água

Guillermo del toro tem dedicado a vida a fábulas e criaturas fantásticas.

Desde o início da carreira com «Cronos» (1993) até «A Forma da Àgua» (2017), candidato a triunfar nos óscares deste ano, o trabalho do cineasta mexicano tem narrado histórias mágicas recheadas de magia e surpresa. Passado em plena Guerra Fria, o filme leva o espetador para o interior dum laboratório secreto do governo norte-americano onde acaba de chegar uma criatura anfíbia com poderes extraordinários. A sua relação com Elisa, uma empregada de limpeza muda, ameaçada pelo agente impiedoso Strickland e acarinhada pelo vizinho Giles vai levar a consequências trágicas. Filmado durante o outono de 2016 em Toronto, Canadá, o filme teve a sua primeira apresentação mundial no festival de Veneza do ano passado. Em plena rodagem, o realizador fala-nos sobre esta história de amor única.

Donde surgiu a ideia para este filme?

Nos anos 1990 pensei na ideia de fazer um romance dum romance com um anfíbio, como um filme de ficção científica. Era sobre exploradores que vão para a Amazónia. Ninguém ficou entusiasmado com a ideia e quis fazer o filme. Mas a ideia ficou na minha cabeça, pois um dos motivos principais das histórias de encantar é a história dum peixe que concede três desejos e um pescador ou a mulher dum pescador que deixa o peixe fugir. Queria fazer um filme sobre uma criatura anfíbia que transforma a vida de quem a salvar, duma forma mágica. Escrevi em parceria com o Daniel Krauss uma obra chamada Trollhunters e estávamos a tomar o pequeno almoço em Toronto quando preparava «Batalha do Pacífico» e ele disse-me, Sabes, tenho esta ideia sobre um governo esconder um segredo acerca duma criatura anfíbia, e uma empregada de limpeza construir uma relação de amizade com ela. Respondi-lhe, Compro-te essa ideia. Não digas mais nada. Não escrevas nada. Disse-lhe, faz uma sinopse e diz o preço. Ele assim o fez, comprei-lhe e garanti-lhe a co-autoria. Isso foi há 4 ou 5 anos atrás. Pensei-a como uma história de amor, comecei a escrevê-la e decidi que devia passar-se em 1962, que marca o fim do sonho americano. A guerra do Vietname está em curso, o Kennedy vai ser morto, todos pensam que o futuro vai ser grandioso. É o momento no qual acho que tudo começou a mudar e seria a altura ideal para algo primitivo e espiritualmente poderoso como a criatura aparecer. É também uma altura em que tipos como o Strickland são brutais, acho que isso ligava-se muito à atualidade.

A Forma da Água

É um filme de monstros, mas o monstro não é aquilo que pensamos ser.

Claro que sim. A ideia era, podemos contar a história da criatura duma outra forma? Uma imagem clássica é a do monstro a levar a miúda, o que, habitualmente é mau sinal. No final deste filme, quando a criatura leva a mulher, é belíssimo. Por isso a ideia era pegar nas convenções e dar-lhes um toque diferente. Normalmente, a personagem do Michael Shannon seria um herói. Um tipo bonito num fato elegante que trabalha para o Governo.

Como vê a odisseia de Elisa?

Para mim, ela nasceu num lugar onde não se sente integrada e a essência da história de amor e de encantar é que existem duas viagens que os heróis e as heroínas fazem nestas histórias mágicas: para se encontrarem - o seu lugar no mundo - ou encontrar o seu lugar num mundo alternativo onde possam viver. Nesses desafios pode caber em qualquer história de encantar alguma vez escrita. Elisa cumpre-os todos. É uma desalinhada e é, literalmente, invisível, a limpar casas de banho e apanhar o lixo, ninguém a vê. Ela torna-se muito forte e enfrenta uma figura muito poderosa. É muito corajosa, torna-se assim. E também, encontra o seu lugar no mundo e alguém que a respeite. Ela é muito bonita.

A forma da água - Elisa (Sally Hawkins)

E para uma personagem que nunca fala – ela é muda – tem a melhor fala do filme.

Estou mesmo a falar de amor e da forma de o compreender. Pensei, o momento em que te apaixonas não é o momento em que se trocam olhares, mas sim o momento em que se olham e tu existes. Acho que ela foi invisível durante toda a sua vida e de repente conhece a criatura e esta está feliz. Observa-a e não espera nada em troca. Apenas está feliz por olhar para ela. Muitos têm essa experiência com os seus cães e gatos. Mas aqui o sentimento é mais profundo dado o reconhecimento. Nas histórias de encantar o mais importante é o reconhecimento da nossa essência. Conhecer-nos a nós próprios é o mais importante nessa viagem. Foi um discurso que gostei muito de escrever porque é o que ela diz. E a essência do herói é alguém que diz, Não posso deixar que isto aconteça. Não têm a ver com não ter medo, é Não posso permitir isto, mesmo que não sobreviva. Há uma criança no meio da estrada e os carros não param de passar, vou morrer se a salvar, mas vou fazê-lo.

Como foram as cenas com a Sally e com o Doug?

Filmámos e ao 7ºtake já estava escuro. Os meus óculos estavam embaciados. Este foi um daqueles argumentos que quando terminei, estava a chorar. Emociono-me com facilidade. Aconteceu o mesmo com Labirinto de Fauno (2006) e «Nas Costas do Diabo» (2001). «Crimson Peak: A Colina Vermelha» (2015) para mim foi muito emotivo, porque tudo o que faço são histórias de encantar.

Como se desenvolveu o design da criatura?

Levou três anos a desenhá-la e a construí-la. Passei a maior parte do tempo a financiá-la. Gastei mais de 200 mil dólares na sua criação, do meu próprio bolso. Precisava dum ano de design antes da criatura ser feita. E depois foi moldada da forma tradicional, Tivemos três escultores a trabalhar de forma ininterrupta. E depois voltamos a pintá-la toda uma série de vezes. A forma como está agora leva-nos a parar de ver a criatura e começar a ver a personagem.

Falou-nos da atualidade da história. Isso pesou muito quando a escreveu?

Pensei nisso. Está desenhado para ser dessa forma. As histórias deste género surgem em tempos bem difíceis. Aparecem em momentos de fome, guerra e pestilência. Não foram escritas para crianças. São fontes de tradição oral. Falam de corrupção real ou reafirmação do poder do monarca. Cada uma das narrativas de encantar separase em duas categorias: uma que reafirma o poder instituído e a outra que o subverte. O mesmo se passa nos filmes de terror e nos de ficção científica. Se estivesse a fazer um filme de género de filme o herói seria o Strickland. Protagonista, bem vestido e com uma boa apresentação, elegante e capaz. E ele tem de controlar a criatura que está solta nos corredores do local onde está. Essa é a história habitual, sabe? Se adora monstros, quer contar a outra história. Fiz o «Hellboy» (2004), «Batalha do Pacífico» (2013) e construí sempre instalações de raiz, que são espetaculares, mas conto a história sempre do ponto de vista dos agentes. Agora quis contar a história da perspetiva das empregadas de limpeza, as que arrumam e limpam os locais onde esses funcionários trabalham.

O filme tem muitos momentos de humor.

Acho que isso está presente. Até o design tem humor. Algumas pessoas acham que as minhas histórias são dolorosas, mas o tom do filme são os atores. O diálogo e tudo isso. Sim, claro que isso também se percebe no look do filme e na cor e na fotografia: se a abordagem deste filme fosse com a mesma fotografia que utilizámos em «Crimson Peak: A Colina Vermelha» (2015), o humor evaporava. Se a abordares com um tipo de design super estilizado, como no filme «Doutor EstranhoAmor» (1964), o humor desaparece. Se o fizeres com algum realismo e toques de magia, é isso que quero.

Já disse que escreveu este argumento para os atores. Em relação a Michael Shannon: desde quando teve a certeza que ele era o ator ideal para o papel de Strickland?

Escrevi o argumento a pensar no Michael. Pensava mesmo que ele podia ser o Strickland, mas nunca falei com ele antes de iniciarmos o casting. Foi o primeiro ator que abordámos. Fui ter com ele mas ele disse-me que estava a acabar outro filme e depois ia fazer teatro. Que só iria ler o argumento daí a mês e meio. Apostei tudo que ele iria gostar do argumento. Nunca tens a certeza. Com o Richard Jenkins aconteceu o mesmo: não tinha a certeza se ele aceitaria participar neste tipo de filme mas depois lembrei-me que ele já tinha participado em filmes como «A Casa na Floresta» ou «A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas». Pensei para mim: Vou arriscar.

Qual o significado da projeção de «Os Amores de Ruth» (1960) na sala de cinema durante o filme?

Toda a gente fala da criatura como sendo um deus. Quis muito ter uma história sobre uma mulher cheia de fé que fizesse uma transgressão, mas não quis citar nenhum dos clássicos bíblicos que todos conhecem. Acho que se torna chato quando citas coisas que todos conhecem. Torna-se meta. Não quis fazer isso, mas antes citar um filme bíblico pouco relevante.

Escreveu todas estas referências.

Levou nove meses. A última fase do argumento foi em 2014/15. A Fox Searchlight entrou no projeto em 2014 e eles sabiam tudo o que iria acontecer pois já tinha uma boa parte do guião. Tinha um esboço completo já pronto e disse-lhes, Quero uma lista de todos os filmes feitos pela Fox e as canções que posso utilizar pois não tenho dinheiro para pagar os direitos. Vi bons e maus filmes. Queria algo que não fosse popular. Posso escolher a Carmen Miranda, posso optar por «Os Amores de Ruth» (1960) e «Carnaval do Amor» (1958) pois a maioria nunca ouviu falar deles.

Animais Noturnos

«Animais Noturnos» é um elegante e provocador thriller, que nos prende na sua rede de sub-tramas entrelaçadas. Susan Morrow (Amy Adams) é uma bem-sucedida negociadora de arte, mas sente-se vazia. Entretanto, recebe um romance, escrito pelo seu ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), com quem já não tem qualquer contacto. O livro é dedicado a Susan e é muito violento e emocionalmente devastador, o que Susan interpreta como uma vingança simbólica, numa leitura que a obriga a enfrentar o seu passado e as escolhas que a levaram até a vida que hoje tem, bem como à própria relação que manteve com o autor.

Tom Ford é um esteta na forma e no conteúdo, providenciando um filme bem estruturado, que consegue apresentar, de forma pertinente e harmoniosa, diferentes momentos de uma mesma história, para que se consiga construir uma melhor construção da identidade da protagonista. O cineasta também assina o argumento, a partir do romance “Tony and Susan”, de Austin Wright, conseguindo descomplicar no grande ecrã uma narrativa que poderia ficar confusa, realçando-se uma montagem acertada de Joan Sobel em alternar as histórias de uma forma suave e cadenciada. Destaca-se ainda em «Animais Noturnos» uma fotografia sagaz e intimista, assinada por Seamus McGarvey, bem como uma banda-sonora de Abel Korzeniowski que imprime o tom certo na altura certa.

O elenco da obra é fastuoso, encabeçado pela interpretação sensível e minuciosa de Amy Adams e um Jake Gyllenhaal no fio da navalha, roubando todas as cenas. Ao longo do filme, assistimos ainda a um desfile de nomes como Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Laura Linney, Michael Sheen, Armie Hammer e Isla Fisher, em que os dois primeiros têm mais espaço para explorar um maior espectro dramático, garantindo desempenhos vistosos.

Com uma história dentro da história, Ford constrói um thriller obsessivo com algum grau de introspeção e um clima de tensão latente, alternando entre cenas de brutalidade e cenários artisticamente arrojados e ostensivos, num paradoxo metafórico da própria protagonista. Tal como diz o ditado, “a vingança é um prato que se serve frio”, e, neste caso, absolutamente gelado.

quatro estrelas

Título Nacional Animais Noturnos Título Original Nocturnal Animals Realizador Tom Ford Actores Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon Origem Estados Unidos Duração 116’ Ano 2016

World Trade Center

«World Trade Center» (WTC) é um filme extraordinário, uma importante visão do cinema sobre a esperança e a coragem face às maiores adversidades. Um olhar em que obtemos uma perspectiva humana dos ataques ao WTC em Nova Iorque. Não oferece respostas ou teorias face às origens destes hediondos actos contra a Humanidade.

Oliver Stone realiza a partir do argumento escrito por Andrea Berloff, inspirado na história de dois polícias que ficam presos nos escombros do WTC, na angústia e fé das suas famílias (McLoughlin e Jimeno), no dia e nas horas seguintes ao ataque ao WTC. A narrativa retrata o acto de coragem daqueles que deram a sua vida ao entrarem dentro das torres para salvar as vítimas do impacto dos aviões. A grande maioria dos polícias e bombeiros que entraram no WTC pereceu, uma ínfima parte foi resgatada. WTC é em particular a história de dois polícias, Will (Michael Peña) e John (Nicolas Cage), os únicos sobreviventes da sua equipa.

Stone transforma um acontecimento com uma dimensão mundial e recria um retrato íntimo de sobrevivência, com valores universais. As aterradoras imagens durante e depois do ataque são de um realismo impressionante. Para isso contribui o trabalho do britânico Seamus Mc Garvey, director de fotografia. Este realça o ambiente de caos e destruição em volta dos dois sobreviventes, imagens essas que vão subsistir durante todo o filme; tudo se desenrola com uma frieza apocalíptica. A atmosfera do Ground Zero (local da queda das torres) é de uma dimensão irreal para todos os que tiveram que lidar directamente com os acontecimentos. Stone consegue transportar para o ecrã essa mesma atmosfera de choque após o impacto, através do olhar das pessoas face a devastação.

«World Trade Center» cinge sempre o seu ponto de vista à visão dos protagonistas: não temos uma perspectiva do que ocorre no exterior dos edifícios, só o estrondo do colapso, até ao ponto de impacto atingir Will e John. Após o ruído da queda, Stone concentra-se no silêncio perturbador, e eleva a sua câmara, mostrando ao espectador que o impacto atingiu não só o WTC, Nova Iorque ou mesmo os Estados Unidos: quando a câmara pára, mostra uma imagem de satélite da Terra. Após os acontecimentos descritos no solo, o mundo que não será o mesmo.

O cuidado em não cair no falso dramatismo está sempre presente. As interpretações são os pólos narrativos em WTC: de um lado os homens (Cage/Peña) soterrados nos escombros do WTC, do outro lado, igualmente "soterradas" pelo peso da incerteza e da perda de alguém próximo, estão as suas mulheres (Gyllenhaal/Bello). Nicolas Cage é forçado pelo argumento a representar um americano de classe média, um indivíduo perfeitamente normal, uma pessoa com sentido de dever que responde ao chamamento para auxiliar as vítimas do atentado. Não existem os traços que marcam a carreira de Cage, é esta a simplicidade que constrói um personagem marcante e que incita o espectador a não desviar a atenção às suas palavras. Por seu lado, Peña confirma em «WTC» o que em «Crash» anunciou: a descoberta de um excelente actor. Maria Bello, a par de Gyllenhaal, transportam o filme com a sua dor e ansiedade.

Uma nota dominante no filme é a insistência na esperança de um futuro melhor. É no amor e na fé que os personagens vão ganhar forças para se manterem vivos. Algumas pessoas poderão insurgir-se contra a suposta mudança de rumo da carreira de Oliver Stone, mas um facto é indiscutível:« WTC», apesar de aparentemente incaracterístico na sua carreira, é um dos filmes mais marcantes da mesma. «WTC» é uma justa homenagem a todos que sofreram com os acontecimentos do ataque às Torres Gémeas que ninguém deve deixar de visionar.

cinco estrelas

Título Nacional World Trade Center Título Original World Trade Center Realizador Oliver Stone Actores Nicolas Cage, Michael Peña, Maria Bello Origem Estados Unidos Duração 129’ Ano 2006

Loving - trailer

Tem cheiro de Oscar em torno deste quinto longa-metragem do americano Jeff Nichols, um herdeiro da tradição cinemanovista da Easy Rider Generation de Coppola, Spielberg e afins, que aqui emula elementos do «Conrack» (1974), de Martin Ritt. Numa atuação devastadora, Ruth Negga arrancou gritos de “Bravo!” do 69. Festival de Cannes em resposta a seu desempenho comovente em «Loving», drama de época, baseado em fatos reais, dirigido por Jeff Nichols (de «Fuga»), encarado como uma das maiores promessas de renovação do cinema americano. Em disputa pela Palma de Ouro, o longa-metragem recria o drama de Mildred e Richard Loving (Ruth e Joel Edgerton, igualmente possante), um casal inter-racial expulso de sua cidade por ordem judicial em função do preconceito por ela ser negra e ele branco. A seleção do filme foi encarada (e muito bem vista) pela imprensa europeia como uma tomada de posição de Cannes em relação aos debates sobre exclusão de diferentes etnias no cinema a reboque da ausência de atores afrodescendentes no Oscar deste ano.

quatro estrelas

Título Original Loving Realizador Jeff Nichols Actores Ruth Negga, Marton Csokas, Michael Shannon Origem Estados Unidos Duração 123’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

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