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Actualizado às 11:16 PM, Oct 20, 2019

Big Little Lies: Um furacão chamado Mary Louise Streep (review)

Dois anos depois de ter arrebatado a crítica, «Big Little Lies» está de volta para o segundo round. Há episódios novos todas as semanas, a partir de 10 de junho na HBO Portugal. A METROPOLIS já viu os primeiros três episódios e deixa desde já a sugestão da mudança do nome da série para “The Mary Louise Show”.

Se conhecerem alguém que queira ser ator ou atriz, digam-lhe para começar pelos básicos: ver tanta cinematografia de Meryl Streep quanto possível. Tudo o que Mary Louise (o seu nome de batismo) faz parece receber o toque de Midas e ser transformado imediatamente em ouro. De uma versatilidade assombrosa, a atriz é uma figura lendária no ramo e muito dificilmente teremos outro profissional tão magistral e consensual nas próximas décadas. «Big Little Lies» já era uma série de qualidade astronómica, do argumento ao elenco, mas com Mary Louise, a atriz e a personagem – que tem o mesmo nome – , é something else.

A adaptação do livro de Liane Moriarty soube a pouco, pelo que «Big Little Lies» cresceu para além disso e, após ter vencido prémios avulso na categoria de Série Limitada, voltou com nova temporada. Já na sequência do final do livro, que é encontrado na season finale de 2017, a história evoluiu para o que acontece depois da morte de Perry (Alexander Skarsgård). É aí que entra Meryl Streep, um dos luxos só permitidos a estrelas como Nicole Kidman ou Reese Witherspoon, que se cruzam com ela nas cerimónias anuais de prémios e de cinema e lhe podem perguntar se quer espalhar magia na TV. A atriz aceitou o desafio e assume a dianteira dos acontecimentos como Mary Louise, a mãe de Perry, ainda em luto e a ajudar Celeste (Kidman) com os filhos. Dificilmente ficará mais do que uma temporada, portanto esta foi feita para si e à sua medida, para deleite da audiência.
Isso mesmo: para quem julgava que a entrada de Meryl não era nada mais do que uma jogada de marketing da HBO, podem ficar descansados! Há muita Mary Louise na segunda temporada e com qualidade. Por um lado, a mãe de Perry está muito envolvida na storyline da nora, algo que se estende às mulheres que estavam presentes na festa quando Perry supostamente caiu. Por outro lado, a mulher coloca-lhes ‘alvos’ na testa e, sem pudor, entra em conflito com personagens como Madeline (Witherspoon) e Renata (Laura Dern). Uma das fotos mais populares e divulgadas da segunda temporada é, aliás, um ar de fúria de Madeline nas costas de Mary Louise. Algo que se torna ainda mais cómico para quem já leu que Reese é uma grande admiradora de Meryl. “Nunca confiei em mulheres pequeninas” arrisca-se a ser uma das frases da temporada.

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A influência desta mulher, sempre inconveniente de uma forma irritantemente simpática, alastra-se a mais áreas, como seria de esperar. E aquilo que de início era uma ajuda imprescindível, vai-se tornando cada vez mais desconfortável. Esta ação, que Meryl Streep concretiza de forma divinal – até me faltam os adjetivos para a descrever –, é o motor de todas as narrativas paralelas a Celeste, alavancando a trama de forma tão natural que os episódios outrora um pouco pesados de «Big Little Lies» se veem agora de um trago. Verdadeiramente sobrenatural, como só os predestinados conseguem.

O vilão não morreu... totalmente
Se antes o núcleo central da história – Celeste, Madeline, Renata, Jane (Shailene Woodley) e Bonnie (Zoë Kravitz) – não se dava da melhor maneira, a verdade é a relação melhorou bastante com os acontecimentos da temporada passada. Ainda assim, se estão à espera de um conflito resolvido, desenganem-se, já que todas as mulheres revelam marcas do que aconteceu, mais ou menos à superfície. E, enquanto as suas vidas parecem compostas, as emoções que soltam vão destruindo, pouco a pouco, essa aparente perfeição. Como tal, ainda que a noção de feminismo que habita a série da HBO seja romancizada, na medida em que mostra uma face positiva e de união – com as storylines aglutinadas como um puzzle –, há também um lado mais obscuro que o argumento não tem medo de explorar. E que a realização, desta vez a cargo de Andrea Arnold, evidencia de maneira sublime.

Por sua vez, o vilão da primeira temporada não desapareceu totalmente. Alexander continua a surgir como Perry, ainda que desta vez seja apenas em vídeo ou flashbacks das personagens. No entanto, a sua presença é inquietante na vida de toda a gente e, para quem pensava que a sua morte colocaria um ponto final no mal que fez, a realidade que encontramos é bem diferente. As cinco envolvidas na queda mortal estão traumatizadas, sendo que umas o demonstram mais do que outras, com Bonnie particularmente magoada pelo sucedido. Em blackout desde que empurrou o marido de Celeste, a jovem é ‘afogada’ pelo segredo que tem de guardar, mesmo que contra a sua vontade, já que a ideia de mentir não partiu dela.

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Laura Dern volta a brilhar com a sua peculiar Renata, enquanto Jane encontra alguma normalidade depois de matar, literalmente, o fantasma que a assombrava. Ainda assim, e mais uma vez, esta é uma narrativa sobre as marcas que ficam da violência, e que se mantêm presentes mesmo sem o perigo à espreita, algo muito bem explorado com Celeste e Jane. O caso de Celeste, sobretudo, é abordado de forma complexa, sem problemas magicamente solucionados, mas também sem a demonização de Perry, o que torna a maneira como lida com a dor bastante complexa. Não se pode ainda ignorar que entre o final da primeira temporada e o início da segunda surgiram os casos de abuso de Harvey Weinstein e tantos outros, com a forte popularidade do #MeToo, movimento ao qual Reese e Nicole, produtoras executivas, se associaram em diversos momentos.

A atualidade ajuda-nos a perceber as camadas que aparecem, em catadupa, nos dois primeiros episódios e que começam a ser exploradas no terceiro. Talvez no caso do segundo peque por excesso, já que as revelações se sucedem demasiado rápido, como se os astros se tivessem alinhado para, ao mesmo tempo, introduzir as storylines de conflito nas personagens principais. Não obstante, há vários temas atuais a marcar presença: o mais forte, como já foi dito, é o das consequências do abuso e a forma como afeta o futuro das vítimas, mas há também a problemática do clima – um dos temas pelos quais Donald Trump é mais criticado –, os traumas da infância e crescimento e ainda o facto de a ausência de reação de parte da relação poder ser entendido igualmente como traição ao parceiro. É uma aula aberta sobre abuso, problemas conjugais e muitos outros temas rotineiros, sem descurar no modo como esta enormidade de assuntos afeta as crianças e adolescentes, mesmo que sem intenção.

Embora a review à segunda temporada de «Big Little Lies» seja amplamente positiva, há uma razão que, sozinha, seria suficiente: Mary Louise Streep. Não se vão arrepender.

  • Publicado em TV

Spielberg, Streep e Hanks em «The Papers»

A rodagem de «The Papers», o novo filme de Steven Spielberg, iniciou-se na passada terça-feira, 30 de maio. A equipa inclui Meryl Streep e Tom Hanks a encabeçar um extenso elenco, é a primeira vez que estas duas lendas vivas vão contracenar no ecrã sob a direção de Steven Spielberg.

O projecto anteriormente intitulado “The Post” tem estreia prevista para o Natal de 2017  nos Estados Unidos e espera-se que chegue a Portugal no início de 2018. Steven Spielberg está neste momento num moroso processo de pós-produção de «Ready Player One» o seu filme sci-fi que estreia em Março 2018. Depois de «The Papers» Spielberg tem agendada a realização do drama histórico «The Kidnapping of Edgardo Mortara».

«The Papers» relata factos verídicos e tem evidentemente um paralelismo para a actual situação política nos Estados Unidos. O filme conta como o Washington Post e o New York Times, em Junho de 1971 tiveram um papel na defesa da liberdade de expressão na divulgação dos Pentagon Papers ao público. Os documentos eram um estudo ultra-secreto do Pentágono que colocavam a nu a futilidade da guerra no Vietnam e a falacia perpetuada pela administração de Richard Nixon que estava a mentir aos americanos sobre as consequências do conflito. Na época, Katherine Graham (Meryl Streep) do Washington Post, procurava ainda fortalecer a sua posição enquanto a única mulher no país na liderança de um jornal, e Ben Bradlee (Tom Hanks), o editor volátil da publicação, reunia esforços para reestruturar o jornal em dificuldades. Juntos formaram uma equipa improvável, forçados a unirem esforços no apoio do New York Times que foi impedido de divulgar todos os Pentagon Papers. Bradlee e Graham lutaram contra a Administração Nixon para publicar os restantes documentos.

«The Papers» é feito à medida da temporada dos prémios esperando ser um pretendente aos Oscars. Além de realizar o filme, Spielberg assume também a produção, juntamente com Amy Pascal e Kristie Macosko Krieger. O argumento foi escrito por Liz Hannah e Josh Singer (co-argumentista de «O Caso Spotlight»). O elenco inclui ainda Alison Brie, Carrie Coon, David Cross, Bruce Greenwood, Tracy Letts, Bob Odenkirk, Sarah Paulson, Jesse Plemons, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg, Bradley Whitford e Zach Woods. O filme é uma co-produção da 20th Century Fox e a Amblin Entertainment.

Florence, Uma Diva Fora de Tom

«Florence, Uma Diva Fora de Tom» pode não acertar nas notas todas, mas apresenta-nos uma atriz que nos agarra do início ao fim. A obra baseia-se na história real de Florence Foster Jenkins (Meryl Streep), uma dama de sociedade que adorava cantar e tinha o sonho de pisar o palco do Carnegie Hall, apesar de não ter muito talento para tal. Protegida pelo marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), Florence não desconfia da sua falta de aptidão vocal... mas até quando?

Stephen Frears é já muito experiente na realização de biopics, numa carreira que teve como expoente «A Rainha» (2006), protagonizado pela Dama Helen Mirren. Tal como no retrato biográfico da Rainha de Inglaterra, Frears deixa brilhar a sua musa, no caso, Meryl Streep – e é o melhor que faz. O filme vive sobretudo dos atores, do fantástico trio formado por Streep, Hugh Grant (um galã que já estava há demasiado tempo afastado do grande ecrã e que tem aqui um papel fulgente) e Simon Helberg, o pianista de Florence, que nos faz esquecer por completo o Howard de «A Teoria de Big Bang», mostrando-nos um potencial pouco explorado. A química entre os três é o melhor do filme, mas a atriz norte-americana reina em toda a linha. Versátil, incrivelmente expressiva, magistral... as palavras escasseiam quando se fala de Meryl Streep e esta é uma das interpretações em que se prova isso mesmo, em que a atriz humaniza a personagem e lhe dá uma maior dimensão dramática.

Nem sempre inspirado, «Florence, Uma Diva Fora de Tom» joga sempre pelo seguro. A banda-sonora de Alexandre Desplat envolve-nos, bem como a irrepreensível produção cénica e de guarda-roupa, que nos transporta incrivelmente para a Nova Iorque dos anos 1940. A obra não figurará como um dos melhores biopics da filmografia recente, mas decerto nos lembraremos de Meryl Streep e de como só ela conseguiria acertar ao desacertar.

tres estrelas

Título Nacional Florence, Uma Diva Fora de Tom Título Original Florence Foster Jenkins Realizador Stephen Frears Actores Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg Origem Reino Unido Duração 111’ Ano 2016

Meryl Streep, diva das divas

Meryl Streep corre o "risco" de ser novamente nomeada para um Oscar graças a Florence, uma Diva Fora de Tom: se isso acontecer, será a 20ª vez — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Setembro), com o título 'Uma actriz em que o espectador acredita'.

Podemos voltar a dizer o mais simples? Tão simples como isto: o maior talento de um actor ou uma actriz de cinema é a capacidade de nos fazer acreditar na personagem que interpreta. Naturalismo? Nada disso. Nada a ver com a “transparência” da telenovela. A personagem pode ser um símbolo histórico, mas também pode ter viajado a partir de uma galáxia distante. Pode encantar pela sua beleza ou existir assombrada por traços monstruosos. O certo é que, quando acreditamos, vamos para onde o intérprete nos quiser levar. Assim acontece com Meryl Streep em Florence, uma Diva Fora de Tom: a sua composição de Florence Foster Jenkins (1868-1944), uma dama da sociedade que cantava de forma desastrosa mas almejava chegar ao palco sagrado do Carnegie Hall, em Nova Iorque, é uma notável proeza de riso e tragédia, notas gritadas e silêncios comoventes.
Em entrevista à revista Vanity Fair (12 Agosto), Stephen Frears, o realizador de Florence, uma Diva Fora de Tom, lembra que propôs a Meryl Streep um método de trabalho muito particular: não representar as cenas de canto em playback (como ela própria chegou a admitir), mas filmá-las com som directo. Não só a actriz aceitou o desafio, como o realizador reconhece que os resultados superaram as suas expectativas: “Foi absolutamente brilhante.” Mais do que isso, deu nova vida ao fascinante paradoxo de Florence: “Cantou correctamente todas as notas falsas.”

O primeiro Oscar

Essa capacidade de transfiguração, aliada a uma indomável exigência de perfeição, define a imagem de marca de Meryl Streep desde o começo da sua carreira. No seu livro Her Again: Becoming Meryl Streep (Harper, 2016), o jornalista Michael Schulman, da New Yorker, narra o insólito processo de casting que lhe valeu o papel de Joanna Kramer, a mulher que quer o divórcio de Ted Kramer, interpretado por Dustin Hoffman, em Kramer Contra Kramer (1979).
Quando teve uma primeira conversa com o realizador Robert Benton, o produtor Stanley R. Jaffe e o próprio Hoffman, o seu impacto foi pouco mais do que discreto. Foi mesmo equívoco. Meryl Streep falou pouco, definindo de modo vago e hesitante a personagem de Joanna. Aliás, desconcertou os seus interlocutores porque, de facto, tinha sido convocada como possível intérprete de outra personagem, de nome Phyllis, uma mulher com quem Ted acaba por ter uma relação efémera (que viria a ser interpretada por JoBeth Williams). Foi Hoffman quem compreendeu de imediato o seu estado de espírito, uma vez que sabia da morte recente do seu companheiro, o actor John Cazale, vitimado por cancro no pulmão aos 42 anos (o par integrara, um ano antes, o elenco de O Caçador, de Michael Cimino). Benton e Jaffe sentiram que a vulnerabilidade de Meryl Streep podia ser um trunfo suplementar na construção da personagem — o filme valeu-lhe uma segunda nomeação na categoria de melhor actriz secundária (O Caçador fora a anterior) e o seu primeiro Oscar.

Aprender no palco

A partir daí, temos podido assistir a uma das histórias mais gloriosas de Hollywood nas últimas décadas. Desde logo, por razões estatísticas: Meryl Streep tornou-se recordista de nomeações para os Oscars (19 no total), tendo ganho mais duas vezes, na categoria de actriz principal, com A Escolha de Sofia (1982), de Alan J. Pakula, uma memória pungente do Holocausto baseada no romance de William Styron, e A Dama de Ferro (2011), retratando Margaret Thatcher, sob a direcção de Phyllida Lloyd. Depois, porque a sua sofisticação expressiva lhe permite oscilar do trágico ao cómico, passando pelo canto: se Florence Foster Jenkins implicava cantar mal de modo convincente, a sua personagem de Ricki e os Flash (2015), de Jonathan Demme, era mesmo uma cantora (rock) que Meryl Streep assumia com invulgar energia e subtileza.

É surpreendente o modo como tem sabido superar muitos clichés biográficos em torno de personagens verídicas como Thatcher ou a escritora Karen Blixen em África Minha (Sydney Pollack, 1985), porventura o maior fenómeno de culto de toda a sua filmografia. Mas é também verdade que a pluralidade dos seus registos passa pela depuração romântica de A Amante do Tenente Francês (Karel Reisz, 1981), a fantasia cómica de A Morte Fica-vos Tão Bem (Robert Zemeckis, 1992) ou a respiração melodramática de As Pontes de Madison County (Clint Eastwood, 1995).

E não deixa de ser irónico que, em tempos recentes, Meryl Streep (67 anos) tenha sido uma das personalidades de Hollywood que mais sistematicamente denunciou o preconceito que leva a marginalizar as actrizes quando atingem uma certa idade, defendendo a necessidade de contrariar a celebração artística da “juventude” eterna. Na prática, ela é, por certo, uma das excepções, conseguindo gerir a carreira sem mascarar as marcas da própria passagem do tempo.
Afinal, como muitos grandes actores do período clássico (lembremos Katharine Hepburn, única intérprete, entre mulheres e homens, com quatro Oscars de interpretação), também Meryl Streep teve uma formação essencial através do teatro, tendo passado pelo Public Theatre, do lendário Joseph Papp, em Nova Iorque. Aí aprendeu a ter consciência dos efeitos que a arte de representar pode desencadear num espectador — sendo simples, é também o mais difícil.

  • Publicado em Feature

Ricki e os Flash

A ligação de Jonathan Demme à música tem qualquer coisa de visceral. É verdade que ele sabe integrar como poucos as matérias musicais nas bandas sonoras, de modo a servir a lógica global das narrativas. E não é menos verdade que a sua visão das performances musicais (filmando, por exemplo, os Talking Heads ou Neil Young, respectivamente em «Stop Making Sense» e «Heart of Gold») transcende as convenções televisivas da maior parte dos “making of”. Seja como for, Demme é um cineasta especialmente atento à música como componente da dinâmica corporal — apetece dizer: ele sabe filmar a música enquanto se faz corpo.

«Ricki e os Flash» é a apoteose disso mesmo. Por uma razão muito forte, por certo, chamada Meryl Streep: no papel de uma veterana do rock (Ricki) que vive mais com e para a sua banda (The Flash) do que com a sua desagregada família, ela é um prodígio de transfiguração — sabe cantar com genuína intensidade e, mais do que isso, sabe compor uma personagem em que a música existe como uma espécie de identidade poética, poeticamente assombrada.

Mas é também um filme em que o movimento musical contamina, por assim dizer, todos os planos da acção. Isto porque Demme é o cineasta de uma musicalidade dos sentimentos e das relações que transcende as evidências banalmente “psicológicas”. Em tempos de outra felicidade cinematográfica, isso tinha um nome nobre: Melodrama. Hoje em dia, para nossa maior desgraça, a palavra é sobretudo aplicada por aqueles que julgam que há nela uma lógica irremediavelmente pejorativa.

Demme consegue, assim, desenhar o retrato de uma família à deriva, à procura da sua coerência imaginada ou imaginária, preservando uma energia à flor da pele que passa, antes de tudo o mais, pela excelência dos actores, incluindo Mamie Gummer, filha de Meryl Streep, interpretando o papel de filha de Ricki. Um pouco à maneira do também brilhante O Casamento de Rachel (2008), com Anne Hathaway, a câmara deambula pelos cenários numa atitude a que apetece chamar de “reportagem”, não se desse o caso de a espontaneidade que observamos envolver um minucioso labor de composição do espaço e do tempo. Enfim, em tempos de formatação telenovelesca, Ricki e os Flash é a prova muito real de que há outras maneiras de encenar — e tentar compreender — as convulsões do espaço familiar.

Título Nacional Ricki e os Flash Título Original Ricki and the Flash Realizador Jonathan Demme Actores Meryl Streep, Kevin Kline, Mamie Gummer Origem Estados Unidos Duração 101’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº31)

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