logo

Entrar
Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

«The Little Drummer Girl» - crítica

Depois do enorme sucesso que foi «The Night Manager», o canal AMC volta a dar as mãos à BBC em mais uma superprodução televisiva com o título «The Little Drummer Girl», mais uma pérola da colheita de John Le Carré. A nova mini-série é baseada num romance homónimo, considerado uma das grandes obras do mestre de espionagem.
À semelhança de «The Night Manager», «The Little Drummer Girl» é uma série que tem a produção da Ink Factory, uma produtora que tem como principais responsáveis Simon e Stephen Cornwell, os filhos de John Le Carré. Com apenas alguns projectos desde a sua concepção, a produtora tem sido eficaz nas suas escolhas para cinema e televisão e especialmente nas adaptações das obras literárias do progenitor. Além dos títulos acima referidos a Ink Factory produziu «O Homem Mais Procurado», em 2014, realizado por Anton Corbijn e com Philip Seymour Hoffman num dos seus últimos filmes. Em 2018 vamos ver a estrela de «The Little Drummer Girl», Florence Pugh, na comédia com coração «Fighting with My Family», uma produção da Ink Factory baseada em factos verídicos, assinada por Stephen Merchant e que inclui um super elenco com nomes como Dwayne Johnson, Lena Headey, Vince Vaughn e Nick Frost. Após o sucesso de «The Little Drummer Girl», a série que deslumbrou o público britânico no final de 2018, a Ink Factory já está em pré-produção com a AMC, a BBC e a Paramount TV para mais uma adaptação de John Le Carré para a televisão, aguarda-se com expectativa «The Spy Who Came in From the Cold».
«The Little Drummer Girl» é integralmente realizada por Park Chan-wook. Para esta produção, o autor sul coreano teve à sua disposição actores fantásticos, uma história envolvente e meios técnicos para imprimir o seu cunho estilístico pautado pela violência e sensualidade – é quase como se estivéssemos a ver uma longa-metragem dividida em seis partes. É realmente “estranho” encontrarmos Park Chan-wook na direção desta mini-série, mas a escolha assenta-lhe que nem uma luva pela dimensão da história de espionagem a paredes meias com um romance e representações que abordam a vida como uma performance de palco onde a dissimulação e o “faz de conta” são ferramentas essenciais na luta pela vida e a morte. A câmara de Park Chan-wook é tão enigmática e incisiva quanto a história que decorre perante o nosso olhar atento.
Em «The Little Drummer Girl» temos os predicados de um dos maiores nomes deste género literário mas também um elenco estrelar composto por Florence Pugh, Alexander Skarsgård e Michael Shannon nos principais papéis, sendo que há personagens que foram fundidos no processo de adaptação por Claire Wilson e Michael Lesslie do livro para o ecrã.

The Little Drummer Girl Michael Shanno

A história desenrola-se entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Um atentado terrorista na Alemanha coloca no terreno a Mossad (os serviços secretos israelitas) que tem como principal objectivo capturar um operativo palestiniano da OLP responsável por vários ataques mortíferos em Israel e na Europa. Para este efeito utilizam uma táctica invulgar, no centro da cilada está uma jovem actriz britânica que é colocada perante um dilema mortal mas não hesita embarcar numa trama alucinante. Florence Pugh, que escancarou as portas do sucesso com a sua performance magnetizante em «Lady Macbeth», interpreta nesta mini-série o papel de Charlie. Sendo incomum termos uma figura feminina desta dimensão nas obras de John Le Carré, a actriz britânica mostra ter sangue na guelra e veste da cabeça aos pés o papel em mais uma representação assombrosa que, do ponto de vista dramático, dispara em vários sentidos arrastando-nos sempre com ela numa constante flutuação de emoções. Michael Shannon, no papel de Martin Kurtz, o agente da Mossad, é uma figura meticulosa e o principal “encenador” da cilada ao terrorista da OLP. Alexander Skarsgård fecha a linha da frente em mais uma representação segura e sem falhas. Nos papéis secundários ainda encontramos boas interpretações em personagens com carisma que são facilitadores na ponte entre o ecrã e a audiência, casos de Michael Moshonov, Clare Holman ou Amir Khoury.

Os temas confundem-se com a nossa actualidade e, nesse sentido, parecem quase imutáveis mas, de forma subtil e sucinta, a dupla de argumentistas, Claire Wilson e Michael Lesslie, explanam os pontos de vista enquadrando-os na longa história do conflito israelo-palestiniano. O espectador rapidamente se apaixona pelo enredo e o visual de pura sedução. «The Little Drummer Girl» mescla o drama de época, o clima político, o sentido de dever e uma paixão fervorosa.

[artigo publicado na revista Metropolis nº67]

  • Publicado em TV

The Night Manager

Uma das grandes surpresas na televisão em 2016 reside na adaptação contemporânea da BBC do romance do genial John le Carré, um dos maiores autores de romances de espionagem do século XX.

John le Carré não poderia estar mais entusiasmado, subitamente, 20 anos após a publicação do seu livro (cujos direitos foram adquiridos por um estúdio de cinema que o deixou enterrado no arquivo de produção), chega-nos «The Night Manager», uma história de amor, perda e vingança no complexo mundo do crime e espionagem. A série conta com a produção de Simon e Stephen Cornwell, os filhos de John le Carré.

O livro sofreu várias alterações para o argumento final da BBC, uma das mais importantes prende-se com o aparecimento de uma personagem feminina na série que substitui uma personagem masculina e pivot no livro. Angela Burr é a resiliente e corajosa chefe de espionagem britânica que está grávida e trabalha num mundo de homens, não tem muitos amigos porque é honesta – soberba interpretação de Olivia Colman. O centro da acção também se altera de um iate de luxo para uma ilha paradisíaca em Maiorca e da América do Sul e a Guerra contra a Droga mudamos de quadrante e dirigimo-nos para os países do Médio Oriente, sobretudo o Egipto, onde a democracia está em jogo e se tem a cabeça a prémio. No seio da história mantem-se a fabulosa dinâmica de vontades e obsessões entre os principais protagonistas, Richard Roper e Jonathan Pine.

Jonathan Pine (Tom Hiddleston) é um ex-militar, veterano de duas campanhasno Iraque, que preferiu a vida discreta de um manager no turno da noite de um hotel e foge a compromissos emocionais. No Cairo, aquando a primavera árabe, acção que depôs Hosni Mubarak, em plena convulsão nas ruas, uma residente do hotel, a amante do filho de uma família rica da cidade com ligações ao submundo do crime, passa uma pasta com documentos secretos a Jonathan Pine. A documentação indicia que um multimilionário britânico (Richard Roper) trafica armas por detrás da fachada de empresário legítimo. Jonathan Pine contacta o governo britânico mas é traído e a informadora é brutalmente assassinada no hotel. Anos mais tarde, Jonathan Pine cruza-se com Richard Roper quando está a trabalhar como night manager num resort nos alpes suíços, o sentimento de culpa e vingança vem ao de cima e Jonathan Pine torna-se um agente infiltrado de um departamento de investigação britânica. O pequeno departamento está à margem da jurisdição e da posição dúbia do MI6, é liderado por Angela Burr (Olivia Colman) que persegue há vários anos o elusivo Richard Roper. A trama, além de cruzar dois homens com agendas distintas relembra os segredos nos corredores de poder, nas relações por vezes cinzentas em nome de um bem maior entre governos e agências de segurança internacionais que tentam perverter a via da Justiça.

«The Night Manager» é exuberante pela atmosfera de mistério, charme e complexidade nas relações e interesses pessoais e globais. É também um acto de puro realismo no olhar e na crueza de um mundo podre onde Richard Roper, um sociopata charmoso, carregado de cinismo e sem qualquer tipo de escrúpulos se torna rei e senhor quando compreende essa realidade sabendo navegar perante águas pestilentas. Richard Roper tem poder, dinheiro, é um homem implacável. O actor Hugh Laurie está no sétimo céu com este personagem e não falha uma nota. Numa sequência insólita que define o seu personagem, a filha de um anfitrião de uma festa suicida-se e Roper fica consternado por achar péssimo o timing do sucedido pois obriga-o a adiar a reunião agendada com o anfitrião...

É titânico o confronto entre Jonathan Pine e Richard Roper, uma história pessoal de redenção de um homem solitário, convicto nos seus princípios, que acaba por encontrar a sua alma no confronto com um criminoso internacional que é visto pelo mundo como um empresário legítimo, um filantropo com berço de ouro e educação de Eton, com os tiques da alta-sociedade britânica, mas que na realidade ficou multimilionário a vender armas que espalham a carnificina no mundo.

A acção desenrola-se numa ilha em Maiorca, onde Jonathan se torna membro do círculo privado de Richard Roper quando salva o seu filho de uma tentativa de rapto. Jonathan Pine tem de se proteger da desconfiança do braço direito de Richard Roper, Corcoran (Tom Hollander) e começa a sentir-se perigosamente atraído por Jed Marshall (Elizabeth Debicki), a namorada com metade da idade do nosso antagonista, uma mulher inteligente que tem um passado turvo e opta por não ver o verdadeiro monstro que tem à sua frente. Elizabeth Debicki confirma não só a sua extraordinária beleza mas a sua plena versatilidade dramática, recordamos que a vimos recentemente em «O Agente da U.N.C.L.E.» (2015), a actriz ainda participou na peça The Maids, ao lado de Cate Blanchett e Isabelle Huppert, no Lincoln Center Festival, em Nova Iorque, em 2014.

A série traz-nos à memória a interpretação superlativa de Alec Guinness em «Tinker Tailor Soldier Spy», da BBC, muito por culpa de uma realização sem espinhas de Susanne Bier, oscarizada em «Num Mundo Melhor» (2010). A realizadora dinamarquesa tem o melhor trabalho da sua carreira, é a principal responsável da coesão entre o clima de tensão absoluta, a direcção de actores e os cenários de fundo que capturam o mistério e a constante atmosfera de perigo iminente. A série foi filmada em Maiorca, Marrocos e Londres. O argumentista, David Farr, fez um trabalho exemplar na adaptação e reinvenção do romance e na lapidação dos personagens. Finalmente o que dizer do xadrez humano perpetuado pelos desempenhos de sonho de Hugh Laurie e Tom Hiddleston, aliás, ficamos absolutamente rendidos perante as performances nesta série de seis episódios.
«The Night Manager» é um verdeiro deleite, uma das séries do ano.

  • Publicado em TV
Assinar este feed RSS