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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

Catch-22: A triste comédia do combate à burocracia (review)

A história de «Catch-22», a minissérie da Hulu que estreou recentemente na HBO Portugal, começa a escrever-se em 1953, oito anos depois do final da Segunda Guerra Mundial. Inspirado pelos ‘cacos’ deixados pela guerra, que tantas marcas deixaram na sociedade norte-americana, o autor Joseph Heller idealizou a trama satírica protagonizada pelo capitão Yossarian. O livro só viria a ser publicado em 1961, em plena Guerra do Vietname, traduzindo aquele que era o espírito dos jovens em relação ao conflito. Nove anos depois, com a guerra ainda a decorrer, Mike Nichols realizou um filme com base nessa mesma narrativa. No elenco, contavam-se atores épicos como Alan Arkin, Orson Welles ou Martin Balsam.
Como tal, escrever sobre a série de 2019, que conta com George Clooney como tripla-ameaça – ator, produtor e realizador – não acarreta a mesma responsabilidade das obras que lhe deram origem. Os contextos são diferentes, bem como a forma como a informação flui mais facilmente e com alcance global, e há uma distância temporal e de análise em relação aos acontecimentos, ficcionais mais situados entre 1942 e 1944, que «Catch-22» retrata. Ao mesmo tempo memória, chamada de atenção e aviso, a série é uma comédia negra que resulta numa verdadeira lição histórica, humana e, sem papas na língua, critica o ambiente de guerra. E muitas ainda decorrem nos nossos dias, com maior ou menor visibilidade.

Catch22 5
Para melhor entender a trama, devemos começar pelo nome. “Catch-22” é uma composição burocrática que resulta num entrave (aparentemente) imbatível por quem está na guerra, e que tem por inspiração as falhas no sistema que prejudicam quem está em posições mais baixas da hierarquia. Como nos é explicado no piloto, o médico só pode dar baixa a um militar ‘louco’ se este lhe pedir. No entanto, o ato de uma pessoa pedir para escapar a uma guerra, tendo por base o seu bem-estar próprio e a brutalidade da sua função, é, em si mesmo, uma atitude racional. Quem pedir a dispensa do combate por estes motivos, apelando à sua loucura, é uma pessoa lúcida e, consequentemente, não pode ser afastada por insanidade. É caso para dizer que o principal inimigo não se esconde nas trincheiras, mas sim no papel.

O protagonista é Christopher Abbott, que brilhou há dois anos na primeira temporada de «A Pecadora», na pele do bombista aéreo Yossarian. A personagem optou por aquela função por acreditar que a guerra estava perto do fim e, como tal, o conflito terminaria antes de ele acabar o seu treino. Mas isso não sucedeu e o militar ficou a 25 missões de distância da liberdade. Yossarian verbaliza frequentemente a sua posição perante a Segunda Guerra, e os conflitos em geral, funcionando como uma espécie de comentador intra-narrativo (verbal ou expressivo), que vai dizendo de sua justiça o que pensa do que falam as outras personagens, nomeadamente Scheisskopf (George Clooney). Há reflexões sobre o comando, a religião e até o dever à Pátria, no tom de humor negro que carateriza «Catch-22».

Catch22 2
Yossarian vai acumulando insatisfações, seja pelo ridículo das ‘paradas’ e exibições públicas, seja pela fragilidade da vida de quem assume uma guerra que não é a sua. Logo no piloto este sentimento sobe de tom, primeiro com a morte de um recém-chegado e depois com a explosão de um companheiro, ambas com alguma influência sua, de certa forma. Vai tentando apontar queixas que o considerem incapaz de servir, mas nunca acerta na jogada. A extensão das missões para 30 e a explicação da “Catch-22” são apenas mais dois golpes, bem duros, que demonstram onde está o poder. E, na reação, percebemos que o militar americano não olhará a meios para garantir o regresso a casa.

Embora nos chegue num contexto político e social diferente de 1953, 1961 ou 1970, e não tenha certamente o mesmo impacto em norte-americanos e portugueses, a mensagem é transversal e global. Apesar do humor negro e do argumento ficcional, há uma realidade nua e crua à frente de quem assiste a esta irresistível minissérie. Numa altura em que muito se fala de «Chernobyl», e justamente, é também importante não esquecer ou deixar passar despercebida «Catch-22». Caso precisem de mais algum motivo, destaque para a presença do eterno “Dr. House” Hugh Laurie, que interpreta um líder caricatural e uma das personagens mais cómicas, e para Kyle Chandler, um ator tantas vezes subvalorizado e cujo nome na narrativa é irónico e expressa o seu papel de ‘armadilha’: Catchcart – separado resulta em algo como ‘dar carrinho’ ou ‘rasteira’.

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The Night Manager

Uma das grandes surpresas na televisão em 2016 reside na adaptação contemporânea da BBC do romance do genial John le Carré, um dos maiores autores de romances de espionagem do século XX.

John le Carré não poderia estar mais entusiasmado, subitamente, 20 anos após a publicação do seu livro (cujos direitos foram adquiridos por um estúdio de cinema que o deixou enterrado no arquivo de produção), chega-nos «The Night Manager», uma história de amor, perda e vingança no complexo mundo do crime e espionagem. A série conta com a produção de Simon e Stephen Cornwell, os filhos de John le Carré.

O livro sofreu várias alterações para o argumento final da BBC, uma das mais importantes prende-se com o aparecimento de uma personagem feminina na série que substitui uma personagem masculina e pivot no livro. Angela Burr é a resiliente e corajosa chefe de espionagem britânica que está grávida e trabalha num mundo de homens, não tem muitos amigos porque é honesta – soberba interpretação de Olivia Colman. O centro da acção também se altera de um iate de luxo para uma ilha paradisíaca em Maiorca e da América do Sul e a Guerra contra a Droga mudamos de quadrante e dirigimo-nos para os países do Médio Oriente, sobretudo o Egipto, onde a democracia está em jogo e se tem a cabeça a prémio. No seio da história mantem-se a fabulosa dinâmica de vontades e obsessões entre os principais protagonistas, Richard Roper e Jonathan Pine.

Jonathan Pine (Tom Hiddleston) é um ex-militar, veterano de duas campanhasno Iraque, que preferiu a vida discreta de um manager no turno da noite de um hotel e foge a compromissos emocionais. No Cairo, aquando a primavera árabe, acção que depôs Hosni Mubarak, em plena convulsão nas ruas, uma residente do hotel, a amante do filho de uma família rica da cidade com ligações ao submundo do crime, passa uma pasta com documentos secretos a Jonathan Pine. A documentação indicia que um multimilionário britânico (Richard Roper) trafica armas por detrás da fachada de empresário legítimo. Jonathan Pine contacta o governo britânico mas é traído e a informadora é brutalmente assassinada no hotel. Anos mais tarde, Jonathan Pine cruza-se com Richard Roper quando está a trabalhar como night manager num resort nos alpes suíços, o sentimento de culpa e vingança vem ao de cima e Jonathan Pine torna-se um agente infiltrado de um departamento de investigação britânica. O pequeno departamento está à margem da jurisdição e da posição dúbia do MI6, é liderado por Angela Burr (Olivia Colman) que persegue há vários anos o elusivo Richard Roper. A trama, além de cruzar dois homens com agendas distintas relembra os segredos nos corredores de poder, nas relações por vezes cinzentas em nome de um bem maior entre governos e agências de segurança internacionais que tentam perverter a via da Justiça.

«The Night Manager» é exuberante pela atmosfera de mistério, charme e complexidade nas relações e interesses pessoais e globais. É também um acto de puro realismo no olhar e na crueza de um mundo podre onde Richard Roper, um sociopata charmoso, carregado de cinismo e sem qualquer tipo de escrúpulos se torna rei e senhor quando compreende essa realidade sabendo navegar perante águas pestilentas. Richard Roper tem poder, dinheiro, é um homem implacável. O actor Hugh Laurie está no sétimo céu com este personagem e não falha uma nota. Numa sequência insólita que define o seu personagem, a filha de um anfitrião de uma festa suicida-se e Roper fica consternado por achar péssimo o timing do sucedido pois obriga-o a adiar a reunião agendada com o anfitrião...

É titânico o confronto entre Jonathan Pine e Richard Roper, uma história pessoal de redenção de um homem solitário, convicto nos seus princípios, que acaba por encontrar a sua alma no confronto com um criminoso internacional que é visto pelo mundo como um empresário legítimo, um filantropo com berço de ouro e educação de Eton, com os tiques da alta-sociedade britânica, mas que na realidade ficou multimilionário a vender armas que espalham a carnificina no mundo.

A acção desenrola-se numa ilha em Maiorca, onde Jonathan se torna membro do círculo privado de Richard Roper quando salva o seu filho de uma tentativa de rapto. Jonathan Pine tem de se proteger da desconfiança do braço direito de Richard Roper, Corcoran (Tom Hollander) e começa a sentir-se perigosamente atraído por Jed Marshall (Elizabeth Debicki), a namorada com metade da idade do nosso antagonista, uma mulher inteligente que tem um passado turvo e opta por não ver o verdadeiro monstro que tem à sua frente. Elizabeth Debicki confirma não só a sua extraordinária beleza mas a sua plena versatilidade dramática, recordamos que a vimos recentemente em «O Agente da U.N.C.L.E.» (2015), a actriz ainda participou na peça The Maids, ao lado de Cate Blanchett e Isabelle Huppert, no Lincoln Center Festival, em Nova Iorque, em 2014.

A série traz-nos à memória a interpretação superlativa de Alec Guinness em «Tinker Tailor Soldier Spy», da BBC, muito por culpa de uma realização sem espinhas de Susanne Bier, oscarizada em «Num Mundo Melhor» (2010). A realizadora dinamarquesa tem o melhor trabalho da sua carreira, é a principal responsável da coesão entre o clima de tensão absoluta, a direcção de actores e os cenários de fundo que capturam o mistério e a constante atmosfera de perigo iminente. A série foi filmada em Maiorca, Marrocos e Londres. O argumentista, David Farr, fez um trabalho exemplar na adaptação e reinvenção do romance e na lapidação dos personagens. Finalmente o que dizer do xadrez humano perpetuado pelos desempenhos de sonho de Hugh Laurie e Tom Hiddleston, aliás, ficamos absolutamente rendidos perante as performances nesta série de seis episódios.
«The Night Manager» é um verdeiro deleite, uma das séries do ano.

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