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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Um Coração Normal - DVD

Ao longo das últimas duas décadas, muito se tem falado da evolução das ficções em televisão como um fenómeno que, cada vez mais, as faz “coincidir” com produtos que, tradicionalmente, associamos ao cinema. Há mesmo quem tenha feito televisão assumindo que estava a fazer... cinema. Exemplo? No genérico dessa notável série que é «Anjos na América» (2003), Mike Nichols assinava, não através da expressão abrangente “directed by”, mas convocando os seus pergaminhos cinematográficos: “a film by”.

Ryan Murphy, justamente, é um daqueles criadores que, embora com uma carreira claramente enraizada no espaço televisivo — com destaque para a autoria da série «Nip/Tuck» (2003-2010) —, tem desenvolvido uma actividade sempre marcada por modelos cinematográficos. Assim acontece neste «Um Coração Normal», um telefilme sobre os tempos angustiados de descoberta da sida que, em tudo e por tudo, poderia ter surgido como uma excelente estreia cinematográfica (por certo superando a mediocridade de tantos produtos que são lançados nas salas, pouco mais justificando do que o rotineiro “directo para DVD”).

«Um Coração Normal» debruça-se sobre o período de 1981-84, em Nova Iorque, quando a vaga de doentes com sida gera um impasse dramático entre a urgência de medidas para enfrentar a epidemia e as diferenças de atitude assumidas por vários grupos de pressão, em particular no interior da comunidade gay. No centro da acção está Ned Weeks — personagem inspirada na figura de Larry Kramer, escritor, dramaturgo, activista LGBT —, precisamente empenhado em contrariar a inércia dos poderes públicos.

O argumento, assinado pelo próprio Kramer, inspira-se na sua peça homónima, em grande parte autobiográfica (estreada a quente, logo em 1985). Os resultados são tanto mais admiráveis quanto Murphy nunca perde de vista as singularidades das personagens e as marcas específicas da época, evitando reduzir o seu filme a um panfleto mais ou menos abstracto. Nesta perspectiva, o leque de interpretações — de Mark Ruffalo, no papel central, a Julia Roberts, na personagem discreta, mas essencial, da Dra. Emma Brookner (por sua vez inspirada em Linda Laubstein) — é decisivo, confirmando também o talento de Murphy como director de actores.

TheNormalHeart DVD Packshot

The Normal Heart, de Ryan Murphy
DVD, NOS Lusomundo Audiovisuais

Estrelas: 4

True Detective - 1ª Série em DVD

True Detective é um drama negro e perturbador, soberbamente bem filmado com uma escrita fenomenal e interpretações memoráveis.

A nova série da HBO conta-nos a história da relação de dois personagens ao longo de 19 anos a par de uma investigação criminal em torno de um crime hediondo no estado da Louisiana. O homicídio de uma prostituta de uma forma ritualística serve de pano de fundo aos personagens e às suas relações pessoais num espaço agreste, a investigação vai definir as suas vidas. A acção desenrola-se entre 1995 no decurso da investigação e 2012 quando o caso é reaberto por outros detectives após um crime idêntico.

Os protagonistas titânicos são interpretados por dois dos melhores actores contemporâneos, Matthew McConaughey e Woody Harrelson. O triângulo completa-se com Michelle Monaghan que revela outras cores no seu portfolio interpretativo. A actriz desempenha o papel de esposa do detective interpretado por Woody Harrelson, a sua personagem esforça-se por ter a sua família unida, o casamento é turbulento e aumenta a tensão no seio do lar.

É inegável que o coração da narrativa bata bem próximo de Matthew McConaughey e Woody Harrelson. Os seus personagens são preciosidades, figuras únicas que hipnotizam a audiência com a sua interação e longos diálogos que nos aproximam do divino. Os actores tiveram de encontrar um equilíbrio na constituição dos seus personagens entre os dois períodos temporais (1995 e 2012), e não foi apenas uma questão do uso de perucas.

O detective Martin Hart (Woody Harrelson) é mais instintivo, um racionalista com os pés bens assente na terra que tem dificuldade de decifrar o detective Rust Cohle, o novo parceiro interpretado por Matthew McConaughey. Rust Cohle é compenetrado, não acredita em forças divinas, vive na solidão, no desespero e o absurdo. Apesar do seu isolamento, admira o simbolismo da natureza mas não acredita na humanidade. É um excelente detective com uma perspectiva única e metódica como investigador mas vive assolado pelos seus próprios demónios. A história persegue o realismo policial e emocional com o contraste da paisagem como um personagem, um elemento belo e desolado, uma terra esquecida que se assemelha a um ambiente lunar.

A série foi criada e escrita por Nic Pizzolatto, argumentista de dois episódios de outra raridade televisiva, a adaptação norte-americana de The Killing. É um romancista premiado, professor universitário e oriundo da Louisiana, escreveu um argumento brilhante. A profundidade e as nuances filosóficas dos personagens aliada à qualidade dos intérpretes fazem de True Detective um objecto de culto. Nic Pizzolatto é um argumentista a ter em conta, tem tudo para ter uma carreira promissora na televisão e no cinema.

As filmagens decorreram em 300 localizações e contam-se dezenas de personagens com falas. O projecto vai regressar para uma segunda temporada mas com outros criadores e intérpretes mantendo intacto o espírito de uma event series.

A primeira temporada tem a duração de oito episódios de uma hora, foi rodada do princípio ao fim para a HBO pela lente introspectiva do realizador Cary Fukunaga (Jane Eyre, Sin Nombre). A realização está construída de um modo cinematográfico, a suavidade das imagens é crucial no estabelecimento de um ritmo prosaico perante as forças atávicas que evoluem em True Detective.

TrueDetective S1 Packshot

A edição em DVD da NOS/HBO contém dois comentários, uma bela cena cortada, uma conversa de Nic Pizzolatto com T Bone Burnett, um making of e featurette´s sobre cada um dos episódios.

(texto originalmente publicado edição nº17 da revista Metropolis)

  • Publicado em TV
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