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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

Black Mirror: combater ou aceitar a tecnologia que mora em nós? (review)

A METROPOLIS teve acesso antecipado à quinta temporada de «Black Mirror», que tem três episódios e estreia esta quarta-feira, 5. Leia a nossa opinião, abaixo.

Ninguém sabe muito bem quando ou em que moldes, mas, tal como acontece com o destino, também «Black Mirror» é inevitável e acaba por chegar mais cedo ou mais tarde. Cerca de um ano e meio depois da quarta temporada, e seis meses depois do especial «Black Mirror: Bandersnatch», que dividiu as opiniões da audiência, Charlie Brooker traz para o catálogo da Netflix três novos episódios, numa temporada mais curta do que as mais recentes. Não há nenhum episódio ‘wow’ nem ‘twists’ surpreendentes ao jeito daquilo a que o criador nos habituou, mas há uma visão muito forte e humanizada sobre o papel que o vício da tecnologia tem vindo a ocupar na sociedade.

Anthony Mackie, Andrew Scott e Miley Cyrus são os protagonistas das três histórias assinadas pelo criador de «Black Mirror», que centram a narrativa na dependência, respetivamente, dos jogos, das redes sociais e no endeusamento de famosos, traçando um perfil forte das fraquezas da sociedade. No entanto, não se trata simplesmente de abordar o vício tecnológico, mas sobretudo de avaliar a forma como este molda o nosso relacionamento com os outros, a nossa rotina e nos fecha sobre nós próprios. Quer isto dizer que, no fundo, a quinta temporada de «Black Mirror» se desliga sobremaneira da tecnologia como vilão ou contaminador de rotinas – sendo que nunca o foi completamente, ou pelo menos sozinha – colocando o foco nas personagens, nas suas escolhas e no modo como constroem os seus relacionamentos.

BM Andrew scott

É certo que «Black Mirror» nunca descurou a componente humana e a chamada à responsabilidade do indivíduo, mas isso muitas vezes acontecia com muito ‘fogo de artifício’ e revelações mirabolantes que ninguém esperava, deixando o espectador da série num constante estado de ansiedade. Talvez essa fórmula não se concretize, como habitualmente, nos três episódios que são lançados esta quarta-feira, 5, pelo que nos arriscamos a antecipar críticas bastante negativas – e audíveis – ao rumo escolhido por Brooker neste regresso. O presente no sapatinho pode, afinal, sair envenenado, ainda que o descontentamento do público, ou de parte dele, também possa revelar-se uma boa campanha de marketing.

Pessoalmente, acredito que «Black Mirror» cumpriu o seu papel. Desconcerta, incomoda, leva-nos a identificar dependências nossas nas personagens, afasta-nos pelo argumento mas aproxima-nos pelo discurso. Não nos é indiferente. Contudo, banalizou, em certa medida, aquilo que marcava a diferença: fica constantemente um nível abaixo daquele onde poderia ter chegado, e que carateriza alguns dos episódios mais marcantes da série de origem britânica. Não quer isto dizer que a trama de Charlie Brooker tivesse sempre de ser fantasiada ou hiperbolizada, mas sim que o facto de nunca seguir o caminho mais complicado e inesperado, como antes fazia com mestria, resulta numa temporada de três episódios banais, ao invés de um momento televisivo marcante. Culpa das expetativas ou conformismo de Brooker?

BM miley

Striking Vipers
Com Anthony Mackie, Yahya Abdul-Mateen II, Nicole Beharie
Por esta altura, tudo o que venha da TCKR Systems, a empresa tecnológica e ficcional de «Black Mirror» é de desconfiar. Como tal, quando o presente de uma personagem para outra vem dessa marca, o espectador já sabe que a ‘tragédia’ está à espreita. No centro, dois amigos do tempo de universidade (Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II) que se reaproximam depois de vários anos afastados.

Smithereens
Com Andrew Scott, Damson Idris e Topher Grace
É totalmente abismal a performance de Andrew Scott, o Moriarty do Sherlock de Benedict Cumberbatch. O episódio vive todo dele, um motorista de uma empresa tipo Uber ou Kapten, que passa os dias junto à empresa Smithereens à espera de clientes. Claramente desequilibrado, com vários momentos de loucura pelo meio, a sua personagem personifica a raiva pelo vício das redes sociais... Até onde estará disposto a ir?

Rachel, Jack and Ashley Too
Com Miley Cyrus, Angourie Rice e Madison Davenport
É impossível assistir a este episódio sem nos lembrarmos de Hannah Montana, a estrela adolescente que marcou o início de carreira de Miley Cyrus, que interpreta uma pop star na mesma linha em “Rachel, Jack and Ashley Too”. Em paralelo, a personagem de Angourie Rice lida com a mudança de casa e de escola, sem facilidade de ter amigos, e cria uma ligação muito forte a Ashley O, a cantora que admira... Quando a estrela lança uma linha de bonecas iguais a ela, a relação torna-se ainda mais intensa.

Não perca a análise mais completa na Metropolis nº69.

  • Publicado em TV

Black Mirror: o melhor da TV continua a mostrar o pior de nós

A quarta temporada de «Black Mirror» chega à Netflix na sexta-feira, 29, bem a tempo de estragar as contas das melhores séries do ano. Com argumentos sólidos e pungentes, a série, que até já esteve condenada ao cancelamento no passado, regressa mais forte do que nunca. A METROPOLIS teve acesso à nova temporada em primeira mão e traz o kit de sobrevivência para mais uma aventura hipertecnológica.

“E a tecnologia?”. Esta pergunta ecoa, persistentemente, a cada nova incursão no universo de «Black Mirror», cujos episódios, independentes entre si, são unidos pela tecnologia, qual omnipresença invisível, e pela inevitabilidade de esta assumir novas formas (e perigos) no futuro. A tecnologia, sempre ela, mesmo quando o espectador não a alcança imediatamente à vista desarmada; mas será sempre ela a vilã desta história? Longe disso. Nada em «Black Mirror» escapa ao futuro – utópico mas perigosamente próximo –, que mascara com a sua espectacularidade o que de menos agradável há no ser humano.

Este futuro, distante mas próximo o suficiente para nos deixar assustados, volta em força com seis mini-filmes que têm como protagonista a tecnologia e, sobretudo, as suas potencialidades. Neste sem-fim de histórias assombradas pelo ser humano, e pelo que ele é capaz de fazer para sobreviver, há uma presença constante das dicotomias do certo e errado, ainda que nem sempre seja fácil, para o espectador, colocar uma ação numa ou noutra categoria. Assim como aconteceu com os episódios “The Entire History of You” ou “San Junipero”, por exemplo, a empatia não é uma relação literal e é particularmente difícil encaixar as decisões das diferentes personagens, de forma pacífica, na forma como percebemos a realidade.

blackmirror crocodile

Continua a existir uma preocupação do argumento, fortalecida ou desafiada pela realização, em tornar a narrativa exequível no tempo presente. Só assim esta relação conflituosa entre o espectador e os acontecimentos do pequeno ecrã é possível: embora haja uma perceção plena de que aquela tecnologia ainda está longe de ser global e banalizada, a verdade é que a conseguimos enquadrar na sociedade atual. Veja-se a mãe que instala uma vigilância constante na filha em “Arkangel”, ou a persistência em filmes com a temática da inteligência humana artificial, como é o caso de “Black Museum”. E até eventos menos prováveis, pelo menos a curto prazo, como “Metalhead” trazem consigo o fantasma da possibilidade, pois não deixam de ser uma ameaça do futuro.

«Black Mirror» não é apenas uma série, mas sim uma experiência. Perante a tecnologia fornecida às personagens deste imaginário tecnológico, o espectador acaba a indagar o que faria caso aquela tecnologia fosse atual. Embora se trate de ficção científica, a série da Netflix acaba a ser discutida quase como um documentário, na medida em que espelha as debilidades da instrumentalização do quotidiano, mas também o papel que o ser humano tem no decorrer da ação. Não estamos na presença de um elemento passivo, e a quarta temporada é sublime neste aspeto: coloca o homem e a mulher na sua zona de conforto para, desafiando esta aparente normalidade, deixar o espectador desconfortável.

blackmirror blackmuseum

A sobrevivência da individualidade numa era de massas

“Arkangel” vai dar que falar, e que terá, provavelmente, entrada direta para o top de melhores episódios de «Black Mirror». Realizado por Jodie Foster e com história da responsabilidade do criador Charlie Brooker, “Arkangel” instala-se numa sociedade familiar, sem grandes truques tecnológicos, e coloca uma mãe aparentemente banal (Rosemarie DeWitt) no centro da ação. Depois de perder momentaneamente a filha, deixa-se controlar pelo medo e instala um serviço permanente de vigilância e localização na criança, a fim de se proteger de novo susto. Como seria de esperar, esta história não tem um final feliz.

Mais uma vez, esta história é tecnológica à superfície, mas é essencialmente humana. A preocupação individual (e familiar) da personagem de DeWitt toca um tema muito sensível aos pais, a segurança dos filhos, pelo que é fácil encontrar lógica e justificações para as suas motivações. Além disso, e atendendo ao foco de «Black Mirror», continua a ser importante perceber de que forma o individual choca com as outras individualidades, bem como a tecnologia pode ser uma forma de controlo e manipulação, mesmo que não exista essa permissão clara. Há uma leitura diferente desta relação entre o indivíduo e o interesse geral em “Crocodile”, um episódio mais frio – não apenas categoricamente mas também porque se passa na Islândia.

Novamente com argumento de Brooker, o episódio toma outras liberdades no universo que já antes inspirou “The Entire History of You”, na primeira temporada, nomeadamente a possibilidade de revisitar memórias de forma clara. Um thriller improvável e que se torna cada vez mais complexo, “Crocodile” é um twist e desafio permanente às interpretações que vamos fazendo às personagens e acontecimentos. Algo que atinge um nível ainda mais assertivo em “USS Callister”, uma homenagem fora do comum ao legado deixado por «Star Trek», pela lente de um realizador acostumado a «Doctor Who». A combinação ganha forças nas palavras de Brooker e William Bridges, que repetem a dupla de “Shut Up and Dance”, de 2016, e que voltam a explorar os limites da individualidade. E nem o espectador se livra de alinhar nesta viagem.

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O homem e a máquina: a efemeridade do ‘eu’

Se “Arkangel” se destaca pela proximidade ao presente, “Black Museum” evidencia-se pela capacidade de explorar aspetos totalmente ficcionais, ainda que esta suposta distância seja uma ilusão – atenuada pela construção da narrativa num ambiente próximo. Tem diversos ingredientes, desde uma partilha demasiado viciante a uma existência artificial que se torna exigente, mas assenta na interação banal entre o dono de um museu (Douglas Hodge) e uma visita que tem de gastar tempo (Letitia Wright). Esta relação quase rotineira serve de fio condutor à viagem pela tecnologia e, em último caso, pela sua efemeridade – que é também a efemeridade de quem a cria.

A série da Netflix encurta, por diversas vezes, a barreira de separação entre o indivíduo e a tecnologia, e este episódio não é exceção. Esta linha é ainda mais reduzida em “Hang the DJ”, onde, ao jeito de um Tinder do futuro, uma máquina de inteligência artificial reúne um conjunto de indivíduos num resort, sendo o objetivo final que estes encontrem a sua alma gémea. O conceito é algo confuso, de forma intencional e fortalecida pelo argumento de Brooker, colocando a decisão maquinal à frente da individual. Desta forma, há um jogo constante entre aquilo que é a tecnologia super avançada, por um lado, e a incapacidade de voltar ao básico do relacionamento humano, por outro. Ironicamente, dá vontade de pedir uma TARDIS para o presente a fim de resolver o conflito inerente à ação, que é bastante simples.

Por sua vez, e ainda com «Stranger Things» bem presente na memória, uma vez que a segunda temporada foi lançada recentemente, “Metalhead” lembra o drama da outra série da Netflix. Os personagens humanos são perseguidos por máquinas, numa realidade futurista e pós-apolítica, a preto e branco, naquela que é uma luta literal entre a tecnologia e a homem. Realizado por David Slade («American Gods» e «Hannibal»), este episódio sombrio destoa da restante temporada a vários níveis, levando ao extremo o entendimento usualmente subjectivo daquilo que é o confronto entre a personagem e a tecnologia em que esta vive mergulhada.

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