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Actualizado às 10:58 PM, May 15, 2019

«The Little Drummer Girl» - crítica

Depois do enorme sucesso que foi «The Night Manager», o canal AMC volta a dar as mãos à BBC em mais uma superprodução televisiva com o título «The Little Drummer Girl», mais uma pérola da colheita de John Le Carré. A nova mini-série é baseada num romance homónimo, considerado uma das grandes obras do mestre de espionagem.
À semelhança de «The Night Manager», «The Little Drummer Girl» é uma série que tem a produção da Ink Factory, uma produtora que tem como principais responsáveis Simon e Stephen Cornwell, os filhos de John Le Carré. Com apenas alguns projectos desde a sua concepção, a produtora tem sido eficaz nas suas escolhas para cinema e televisão e especialmente nas adaptações das obras literárias do progenitor. Além dos títulos acima referidos a Ink Factory produziu «O Homem Mais Procurado», em 2014, realizado por Anton Corbijn e com Philip Seymour Hoffman num dos seus últimos filmes. Em 2018 vamos ver a estrela de «The Little Drummer Girl», Florence Pugh, na comédia com coração «Fighting with My Family», uma produção da Ink Factory baseada em factos verídicos, assinada por Stephen Merchant e que inclui um super elenco com nomes como Dwayne Johnson, Lena Headey, Vince Vaughn e Nick Frost. Após o sucesso de «The Little Drummer Girl», a série que deslumbrou o público britânico no final de 2018, a Ink Factory já está em pré-produção com a AMC, a BBC e a Paramount TV para mais uma adaptação de John Le Carré para a televisão, aguarda-se com expectativa «The Spy Who Came in From the Cold».
«The Little Drummer Girl» é integralmente realizada por Park Chan-wook. Para esta produção, o autor sul coreano teve à sua disposição actores fantásticos, uma história envolvente e meios técnicos para imprimir o seu cunho estilístico pautado pela violência e sensualidade – é quase como se estivéssemos a ver uma longa-metragem dividida em seis partes. É realmente “estranho” encontrarmos Park Chan-wook na direção desta mini-série, mas a escolha assenta-lhe que nem uma luva pela dimensão da história de espionagem a paredes meias com um romance e representações que abordam a vida como uma performance de palco onde a dissimulação e o “faz de conta” são ferramentas essenciais na luta pela vida e a morte. A câmara de Park Chan-wook é tão enigmática e incisiva quanto a história que decorre perante o nosso olhar atento.
Em «The Little Drummer Girl» temos os predicados de um dos maiores nomes deste género literário mas também um elenco estrelar composto por Florence Pugh, Alexander Skarsgård e Michael Shannon nos principais papéis, sendo que há personagens que foram fundidos no processo de adaptação por Claire Wilson e Michael Lesslie do livro para o ecrã.

The Little Drummer Girl Michael Shanno

A história desenrola-se entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Um atentado terrorista na Alemanha coloca no terreno a Mossad (os serviços secretos israelitas) que tem como principal objectivo capturar um operativo palestiniano da OLP responsável por vários ataques mortíferos em Israel e na Europa. Para este efeito utilizam uma táctica invulgar, no centro da cilada está uma jovem actriz britânica que é colocada perante um dilema mortal mas não hesita embarcar numa trama alucinante. Florence Pugh, que escancarou as portas do sucesso com a sua performance magnetizante em «Lady Macbeth», interpreta nesta mini-série o papel de Charlie. Sendo incomum termos uma figura feminina desta dimensão nas obras de John Le Carré, a actriz britânica mostra ter sangue na guelra e veste da cabeça aos pés o papel em mais uma representação assombrosa que, do ponto de vista dramático, dispara em vários sentidos arrastando-nos sempre com ela numa constante flutuação de emoções. Michael Shannon, no papel de Martin Kurtz, o agente da Mossad, é uma figura meticulosa e o principal “encenador” da cilada ao terrorista da OLP. Alexander Skarsgård fecha a linha da frente em mais uma representação segura e sem falhas. Nos papéis secundários ainda encontramos boas interpretações em personagens com carisma que são facilitadores na ponte entre o ecrã e a audiência, casos de Michael Moshonov, Clare Holman ou Amir Khoury.

Os temas confundem-se com a nossa actualidade e, nesse sentido, parecem quase imutáveis mas, de forma subtil e sucinta, a dupla de argumentistas, Claire Wilson e Michael Lesslie, explanam os pontos de vista enquadrando-os na longa história do conflito israelo-palestiniano. O espectador rapidamente se apaixona pelo enredo e o visual de pura sedução. «The Little Drummer Girl» mescla o drama de época, o clima político, o sentido de dever e uma paixão fervorosa.

[artigo publicado na revista Metropolis nº67]

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Happy Valley

Série revelação de 2014, aquando da estreia da primeira temporada na BBC, «Happy Valley» confirma agora toda a sua qualidade ao nível da escrita e da interpretação no regresso com a segunda temporada. Objecto difícil de catalogar, por cruzar inúmeros géneros, «Happy Valley» poderá definir-se como um drama criminal com humor negro e laivos hitchcockianos à mistura. É também, sem grande margem para dúvidas, uma das melhores séries do panorama internacional actual.

A autora da série, a britânica Sally Waynwright, constrói este thriller no noroeste de Inglaterra. A série é filmada no vale de Calder, o tal Happy Valley do título, e relaciona-se com o problema do consumo de drogas. A série centra-se na personagem de uma detective que desapareceu do mapa depois de um choque devastador na sua vida, o suicídio da sua filha, e que se torna sargento da esquadra local. O ambiente do Yorkshire adequa-se à narrativa de Sally Waynwright, uma argumentista com vários sucessos no seu CV na televisão britânica «Last Tango in Halifax», «Scott & Bailey» e «Unforgiven».

A primeira temporada é sustentada por Catherine Cawood (soberba interpretação de Sarah Lancashire), vejam como a personagem se apresenta a um toxicodependente que ameaça imolar-se porque a namorada o deixou: “Sou a Catherine. Tenho 47 anos, divorciada e vivo com a minha irmã, reabilitada do vício da heroína. Tenho dois filhos adultos – um está morto, o outro não fala comigo – e tenho um neto. O porquê do meu filho não falar comigo? É complicado. Agora, vamos falar de ti.” O foco desta temporada é um rapto que corre terrivelmente mal. Um contabilista ganancioso e ressabiado com o patrão planeia com um traficante local raptar a jovem Ann Gallagher (Charlie Murphy), a filha do patrão, em troca de meio milhão de libras. O problema são os dois criminosos que vão fazer o trabalho; um deles, o psicopata Tommy Lee Royce (James Norton), é o violador da filha de Catherine e pai do seu neto, ele vai deixar um rasto de sangue e destruição quando o plano começa a descambar.

A segunda temporada recupera uma das revelações da primeira série, a mulher que se torna agente da polícia local. O enredo envolve um assassino em série que conecta perigosamente Catherine aos crimes. Há um detective que assassina a amante em jeito de copycat, e o perigo de Tommy Lee Royce, que arranja uma proxy (Shirley Henderson) para se aproximar do filho e assim vingar-se de Catherine. Mas há ainda uma linha narrativa mais terna que envolve a irmã (Siobhan Finneran) da estrela da série. O melhor mesmo é mergulharem nesta história e deixarem-se atordoar por cada episódio.

A premissa é realmente forte e não fica por aqui mas não se assustem que o equilíbrio encontrado entre o enredo criminal que força os personagens a confrontarem os seus demónios e a viverem o dia-a-dia, as centenas de canecas de chá nas pausas entre as irmãs (Catherine e Clare) para conversarem enquanto dão uma passa num cigarro e o humor negro da protagonista trazem a série à terra e criam um perigoso objecto de binge viewing, quando se começa a ver «Happy Valley» é difícil parar...

A primeira temporada da série foi um estrondo, a segunda foi uma confirmação que arrasou o público nos dois lados do oceano (a série está na Netflix nos Estados Unidos). O “passar a palavra” elevou a primeira temporada em Inglaterra para a marca dos 8 milhões de espectadores e deu dois BAFTAS de televisão [os prémios máximos da televisão britânica] na categoria de Melhor Drama e Melhor Actriz. A série serviu também de rampa de lançamento de mais um jovem valor da interpretação britânica, o actor James Norton que interpreta o perigoso e perturbado psicopata Tommy Lee Royce – o mesmo que recentemente participou noutra produção da BBC, a mini-série épica «Guerra e Paz» e que está também na ITV com «Grantchester». James Norton é o menino de ouro da interpretação britânica e está no ponto para explodir nos grandes ecrãs e quebrar muitos corações.
«Happy Valley» é encenada com naturalidade, segue a regra de ouro das séries britânicas: é cinzenta na abordagem do dia-a-dia dos personagens, daí ser tão cativante. Consegue fugir ao banal e constrói personagens muito fortes, especialmente as figuras femininas. A violência é explicita e crua, não digo excessiva, a criadora defendeu-se das críticas afirmando “Se bates com a cabeça na parede, sangras (...) Este drama é sobre o lado negro. Como coisas terríveis acontecem a pessoas boas.”

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