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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

House of Cards - Primeira Temporada

Uma leitura menos automática e, sem dúvida, mais perversa não pode deixar de considerar que o impacto global de House of Cards está também ligado a muitas formas de pessimismo com que, nos EUA e não só, são olhadas muitas das movimentações dos protagonistas da cena política. Não se trata, entenda-se, de favorecer generalizações simplistas como “os políticos são todos corruptos...”. Trata-se, isso sim, de reconhecer que, nos tempos de globalização que vivemos — incluindo uma muito particular exposição pública dos gestos políticos —, há muitas e cruéis clivagens entre a actividade política e a chamada sociedade civil.

Dito isto, importará sublinhar também que muito do envolvimento de House of Cards provém da precisão maníaca dos seus pormenores. Não estamos, de facto, perante uma parábola “abstracta” sobre o comportamento dos políticos. Aliás, a adaptação da série homónima britânica, criada por Michael Dobbs (emitida pela primeira vez na BBC em 1990), é admirável, passando sem mácula, com invulgar agilidade dramática, dos cenários londrinos para os corredores de Washington.

Na primeira temporada da série, agora editada — e também na segunda (a terceira está agendada para Fevereiro de 2015) —, a ascensão da personagem de Kevin Spacey, o democrata Frank J. Underwood, intensifica a bizarra sensação de intimidade que é apanágio de House of Cards. E não apenas porque quase tudo se passa em bastidores mais ou menos reservados; sobretudo porque a consolidação das suas ambições políticas vai a par de um metódico desnudamento psicológico das personagens principais, seus segredos e desígnios.

Basta observar, aliás, como evolui a relação entre Frank e a sua mulher, Claire (Robin Wright). Dir-se-ia que a sua proximidade afectiva se faz tanto da vida conjugal que partilham como das agressivas estratégias de combate que, com conhecimento mútuo ou não, vão adoptando. No limite, talvez se possa dizer que House of Cards é um retrato de relações de radical cumplicidade, não necessariamente alicerçadas em formas tradicionais de amor — será preciso acrescentar que, neste universo, já não resta nem um simulacro de romantismo?

(Publicado originalmente na Metropolis nº22)

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Modificado emterça, 29 março 2016 16:36

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