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Actualizado às 3:34 PM, Mar 25, 2020

The Deuce

1984 é um ano que diz muito à ficção científica, mas não só. A temporada de despedida de «The Deuce» arranca no final desse ano, o sinal dos novos tempos e das novas mentalidades, e também uma idade dourada para os filmes pornográficos. Após Harvey Wasserman (David Krumholtz) ter visto na cassete VHS uma grande oportunidade de negócio, os clubes de vídeo e outros espaços especializados souberam aproveitar o crescimento e o acesso a câmaras e ao mercado generalizou-se.
Onde antes estava o potencial, Harvey encontra agora a dificuldade de bater a concorrência perante a oposição de Candy (Maggie Gyllenhaal), que não quer ceder ao mainstream, aos filmes "amadores" e à menorização das mulheres para agradar ao público-alvo. E uma convenção temática em Las Vegas só evidencia ainda mais o fosso que se criou entre a qualidade e inovação do género para adultos e o que vende mais facilmente. No polo oposto, quem é bem-sucedido é Frankie (James Franco), que se adapta às novas tendências do mercado e fica de olhos postos no potencial da distribuição.

Muito tempo passou desde o arranque da história, mas, entre lutas de mendigos e prostitutas nas ruas, pouco parece ter mudado. A certa altura no episódio "The Camera Loves You", o primeiro da terceira e última temporada, o gémeo Vincent (James Franco) sintetiza numa frase aquilo à que série veio: "O Deuce é como uma barata. Estava aqui antes de nós, e vai continuar aqui muito depois de nós termos partido".

É uma Times Square atribulada e marcada pela violência, pela ameaça do vírus da SIDA, que passa ainda pela tentativa de consciencialização, e pela incapacidade em combater o capitalismo. Os problemas e os rostos variam, mas a sensação de que o ambiente e a vida continuam, depois das perdas e dos obstáculos, é uma apurada definição de Nova Iorque, dos Estados Unidos e de todo o que por ali se cruza. A série da HBO pode ter regressado para dizer adeus, mas a história que ousou contar teve muitas linhas depois, até aos dias de hoje.

Também o ciclo de Lori Madison (Emily Meade) se repete: acaba de sair da reabilitação pela quinta vez. É uma estrela, mas a sua vida está longe de ser glamorosa. Enviada logo para a frente de “combate” em prol do Marketing – que, pelo contrário, Candy abomina –, não tem tempo de se afastar do ritmo louco de uma indústria que nunca para.

Depois dos anos ‘70, «The Deuce» retrata uma época mais moderna e, consequentemente, mais exigente, até porque o crescimento imparável das VHS alimentou os vídeos caseiros, o alcance facilitado do produto e a dispersão dos centros de venda. A análise apurada de Nova Iorque, da história americana e, em concreto, do mercado da pornografia continua sublime, bem sustentada por um argumento de mestre de George Pelecanos e David Simon. E chega ao nível seguinte com um elenco igualmente de luxo, em que Maggie Gyllenhaal tem o papel da sua vida.

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