logo

Entrar
Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

«A Cidade dos Piratas» - Otto Guerra em entrevista

Sinónimo vivo de “animação” no cinema brasileiro, Otto Guerra atravessou a década que está a chegar ao fim em múltiplas lutas, entre elas a peleja (que é de muitos de seus conterrâneos) contra o fascismo no governo do seu país e a batalha contra um cancro. Os bons frutos de sua batalha em prol da reoxigenação do seu universo (seja o pessoal, o profissional ou o político) renderam um longa longa-metragem – «A Cidade dos Piratas» -, o mais confessional da sua carreira, que virou uma sensação no festival Anima Mundi, festival realizado em julho no Rio de Janeiro e em São Paulo. O evento é a maior maratona animada de toda a América Latina, um continente que encontra em Otto um de seus mais inquietos expoentes.

Mesmo nos seus momentos mais hilariantes (e são muitos), «A Cidade dos Piratas», o novo desenho animado do sexagenário diretor gaúcho, guarda momentos de desabafo de dar nó na garganta: nó de dor. Releitura existencialista da tira de quadrinhos “Os Piratas do Tietê”, da cartunista Laerte, com as vozes dos atores e diretores Marco Ricca e Matheus Nachtergaele no seu elenco de vozes, o filme, ainda inédito em circuito no Brasil, incorpora na sua trama, cheia de metalinguagem, uma crise pessoal de seu próprio autor, Otto, reproduzindo um drama pessoal do sexagenário cineasta: a sua luta contra uma doença física.

O diretor de «Wood & Stock: Sexo, orégano e rock’n’roll» (2006) venceu, mas sofreu no processo, como se vê neste trabalho, que aborda, em tom documental, a peleja de Laerte Coutinho para se assumir trans e virar “a” Laerte. Estima-se que a longa estará entre os concorrentes do 46º Festival de Gramado. Nesta entrevista, Otto, considerado por muitos o maior animador da sua pátria, na ativa desde os anos 1980 (com curtas seminais como «Novela» e «O Natal do burrinho»), fala do seu calvário para sobreviver a uma doença terminal e avalia a indústria animada no Brasil.

O que o universo da Laerte revelou a você sobre identidades de género e sobre a sua própria condição, como homem e como artista?
Otto Guerra: Um dos dogmas em que eu acreditava era que a vida não tinha rascunho, ou seja, vivemos e não se volta atrás. Laerte deixou claro que nos podemos reinventar: ‘Vivi, apaguei e vivo tudo de novo de outra forma’, diz. Ela transcendeu faz tempo. Precisamos de identificar-nos no outro, ok, mas colocar tudo dentro de caixinhas perfeitamente identificadas para imaginarmos ter algum controle sobre o mundo, é bobagem. Vivemos uma fase de extremos, o politicamente correto patrulhando o ambiente social. Parece que a humanidade está andando rápido para algum lado, não sei se para a frente ou para trás [Riso]. Por trabalhar com cultura, com artistas, tenho uma liberdade muito grande, mesmo tendo sido criado dentro de padrões morais estreitos. Digamos que, assim como Laerte, vivi uma vida e depois outra: 30 anos sem beber acreditando que sexo sem amor era pecado, etc... e depois uma reviravolta de 180 graus: bebia todo o dia e fui tachado de devasso. Nem uma coisa nem outra. Depois dos 60, ficou fácil encontrar o meio termo, a experiência nos mostra os limites. Vamos aprendendo, criando.

O quanto essa animação, com ecos documentais, expandiu os seus domínios da gramática da animação?
OG: O trabalho de «Cidade dos Piratas», o fato de a autora renegar os seus personagens e o fato de eu estar dentro do processo, e ter que achar uma saída, foi revelador para mim. O filme saiu da tela e invadiu a minha vida. Eu invadi o filme também, chutei o pau da barraca. E a coisa virou uma ficção documental. Apanhei, bati, e assim é a vida. A gente se fode e aprende. Acima de tudo esta magnífica experiência em adaptar as HQs da Laerte escancarou: que bom fazer um filme com o fígado.

O que é o filme «Ressurreição», que esteve na seleção do Anima Mundi, com a sua assinatura, e que novos rumos a sua carreira persegue agora? Que novos filmes podemos esperar?
OG: O curta «Ressurreição» é uma história do Rodrigo Guimarães, lá de 1980. Animador local, ele seguiu com a sua produtora, a Dr. Smith, o caminho de filmes comerciais e institucionais. Conversando com ele, soube do interesse da Dr. Smith em produzir ficção. Resgatei o velho storyboard cheio de teias de aranha, passei a direção de arte ao uruguaio Ruben Castillo e a animação ao Hermes de Lima, colaboradores de longa data, e com a parceria Dr. Smith e Otto Desenhos, finalizamos a curta.

PIRATAS4

O que mais te fascina no universo da Laerte e de que forma este filme dialoga com as tuas anteriores longas, baseadas nos quadrinhos de Adão Iturrusgarai e de Angeli?
OG: Los 3 Amigos, como esses cartoonistas se chamam, beberam nas mesmas fontes que eu. Identificação ferrada entre nós, via Robert Crumb, Freak Brothers, Tintim, Bukowski, literatura beat, cinema etc. O universo desses caras é o mesmo pelo qual eu transito. Eu tinha que fazer comerciais para sobreviver e comprar equipamentos, daí talvez não tenha seguido a carreira dos quadrinhos. Animação toma todo o tempo. Portanto, a identificação com o trabalho deles facilitou muito a minha vida. Adaptar acaba sendo mais fácil do que criar universos complexos como é o caso do trabalho desses autores geniais, iconoclastas como eu. Eles dedicaram as suas vidas a criar os seus mundos em HQs incríveis.

Que outro grande cartoonista nacional falta para você adaptar? Algum em vista?
OG: Falta o Glauco. Mas como ele está morto, é complexo lidar com direitos autorais. Quando envolve família, os interesses se fragmentam. Agora, vou fazer um filme baseado num livro que escrevi chamado “Nem doeu”.

«A Cidade dos Piratas» espelha uma catarse sua, na sua luta contra o cancro. De que maneira o desenvolvimento desse desenho foi importante para a sua recuperação? Como foi a ideia de buscar um desenho metalinguístico na adaptação dos “Piratas do Tietê”, colocando a sua própria história com a doença em foco?
OG: Muitas coisas aconteceram durante a pré-produção do “Piratas”. A meio do processo, eu fiz a longa «Até que a Sbórnia nos separe», Laerte largou os personagens antigos incluindo os piratas que ele agora chama de “múmias machistas”, os quadrinhos dele mudaram de forma radical, ficando mais herméticos, profundos, existencialistas, mas sem perder a graça. E ele se assumiu trans na vida real: agora é ela. Para completar, tive esse diagnóstico de cancro, e já em estado avançado, em metástase. Eu ia morrer e isso foi também bem determinante para que eu não fizesse mais concessões. Voltei a ser primitivo, como era quando fazia as minhas histórias autorais lá em meados dos anos 1980. Isso gerou conflitos com a equipa. Mas como eu era um moribundo, acabaram por concordar com minhas ideias para adaptar aos novos tempos o argumento, que havia sido escrito e reescrito umas dez vezes, por vários argumentistas de peso, como Tomás Creus, Rodrigo John, Juliana Rojas, Moisés Westfhallen, Pedro Harres, Grace Luzzi... Foi tudo jogado no lixo e refizemos. Sugeri algo como Cinema Marginal animado. Rodrigo John foi quem atualizou a parada de escrever a versão do roteiro que foi finalizada agora.

Como está sua saúde hoje, depois do filme? 100% curado?
OG: Havia um novo medicamento que me salvou. Fiz duas cirurgias ferradas e, a princípio, estou curado já tem anos. O cancro pode voltar, mas, segundo os médicos, a cepa desse tumor não é mais mortal, como era alguns anos atrás. Sorte no azar. Voltei a beber, mas não como antes. Fiz 60 anos. Isso muda a perspectiva de certa forma. Sou um idoso. Essa nova geração de idosos da qual faço parte vai dar o que falar.

De que maneira «A Cidade dos Piratas» contribui para a discussão das identidade sexuais inerentes ao trabalho da Laerte?
OG: Laerte virou uma celebridade no Brasil depois que passou a se vestir como uma mulher. Ele antecipou em 20 anos a sua mudança num personagem seu, Hugo, que virou Muriel em plena “Folha de S. Paulo”, nos anos 90. Essa mudança precisava vir para o filme e resolvi trazer para o centro da história da longa essa épica questão de género que sempre foi um tabu. Creio que tratar disso é jogar alguma luz na parada.

PIRATAS2

Em 2017, Gramado deu-te o Troféu Eduardo Abelin, prémio especial consagrado a diretores autorais, o que comprova o seu lugar como um nome de resistência no cinema de animação do Brasil. Você é o mais importante dos diretores que mantiveram o setor em atividade no país, dos anos 1980 até hoje. Como você avalia a atual situação da animação no país?
OG: Nunca imaginei viver uma época como essa, nem nos meus sonhos mais extravagantes. Temos 25 longas de animação em andamento, inúmeras séries, curta, clipes etc. Tive a sorte de não ter como objetivo, nos anos 1970 e 80, ganhar dinheiro: queria fazer ficção e usava o dinheiro dos comerciais para viabilizar isso. Essa foi a minha grande diferença no setor: produzo filmes de ficção há mais de 40 anos. Hoje tem estúdios produzindo séries importantes. Pena que as nossas políticas culturais estão seriamente ameaçadas pelo golpe da direita. Sabemos que cultura não interessa a eles. O ex-presidente americano Ronald Reagan, num acesso de sinceridade, disse uma vez: “Por que vamos dar cultura se depois não vão votar em nós?". O Brasil capotou. Voltamos a ser uma república das bananas. Hoje, o trabalho de animação que considero mais importante, neste momento, é a longa «A arca de Noé», dos Irmãos Gulane. É um filme grandão.

Há alguma fragilidade que você aponta no cinema nacional de animação hoje?
OG: Estão usando animadores para fazer direção de arte, o que é uma pena, pois os animadores, de certa forma, apenas reproduzem o que a Disney, Pixar, Dreamworks fazem. Perdemos a exuberância dos nossos diretores de arte. O Brasil tem milhares de criadores e uma rica cultura visual. Copiar a Disney é muita idiotice, é apenas querer ganhar dinheiro. E acho bem difícil chegar aos pés do que aquela grande indústria faz. Só os japoneses conseguiram chegar lá, creio que pelo fato de eles animarem dentro de um estilo próprio e poderoso, a manga.

Que animadores brasileiros mais te entusiasmam hoje?
OG: O meu herói hoje no setor é o Juliano Enrico, meu ex-aluno, lá de Vitória, Espírito Santo, que faz a série «O irmão de Jorel», com conteúdo e direção de arte geniais. Ele superou o mestre. Lá de Minas, Sávio Leite tem filmes que amo. Nara Normande e Érica Maradona são a nova e incrível geração de mulheres na animação brasileira. Nara, em Annecy (cidade dos alpes franceses que sedia o maior festival de animação do mundo, realizado em junho) soltou um «Lula livre» no palco (ao apresentar o curta “Guaxuma”, já confirmado por Gramado e pelo Anima Mundi, a ser realizado no fim do mês no Rio) e lavou a minha alma.

O que ainda te anima... a animar?
OG: Não animo mais há tempos. Passei a dirigir, produzir, sugerir argumentos e me meter nos roteiros, escolhendo diretores de arte e, principalmente, fazendo vozes de personagens na dobragem. Funciono como um maestro, como disse uma amiga. Chamo os músicos, apenas. Gosto disso. Gosto de ver todo o caldo funcionando.

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.