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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

Big Little Lies: Um furacão chamado Mary Louise Streep (review)

Destaque Big Little Lies: Um furacão chamado Mary Louise Streep (review)

Dois anos depois de ter arrebatado a crítica, «Big Little Lies» está de volta para o segundo round. Há episódios novos todas as semanas, a partir de 10 de junho na HBO Portugal. A METROPOLIS já viu os primeiros três episódios e deixa desde já a sugestão da mudança do nome da série para “The Mary Louise Show”.

Se conhecerem alguém que queira ser ator ou atriz, digam-lhe para começar pelos básicos: ver tanta cinematografia de Meryl Streep quanto possível. Tudo o que Mary Louise (o seu nome de batismo) faz parece receber o toque de Midas e ser transformado imediatamente em ouro. De uma versatilidade assombrosa, a atriz é uma figura lendária no ramo e muito dificilmente teremos outro profissional tão magistral e consensual nas próximas décadas. «Big Little Lies» já era uma série de qualidade astronómica, do argumento ao elenco, mas com Mary Louise, a atriz e a personagem – que tem o mesmo nome – , é something else.

A adaptação do livro de Liane Moriarty soube a pouco, pelo que «Big Little Lies» cresceu para além disso e, após ter vencido prémios avulso na categoria de Série Limitada, voltou com nova temporada. Já na sequência do final do livro, que é encontrado na season finale de 2017, a história evoluiu para o que acontece depois da morte de Perry (Alexander Skarsgård). É aí que entra Meryl Streep, um dos luxos só permitidos a estrelas como Nicole Kidman ou Reese Witherspoon, que se cruzam com ela nas cerimónias anuais de prémios e de cinema e lhe podem perguntar se quer espalhar magia na TV. A atriz aceitou o desafio e assume a dianteira dos acontecimentos como Mary Louise, a mãe de Perry, ainda em luto e a ajudar Celeste (Kidman) com os filhos. Dificilmente ficará mais do que uma temporada, portanto esta foi feita para si e à sua medida, para deleite da audiência.
Isso mesmo: para quem julgava que a entrada de Meryl não era nada mais do que uma jogada de marketing da HBO, podem ficar descansados! Há muita Mary Louise na segunda temporada e com qualidade. Por um lado, a mãe de Perry está muito envolvida na storyline da nora, algo que se estende às mulheres que estavam presentes na festa quando Perry supostamente caiu. Por outro lado, a mulher coloca-lhes ‘alvos’ na testa e, sem pudor, entra em conflito com personagens como Madeline (Witherspoon) e Renata (Laura Dern). Uma das fotos mais populares e divulgadas da segunda temporada é, aliás, um ar de fúria de Madeline nas costas de Mary Louise. Algo que se torna ainda mais cómico para quem já leu que Reese é uma grande admiradora de Meryl. “Nunca confiei em mulheres pequeninas” arrisca-se a ser uma das frases da temporada.

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A influência desta mulher, sempre inconveniente de uma forma irritantemente simpática, alastra-se a mais áreas, como seria de esperar. E aquilo que de início era uma ajuda imprescindível, vai-se tornando cada vez mais desconfortável. Esta ação, que Meryl Streep concretiza de forma divinal – até me faltam os adjetivos para a descrever –, é o motor de todas as narrativas paralelas a Celeste, alavancando a trama de forma tão natural que os episódios outrora um pouco pesados de «Big Little Lies» se veem agora de um trago. Verdadeiramente sobrenatural, como só os predestinados conseguem.

O vilão não morreu... totalmente
Se antes o núcleo central da história – Celeste, Madeline, Renata, Jane (Shailene Woodley) e Bonnie (Zoë Kravitz) – não se dava da melhor maneira, a verdade é a relação melhorou bastante com os acontecimentos da temporada passada. Ainda assim, se estão à espera de um conflito resolvido, desenganem-se, já que todas as mulheres revelam marcas do que aconteceu, mais ou menos à superfície. E, enquanto as suas vidas parecem compostas, as emoções que soltam vão destruindo, pouco a pouco, essa aparente perfeição. Como tal, ainda que a noção de feminismo que habita a série da HBO seja romancizada, na medida em que mostra uma face positiva e de união – com as storylines aglutinadas como um puzzle –, há também um lado mais obscuro que o argumento não tem medo de explorar. E que a realização, desta vez a cargo de Andrea Arnold, evidencia de maneira sublime.

Por sua vez, o vilão da primeira temporada não desapareceu totalmente. Alexander continua a surgir como Perry, ainda que desta vez seja apenas em vídeo ou flashbacks das personagens. No entanto, a sua presença é inquietante na vida de toda a gente e, para quem pensava que a sua morte colocaria um ponto final no mal que fez, a realidade que encontramos é bem diferente. As cinco envolvidas na queda mortal estão traumatizadas, sendo que umas o demonstram mais do que outras, com Bonnie particularmente magoada pelo sucedido. Em blackout desde que empurrou o marido de Celeste, a jovem é ‘afogada’ pelo segredo que tem de guardar, mesmo que contra a sua vontade, já que a ideia de mentir não partiu dela.

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Laura Dern volta a brilhar com a sua peculiar Renata, enquanto Jane encontra alguma normalidade depois de matar, literalmente, o fantasma que a assombrava. Ainda assim, e mais uma vez, esta é uma narrativa sobre as marcas que ficam da violência, e que se mantêm presentes mesmo sem o perigo à espreita, algo muito bem explorado com Celeste e Jane. O caso de Celeste, sobretudo, é abordado de forma complexa, sem problemas magicamente solucionados, mas também sem a demonização de Perry, o que torna a maneira como lida com a dor bastante complexa. Não se pode ainda ignorar que entre o final da primeira temporada e o início da segunda surgiram os casos de abuso de Harvey Weinstein e tantos outros, com a forte popularidade do #MeToo, movimento ao qual Reese e Nicole, produtoras executivas, se associaram em diversos momentos.

A atualidade ajuda-nos a perceber as camadas que aparecem, em catadupa, nos dois primeiros episódios e que começam a ser exploradas no terceiro. Talvez no caso do segundo peque por excesso, já que as revelações se sucedem demasiado rápido, como se os astros se tivessem alinhado para, ao mesmo tempo, introduzir as storylines de conflito nas personagens principais. Não obstante, há vários temas atuais a marcar presença: o mais forte, como já foi dito, é o das consequências do abuso e a forma como afeta o futuro das vítimas, mas há também a problemática do clima – um dos temas pelos quais Donald Trump é mais criticado –, os traumas da infância e crescimento e ainda o facto de a ausência de reação de parte da relação poder ser entendido igualmente como traição ao parceiro. É uma aula aberta sobre abuso, problemas conjugais e muitos outros temas rotineiros, sem descurar no modo como esta enormidade de assuntos afeta as crianças e adolescentes, mesmo que sem intenção.

Embora a review à segunda temporada de «Big Little Lies» seja amplamente positiva, há uma razão que, sozinha, seria suficiente: Mary Louise Streep. Não se vão arrepender.

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