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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Sharp Objects chegou finalmente a Portugal… com a HBO

Destaque Sharp Objects chegou finalmente a Portugal… com a HBO

A entrada da HBO no mercado português trouxe presentes no ‘sapatinho’, como é o caso de «Sharp Objects», protagonizada por Amy Adams e realizada por Jean-Marc Vallée. Apresentada como uma minissérie de apenas uma temporada, pode afinal vir a ter uma segunda.

[artigo originalmente publicado na Metropolis nº67]

Dificilmente haverá um caso de sucesso, entre os escritores atuais, como o de Gillian Flynn, que já teve os seus três livros (longos) adaptados ao pequeno ou grande ecrã, no espaço de quatro anos. Ironicamente, em ordem inversa: a primeira adaptação aconteceu com «Em Parte Incerta» (2014), baseado no livro de 2012 e que teve a protagonista Rosamund Pike nomeada ao Óscar, depois «Lugares Escuros» (2015), tendo por base o livro de 2009, e por fim «Sharp Objects», série inspirada pelo primeiro livro da americana, publicado em 2006. Com uma ‘short story’ pelo meio, “The Grownup”, Gillian parece ter transitado agora para os argumentos, com a adaptação de «Viúvas» (2018) ao cinema e a criação da série «Utopia», com estreia agendada para 2019.

Apesar da desvantagem de ter recebido a série mais tarde – «Sharp Objects» estreou originalmente em julho – o público português não tem de desesperar por episódios, já que os 10 ficaram disponíveis ao mesmo tempo no serviço de streaming. O ideal para quem gosta de maratonas. Por sua vez, na cadeira de realização encontramos uma figura conhecida: Jean-Marc Vallée, bem lançado pelo sucesso de «Big Little Lies», que, aliás, deverá regressar em breve para a segunda temporada, com Meryl Streep no elenco. Além disso, seguindo o exemplo da série encabeçada por Reese Witherspoon e Nicole Kidman, e de «The Handmaid’s Tale» da Hulu, que continuaram apesar de encontrarem o final do livro na primeira temproada, «Sharp Objects» pode não ter dito o adeus definitivo e ter mesmo uma nova temporada. Para já, todavia, não passam de rumores.

Recentemente, Amy Adams criou uma produtora com a sua agente, Stacy O'Neil, a Bond Group Entertainment, e assinou um acordo com a HBO. O acordo com o ‘monstro’ norte-americano dá um sinal positivo à renovação de «Sharp Objects», da qual Amy também é produtora. Não obstante, ainda só há entendimento para a produção da adaptação de “Poisonwood Bible”, de Barbara Kingsolver, para o pequeno ecrã. Embora a renovação possa parecer relativamente simples, tal é complicado pela agenda de Amy Adams, uma figura indiscutível do cinema moderno e constantemente com vários filmes em carteira. Já a primeira temporada demorou a iniciar as gravações, sendo que, mesmo assim, a atriz só esteve presente 65 dos 90 dias de filmagens.

hbo sharp objects

É um pouco mais de escuridão para a mesa 4, por favor
«Sharp Objects» é uma série pesada, de ritmo lento e marcadamente ‘depressiva’, já que existe na realidade obscura de Camille Preaker (Amy Adams). A jornalista de Chicago viaja até Wind Gap, a sua terra natal, para fazer um trabalho de investigação sobre um homicídio e um desaparecimento, ambos de adolescentes, que ocorreram no espaço de um ano. A contragosto, mas sem qualquer energia para se opor veementemente, Camille acaba por acatar as ordens do chefe Frank Curry (Miguel Sandoval) e deslocar-se para o seio da sua família. À tona, ainda muitas marcas da morte, há vários anos, da sua irmã Marian (Lulu Wilson). Também a relação com a sua mãe, Adora (Patricia Clarkson) é distante e complicada, sem uma das ‘storylines’ mais importantes além da principal.

A mãe não lida bem com o facto de Camille estar a fazer cobertura a um caso tão macabro, pelo que o drama atual vai criando paralelos com o passado, nomeadamente com a morte trágica da irmã. Por um lado, Adora associa a sua dor à dos casos atuais, uma vez que passou por algo idêntico, enquanto há velhas feridas em Camille claramente mal saradas. Num sentido mais literal, não se pode ignorar os cortes que fez na pele, e que ainda estão marcados, dando assim nome ao livro e à série, “Objetos Cortantes”. Ela tinha por hábito cravar palavras na pele e viver num constante estado de escuridão, algo que contrasta com a popularidade que tinha então e a família quase perfeita.

Presente e passado estão sempre muito ligados, com flashbacks a surgirem frequentemente, ainda que por vezes não sejam suficientemente bem contextualizados. É certo que a trama não tem de revelar tudo, mas a velocidade com que surgem e desaparecem, com imagens soltas e sem o pensamento da protagonista – algo que acontece no livro –, não permite uma perceção tão profunda do que está a acontecer na tela. São momentos, todavia, que colocam a fotografia e realização da série em destaque, um pouco ao estilo do que Jean-Marc Vallée já tinha feito em «Big Little Lies» e a sua imagem de marca. A crítica normalmente tece largos elogios ao cineasta, mas há uma questão que se torna cada vez mais pertinente: será que a técnica não está a castigar a narrativa? Podemos justificar sempre o ritmo lento, e de valorização excessiva da imagem, com o facto de ser o estilo do realizador?

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O livro é mesmo melhor do que a série (mas não faz mal?)
“O livro é sempre melhor do que o filme (ou a série)”. É recorrente ouvir a esta frase quando falamos de adaptações de livros ao pequeno ou grande ecrã, e no caso de «Sharp Objects» a afirmação é justa. O arranque da narrativa é lento mas, ao contrário do livro publicado em 2006, não é explícito no desenho das suas personagens. Sem o contexto que traz a obra escrita, alguns intervenientes e ‘storylines’ encaixam na trama de forma forçada e, a espaços, é difícil para quem não leu o livro perceber o alcance de cenas que aparecem e desaparecem rapidamente e sem explicação, nomeadamente flashbacks. Há um exagero do estilo de Jean-Marc Vallée, sem ser dado ao espectador nada em troca, para abraçar mais rapidamente a complexidade da série. Esta chega mais tarde, é certo, mas há pontas soltas que poderiam ter sido unidas mais cedo. Nem tudo tem de ser um mistério.

Assim que a série entra no ritmo, o melhor de Gillian Flynn vem ao de cima, com toda a densidade dramática e individual que marca a história de “Objetos Cortantes”. Quando se trata de um elenco com nomes como Amy Adams e Patricia Clarkson – que já venceu o Globo de Ouro em janeiro –, bem como secundários como Chris Messina, Elizabeth Perkins ou a promissora Sophia Lillis, de «It» (2018), a qualidade é uma inevitabilidade. A série peca apenas por colocar a técnica à frente da história propriamente dita, algo que poderá não causar tanta confusão a quem não leu o livro e, dessa forma, não nota a diferença de tratamento narrativo. Poderemos simplesmente assumir que são universos diferentes e que existem de forma independente, mas será que os pontos aqui apontados como negativos não ‘castigam’, de algum modo, a experiência? A título de exemplo, será que as cenas apressadas vão ser lembradas mais para frente, encaixando no resto da narrativa? Ou serão apenas mais uma cena, sem impacto significativo e, como tal, nunca vão atingir todo o seu potencial?

Colocando de parte o estilo de realização, há que destacar os diálogos entre personagens, sobretudo entre Camille e Adora e Camille e Amma (Eliza Scanlen), a meia-irmã. As personagens crescem nesses momentos e a narrativa avança com naturalidade, reforçando a figura da protagonista e tornando-a mais ‘palpável’ para a audiência. Será que, atendendo à qualidade interpretativa de Amy, a atriz pode contar com uma vitória nos Emmys de setembro, algo que nos Óscares nunca aconteceu, apesar das seis nomeações? Ou já terá passado demasiado tempo (praticamente um ano) desde a emissão? Prémios e distinções à parte, a verdade é que a reta final da série a coloca num nível superior e deixa o público à espera de uma continuação, até porque é ligeiramente mais aberto do que o do livro. Algo que indica que, desde início, os produtores não colocaram de parte uma segunda temporada.

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Considerações finais
Apesar das críticas a «Sharp Objects», trata-se de uma experiência quase cinematográfica e muito interessante do ponto de vista sociológico. A ficção tem uma inspiração real e, à medida que os episódios se vão sucedendo, percebemos melhor a forma como as personagens se relacionam dentro e fora do seio familiar, por entre a aparente calmaria da América mais rural. No fim de contas, o que prevalece é a componente social e psicológica dos habitantes, que os vai moldando perante a dor da perda enquanto sociedade, à vista, e o que acontece dentro das quatro paredes de cada casa. Essa hipocrisia é espelhada magistralmente em Camille que, ao não saber lidar com ela, encontra conforto no álcool e em atitudes mais ou menos chocantes.

O final da série é surpreendente, já que até os palpites mais certeiros podem não ter alcançado a abrangência das atitudes de cada personagem. Algo que acontece, por assim dizer, nos ‘bastidores’ do que realmente chega à audiência e que, qual mágico depois do truque, só após nos enganar revela como o fez. Será que, tendo um final tão forte, faz sentido dar-lhe uma continuação? Se é para continuar a ter Amy Adams como protagonista de uma série de TV, com novos episódios de semana a semana, vale a pena o risco. Trata-se, provavelmente, de uma das intérpretes mais subvalorizadas da sua geração e há sempre a esperança de os Emmys fazerem justiça.

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