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Actualizado às 12:39 AM, Dec 17, 2017

País Irmão: afinal o ‘Truman’ somos nós

Destaque País Irmão: afinal o ‘Truman’ somos nós

Há décadas que os comuns mortais são assombrados pelo Big Brother, uma entidade, por vezes abstrata, que tudo vê, tudo sabe e tudo pode manipular. A maior mentira é acreditar que nada podemos fazer (ou que somos imunes) – e «País Irmão» esfrega-nos isso na cara.

“Quem controla o presente, controla o futuro”. A frase, dita por Fernando (Dinarte Branco), transporta-nos, quase automaticamente, para o «1984» de George Orwell: “Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado” [tradução livre]. Publicado em 1949, este livro é mais uma prova de que a atualidade de «País Irmão», que estreou na segunda-feira, 11, na RTP1, é tão intemporal quantos os problemas que representa (ainda que modernizados no processo). E, na era da Informação, nós – o espectador que é personagem enquanto público – continuamos tão susceptíveis à ignorância quanto antes.

Desengane-se, portanto, quem acha que está fora do espectáculo mediático em que habita Truman Burbank (Jim Carrey), o protagonista, sem saber, de um reality show que o acompanha 24/7, em «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998). O espectador está no centro, e o Big Brother assumiu o controlo. Acabaram os “intelectuais”, agora só há o público – a ideia, defendida pela Ministra da Cultura (Margarida Marinho), coloca a sociedade como alvo para, de seguida, a desmontar na sua farsa. O público, na sua forma amorfa – mas presente –, quer novelas, futebol e outras distrações do seu quotidiano, privilegiando o entretenimento em vez dos dramas da vida real. E isso dá uma vantagem assustadora a quem tem poder – e pode usá-lo sem qualquer critério.

O monólogo ‘acompanhado’ de José Ávila (José Raposo), na sua pacata sala de aula, é um dos mais brutalmente verdadeiros dos últimos tempos. Não é o ‘rei’ que vai nu, somos nós: consumidores de redes sociais, de aplicações, de programas vulgares, de leituras rápidas e inconsequentes. Não porque os consumimos, mas antes porque não vemos nada para além disso, porque temos uma vida física sustentada na digital. É uma chapada de luva branca dada a seis mãos, pelos criadores da série – Tiago R. Santos, Hugo Gonçalves e João Tordo – e por um leque composto por atores de qualidade comprovada, como José Raposo, Margarida Marinho, Manuel Cavaco, Dinarte Branco, Afonso Pimentel ou Victoria Guerra, entre muitos outros.

«País Irmão» arranca com uma cena hilariante, já sinal do que nos espera. Manuela Azevedo, a Ministra da Cultura, é entrevistada por Carlos (Jorge Mourato), o rosto do programa mais visto em Portugal. A conversa, amigável mas leviana, é criticada nos bastidores pelos assessores da Ministra, uma mais ‘verde’ (Vera – Filipa Areosa) e outro bem experiente (Fernando), que têm perspetivas diferentes relativamente à importância do que está acontecer. Na verdade, tudo não passa de um teatro feito para o público ver, e que rapidamente se desfaz após o ‘corta’, que mostra as verdadeiras cores de Manuela e Carlos, inimigos de longa data. É ele que lança a primeira ‘farpa’ sobre o rumor que visa uma polémica que envolve o Governo e que, dali em diante, será tratado como “o escândalo que não pode ser mencionado”.

No rescaldo do que acontece, Manuela senta-se com os seus assessores num bar, onde Fernando comenta a simplicidade de uma vida, de outros tempos, acompanhada por apenas dois canais, e na qual o país parava para ver a novela. Se Fernando elogia essa época pelo poder de ‘controlar’ o público, que via as novelas religiosamente, José, professor de Escrita Criativa e Produção de Telenovelas, valoriza a riqueza de novelas como «Gabriela» ou «Roque Santeiro», que ‘simplificavam’ o discurso de grandes obras literárias para a população. Que eram verdadeiras aulas culturais e abertas a todos. Como tal, José grita a plenos pulmões, alcoolizado, que “a novela morreu”, num claro corte com o que é hoje consumido pela audiência, a nível de qualidade. Ainda assim, o comentário assertivo de Fernando dá a Manuela uma ideia brilhante: produzir uma grande novela luso-brasileira para distrair toda a gente do escândalo – antes que ele seja realmente mencionado.

Toda a apresentação do projeto ao Primeiro-Ministro (André Gago) é uma ironia corporizada a cada frase. Pode usar-se o dinheiro do Cinema – mas esse é pouco, pelo que vão ter de convencer investidores brasileiros. Deverá lançar-se um concurso público para escolher quem vai participar e, assim, entreter os portugueses, mesmo que os vencedores já estejam à partida escolhidos; apenas para eles serem iludidos de que têm realmente uma oportunidade. Além disso, há sempre a novela... da novela: paparazzis e notícias de ‘encher chouriços’ que vão permitir que a tal produção ocupe bem mais do que apenas uma slot horária. E uma novela pode durar “seis meses, um ano, ou até mais”, atesta Dinarte Branco.

Veste-se de comédia, mas «Pais Irmão» é também um drama, desenhado com críticas bem duras aos nossos dias: novelas, entrevistas sensacionalistas, programas de comentário desportivo sem rigor e aplicações como o Facebook ou o Tinder que substituem a interação presencial pelas redes. No primeiro episódio, e ao mesmo tempo que apresenta as ‘suas’ personagens, o trio de criadores vai dizendo ao que vem, sem, para isso, descaraterizar a narrativa e quem a habita. E é aí que reside a maior vitória da nova série das segundas-feiras: a história está bem estruturada e avança sem clichés ou truques fáceis, privilegiando a ficção acima de tudo. O confronto com a realidade é, ainda assim, inevitável e a crítica dirige-se a algo que nos é querido: nós próprios. Estaremos dispostos a ouvi-la e, acima de tudo, a aceitá-la?

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