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Actualizado às 3:58 PM, Jan 19, 2020

Vem aí a temporada mais sombria de «Orange is The New Black»

Destaque Laura Prepon, Taylor Schilling Jojo Whilden/Netflix Laura Prepon, Taylor Schilling

O último episódio da quarta temporada de «Orange is the New Black» foi um dos mais chocantes na história recente da televisão. Depois de um crescendo épico que prenunciava uma tragédia, à boleia da metamorfose imparável de Piper Chapman (Taylor Schilling), a morte de uma das personagens mais queridas dos fãs deixou Litchfield em estado de sítio. Do racismo à violência gratuita, a série mais popular da Netflix teve de tudo um pouco e, quando os créditos anunciaram o inevitável hiatus de um ano, deu vontade de pedir a TARDIS emprestada ao Dr. Who. Esta sexta-feira, 9, a espera acaba finalmente. (Ainda que o suspense tenha sido estragado por um ‘hacker’, que lançou 10 episódios na Internet depois de a Netflix ter recusado pagar resgate).

O laranja nunca esteve tanto na moda como agora, ainda que Piper tenha trocado, há muito, para uma farda bem menos exuberante. Embora tenha sido inspirado na experiência real de Piper Kerman atrás das grades, a verdade é que a série nunca foi apenas sobre ela e agora, mais do que nunca, há outras personagens a captar a nossa atenção. Por sua vez, há também questões pertinentes e bastantes atuais a rebentar por entre a ficção, nomeadamente o perigo da posse de armas, a desresponsabilização mediática das autoridades e a manipulação (ou banalização) das redes sociais. Mas, no meio disto tudo, como poderíamos esquecer a presença pujante da outrora frágil Dayanara Diaz (Dascha Polanco), de arma em punho, pronta a disparar sobre o odioso guarda Humphrey (Michael Torpey)? Será que vai premir o gatilho?

Daya é, aliás, um exemplo sublime de como «Orange is the New Black» nunca dependeu em demasia da sua protagonista anunciada. O arco narrativo da personagem foi desenvolvido desde a primeira temporada e, 52 episódios depois, não nos choca a firmeza com que segura a pistola com as duas mãos. Paradoxalmente, há toda a mágoa que transporta consigo; afinal, fomos testemunhas e cúmplices do seu sofrimento, bem como das perdas que foi somando. Além disso, no motim instalado na Prisão de Litchfield, Piper está longe de estar no centro, mesmo não estando isenta de ‘culpa’. E, no primeiro episódio da nova temporada, a sua preocupação é algo bem diferente...

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A preponderância de Daya só é comparável com Taystee (Danielle Brooks), que quer fazer justiça a qualquer custo: isolada e desajeitada com as novas tecnologias, a melhor amiga de Poussey (Samira Wiley) assemelha-se a uma bomba portátil pronta a explodir. E nós estamos longe de imaginar o seu alcance. Antes muito utilizada para o comic relief – veja-se quando foi secretária de Caputo (Nick Sandow) –, Taystee é agora uma mulher com uma causa própria, totalmente destruída e capaz dos momentos mais emocionais (e genuínos) da nova temporada. Não podemos esquecer, ainda, que a sobrelotação da Prisão, adaptada à lógica corporativa, trouxe um novo potencial narrativo a nível individual mas também global, desde logo pela inclusão de extremistas e até nazis. Também outras personagens, como Linda Ferguson (Beth Dover) ou Desi Piscatella (Brad William Henke), prometem ter ainda muito para oferecer.

A storyline da nova temporada é, no mínimo, inusitada: passa-se num curto período de tempo, que começa imediatamente a seguir à season finale de 2016, e tem como foco principal o motim das prisioneiras. O primeiro episódio assume este pressuposto com toda a força, seguindo num ritmo frenético tudo o que está a acontecer no estabelecimento prisional. Porém, como se sabe, quando se quer estar em todo o lado ao mesmo tempo, algo vai falhar. Numa miscelânea descoordenada de acontecimentos em simultâneo, a trama é filmada ao jeito dos filmes de ação mais frenéticos, mas fica longe da profundidade narrativa a que «Orange is the New Black» nos habituou. Felizmente, esta tendência é invertida logo no episódio seguinte, que nos traz flashbacks de uma estreante nestas andanças.

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Desengane-se quem acha que está é mais uma série de mulheres ‘histéricas’. «Orange is the New Black» é inconveniente, mas necessária, e a discussão que traz na nova temporada – melhor ou pior conseguida –, é um verdadeiro murro no estômago. Como a atriz Jessica Chastain disse recentemente no Festival de Cannes, é preciso criar boas histórias de mulheres: aquelas que conhecemos, ou podemos vir a conhecer. E, numa altura em que se avizinha uma nova temporada televisiva repleta de homens nos papéis principais e com as mulheres em trajes estereotipados, convém olhar outra vez para o que a Netflix tem conseguido naquela que, outrora, alguns julgavam ser apenas mais uma biografia empolada. Longe disso.

Além do desenvolvimento cuidado de todas as suas personagens (salvo um ou outro caso menos bem conseguido), «Orange is the New Black» tem sido usada, inclusivamente, para trazer a lume tópicos menos conhecidos mas igualmente importantes, como o difícil acesso a bens higiénicos essenciais ou a convivência com doenças mais ferozes que a própria pena. Pode pagar-se violência com violência? Apesar da vantagem aparente, será que a luta de alguém detido pode ser alguma vez ‘justa’? A quinta temporada lembra «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998), filme no qual, focado nas distrações que encontra na sua rotina, o personagem principal não tem consciência de como ela é recebida lá fora. Então vai desenvolvendo a sua narrativa até ao momento em que esta choca com o mundo que o rodeia, e do qual ele pouco ou nada sabe. No entanto, em «Orange is the New Black» não temos qualquer vantagem – também nós, espectadores, estamos naquela Prisão. E não sabemos o que nos espera.

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