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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

«Legion»: um admirável mundo novo para a Marvel

Destaque «Legion»: um admirável mundo novo para a Marvel

A nova criação de Noah Hawley, a mente por detrás da série «Fargo», estreou na segunda-feira, 13, na Fox Portugal.

Noah Hawley é um homem que gosta de testar os impossíveis. Fê-lo em «Fargo», uma série condenada a fracassar que se tornou rapidamente a “menina dos olhos” da crítica, e quer repetir a proeza com «Legion». Naquela que é a primeira aventura televisiva do universo X-Men, não temos Wolverine, Magneto ou Jean Grey, como muitos esperariam (ou desejariam). E muito menos um estilo próximo daquele a que o franchise, criado na banda desenhada e lançado há 17 anos no grande ecrã com «X-Men» (2000), nos habituou. Visto o primeiro episódio da série da FX, que em Portugal será emitida pela Fox, fica apenas uma certeza: Hawley quer fazer algo nunca visto em narrativas do género. Mas, afinal, é possível ter uma (esperada) série de ação com muito pouca... ação?

Fica desde já o aviso: este não é o típico mundo de heróis, anti-heróis e vilões. Embora estejamos perante uma história com traços de surrealidade, há um lado muito humano no argumento e nas personagens que Hawley nos apresenta. A doença mental é explorada, a par da noção que o ser humano tem do que é ser normal, numa mistura de comédia com um drama querido a muitas famílias. A profundidade das personagens que povoam este “mundo novo” de «Legion» são, no fundo, humanas – ainda que possam ser mais do que isso –, e Hawley não nos deixa esquecer disso. Como tal, no lançamento da série protagonizada por Dan Stevens, que em breve estará nos cinemas com «A Bela e o Monstro» (2017), não encontramos a rotineira história de origem. Nem da forma temporalmente “correta”.

O argumento afinado de Noah Hawley, que também assumiu a realização do episódio piloto, vai desenhando uma espécie de universo alternativo, apenas alcançado através da mente de David e, por conseguinte, da maneira como ele o experiencia. A palavra mutante demora a ser usada, levando o público, primeiramente, numa viagem pela realidade como David a conhece. Internado há seis anos numa unidade psiquiátrica, a personagem de Dan Stevens foi diagnosticada com esquizofrenia, havendo insinuações frequentes de que as pessoas com quem se relaciona, ou os acontecimentos, podem não ser reais. O truque, próprio da magia estrutural a que Hawley já nos habituou, vai adiando a revelação inevitável da premissa de «Legion», centrada num pequeno grupo que se quer revoltar e vencer a guerra que se avizinha com as forças governamentais, numa altura em que a existência dos mutantes não é reconhecida.

Legion 4

Na banda desenhada, David é apresentado com um mutante “habitado” por diversas personalidades que, por sua vez, têm associado um poder, como telepatia ou levitação. No entanto, no primeiro episódio, as revelações são substituídas pela dúvida e, sobretudo, pela insinuação de que, numa era em que não é “normal” ser sobrenatural, o alcance dos mutantes tem tanto de perigoso como de desconhecido. Por seu lado, em vez de Charles Xavier teremos Melanie Bird (Jean Smart) na liderança, uma mulher de armas em estreia absoluta no franchise da Marvel Comics – assim como, aliás, a generalidade das personagens de «Legion». De regresso está a atriz Rachel Keller, que teve o primeiro papel de destaque em «Fargo», para dar vida ao inusitado interesse amoroso de David. O facto de este não poder tocar-lhe na pele lembra o drama do pasteleiro Ned (Lee Pace) e Chuck (Anna Friel), em «Pushing Daisies», ainda que a vítima mortal do primeiro toque não seja Syd (Keller).

Seguindo uma narrativa não linear, de acessos constantes a passados e ao presente, a informação chega na medida certa, sempre doseada de modo a prolongar o mistério ao extremo. Este fator, arriscado e até atrativo em termos de construção, deve, ainda assim, afastar alguns espectadores mais “impacientes” – o que é, desde logo, compreensível, atendendo ao choque desta série com outras do género. Entre o passado e o presente, num volte-face constante e inesperado, «Legion» vai-se moldando a alta velocidade, ganhando traços cada vez mais complexos, e atiçando a curiosidade do espectador, que, genericamente, não conhece tão bem a realidade de “Legião”, por se tratar de uma personagem menos popular – e, por conseguinte, conhecida – do que Wolverine ou Charles Xavier. Ironicamente, na banda desenhada, David é filho deste último, o responsável pelos X-Men como hoje os conhecemos, mas não se sabe se teremos a mesma ligação na série.

Assim como a música é presença assídua durante o episódio – em mais um sinal claro de que estamos perante uma abordagem diferente –, também «Legion» é algo que começa por se estranhar, mas se “entranha”. Completamente “fora” daquilo que costumamos ver na televisão, o episódio piloto da nova aposta da Fox Portugal não é facilmente recebido pelo seu público. Resta ao argumento, à boleia das constantes revelações que vamos tendo, quebrar as defesas do espectador nesta viagem surreal à história de origem de “Legião”. As reservas iniciais podem (e devem), no entanto, ser vencidas pelas boas críticas que a série tem tido um pouco por todo o mundo, bem como pela confiança que o seu criador já nos merece.

Legion 3

Quando foi anunciado que Noah Hawley seria o responsável pela adaptação do inesquecível «Fargo» (1996), dos irmãos Coen, para a televisão, as desconfianças eram mais do que muitas. E, em certa medida, justificadas. Com um currículo humilde, Hawley assumia o comando de um projeto que muitos garantiam ter morte certa, e o peso da responsabilidade de estar à altura do universo criado quase 20 anos antes adivinhava-se insuportável. O argumentista e produtor tinha-se estreado nas lides do pequeno ecrã em 2005, como argumentista de «Ossos», mas, depois de 43 créditos em três temporadas, lançara os seus próprios projetos televisivos, «The Unusuals» e «My Generation», ambos condenados a não ter uma segunda temporada.

Três anos depois, e com «Fargo» aclamada pela crítica e perto de estrear a sua terceira temporada, a notícia de que seria Noah Hawley a encabeçar a nova aposta da Marvel traz consigo um “sentimento” diferente, assim como conjunto de expetativas: até onde será capaz de ir, nomeadamente em termos visuais? O primeiro episódio de «Legion», escrito e realizado por Hawley, é um bom augúrio do que nos espera no futuro, ainda que num registo bem longe do que temos em séries como «Agents of SHIELD» ou «O Demolidor». A sua ousadia leva-nos até a desconfiar que, caso o seu estilo seja bem-sucedido, estamos a testemunhar uma nova era para as séries da Marvel. No entanto, passado o deslumbre visual, será que o que está “escondido” por baixo vai convencer as audiências?

Mídia

Modificado emterça, 14 fevereiro 2017 23:26

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