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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

Westworld - melhores séries 2016 #1

Destaque Westworld - melhores séries 2016 #1

O Velho Oeste nunca foi tão assombroso como em «Westworld», a série da HBO inspirada no filme assinado por Michael Crichton em 1973, «O Mundo do Oeste». A narrativa surpreendente é amplificada por aquele que é, talvez, o melhor elenco alguma vez reunido em televisão, onde se contam nomes como Anthony Hopkins, Ed Harris, Evan Rachel Wood ou Jeffrey Wright, e Thandie Newton, que se afirmou como uma atriz de um nível superior. Nenhum pormenor é descurado, da tecnologia às nuances do discurso, pelo que «Westworld», que em Portugal é emitida pelo TV Séries, surge naturalmente como a melhor série de 2016. Mas, afinal, o que faz do projeto televisivo criado por Jonathan e Lisa Joy Nolan, e com produção executiva de J.J. Abrams, algo tão especial?

Ironicamente, o remake de «O Mundo do Oeste» era um sonho antigo que muitos realizadores/produtores rejeitaram, entre os quais o próprio Crichton, talvez porque as sequelas do original acabaram por não corresponder às expetativas. Apesar da coragem evidente dos Nolan e J.J. Abrams, e da HBO, os envolvidos sabiam que iam ter todas as atenções centradas na série até ao mais ínfimo pormenor, pelo que a data de estreia foi sucessivamente adiada e, embora a segunda temporada já tinha sido confirmada, só chegará em 2018. Além dos efeitos visuais e da complexidade do universo criado, também o argumento é uma parte fundamental, e qualquer detalhe pode por em causa todo o propósito de «Westworld».

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Os cowboys estão de regresso, mas longe do charme dos antigos westerns. No parque temático inspirado no Velho Oeste, o ambiente, criado a rigor, é uma visão muito superficial daquilo que se pode encontrar lá. Altamente tecnológico, «Westworld» é habitado por androides que, desconhecedores da sua verdadeira realidade, vivem a sua storyline religiosamente todos os dias, sendo que esta deverá ser apenas alterada por influência dos visitantes que, por um preço, têm liberdade para fazer o que bem entenderem. Ali, pode-se tudo, desde homicídio a violação, exceto morrer: os robôs estão destinados a sofrer, a esquecer e a renascer, num ciclo aparentemente sem fim, onde a escolha é uma cruel ilusão. E onde não podem responder à altura da violência que recebem.

Por seu lado, a tecnologia é discutida para além da ação, seja através dos diálogos ou da inevitabilidade da narrativa. No centro, a consciência, ou a problematização da mesma. Será mensurável? O código inscrito nas máquinas deixa margem para elas serem livres? Como autênticas marionetas, os androides são movidos por “deuses”; veja-se, por exemplo, as imagens poderosas dos técnicos da Delos, a empresa detentora do parque temático, que observam o mundo em miniatura, como um ser omnipresente e totalitário que exerce um domínio absoluto. Não obstante, e tal como as máquinas são limitadas, também o ser humano tem os seus obstáculos, que vão desde a incapacidade de estar efectivamente em todo o lado à incapacidade de explicar os acontecimentos inusitados – e as falhas – que começam a decorrer em «Westworld».

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“Questiono-me se terei mudado durante a noite. Deixa-me pensar. Era a mesma quando acordei esta manhã? Quase acho que consigo lembrar-me de que me senti um pouco diferente. Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é ‘Quem sou eu?’. Ah, esse é um ótimo puzzle”. As palavras do livro Alice no País das Maravilhas são replicadas por Dolores (Evan Rachel Wood), um dos robôs presentes em Sweetwater, localidade que recebeu esse nome em homenagem a «Aconteceu no Oeste» (1968), o western favorito de Jonathan Nolan. Os ecos do passado são, aliás, frequentes e começam logo na banda sonora, que conta com a “reinvenção” de clássicos de bandas como os Rolling Stones ou Johnny Cash. A tendência alastra-se ao universo da narrativa, com algumas máquinas a ouvirem vozes que parecem vir de um outro tempo.

Os seres humanos estão longe de ser os protagonistas ou heróis desta história. Veja-se o caso do homem de negro, interpretado por Ed Harris, uma personagem mistério que, tal como o robô vingativo de «O Mundo do Oeste» (que tem um breve cameo no sexto episódio), parece ser movido por razões desconhecidas. Deste modo, e embora a natureza das máquinas tenha um foco incontornável, a verdade é que a aprendizagem ultrapassa os seus circuitos e se alastra, quase eletricamente, àquilo que é, afinal, ser-se humano. O que pauta a diferença? É possível esbatê-la? Não seremos todos “marionetas” presas irremediavelmente na mesma rotina e nos mesmos erros? A haver uma resposta, teremos de aguardar pela próxima temporada.

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Embora chegue apenas em 2018, a continuação da história parece introduzir, assim como acontecia no filme de 1973, outros parques temáticos. A breve aparição de samurais-androides, com as letras SW (Samurai World?) em pano de fundo, abrem a porta uma complexidade de linhas temáticas que ultrapassa as temporais. Já o desenlace absolutamente brutal de “The Bicameral Mind”, a season finale, que cruzou as pontas deixadas em aberto ao longo da temporada, deixou ainda mais perguntas sem resposta do que antes e um sem fim de possibilidades à espreita. Apesar de Anthony Hopkins, que dá vida a Robert Ford, a mente por detrás de Westworld, ter voltado a confirmar-se como um dos melhores atores da sua geração, têm sido as “máquinas” Evan Rachel Wood e Thandie Newton (Maeve) a arrebatar nomeações. A segunda, aliás, é um das surpresas entre os nomeados aos Globos de Ouro na categoria principal de drama, a par da colega, mas é a única atriz deste elenco de luxo a destacar-se com uma nomeação individual nos Screen Actors Guild Awards. Curiosamente, nos Critics’ Choice, em série dramática, Evan venceu como atriz principal e Thandie como secundária.

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